Artigo: João Lyra Neto já senta na janela de 2014

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060712nc226-1Na década de 50, quando o Porto do Recife era o principal terminal marítimo do Nordeste e quando Suape ainda era só uma ideia em desenvolvimento pelo Padre Joseph Lebert, uma coluna do Jornal do Commercio servia para, além de relatar o intenso movimento do porto, dar alguns recados do mundo político disfarçado de informe sobre a beira do cais.

‘Aviso aos Navegantes’ não era apenas leitura de importadores, exportadores e gente ligada ao comércio. Era uma espécie de farol que alertava sobre o que vinha por aí, fosse no mar ou na terra.

Se fosse publicada nos dias atuais, ‘Aviso aos Navegantes’ teria um pacote de excelentes notas sobre o debate que deve acontecer no comando do Governo de Pernambuco em 2014, quando Eduardo Campos (PSB) terá que deixar o cargo para cuidar da campanha presidencial que, neste momento, insiste em negar (ao menos publicamente).

E avisaria aos navegantes que quem deseja pilotar a “ponte de comando” do barco chamado Pernambuco deve saber que até 31 de dezembro de 2014 o comandante dele será João Lyra Neto e que, no dia seguinte, ele também deseja continuar no cargo por mais quatro anos. Naturalmente, combinando com os eleitores.

O que o aviso poderia dizer, de fato, é que apesar de jurar de pés, mãos, joelhos e cotovelos juntos, Eduardo Campos já definiu que o candidato ao governo pelo PSB será o vice-governador podendo, inclusive, já sentar na cadeira no dia 2 de janeiro próximo, uma vez o governador parece estar cada vez mais disposto a sair pelo Brasil no início de 2014, sem nem esperar o prazo-limite de 30 de abril.

É que Eduardo sabe que o seu vice não quer apenas a foto na galeria de ex-governadores pelo resto do mandato, depois de sete anos ao seu lado. Nem se contentará com os oito meses a que terá direito quando da saída do governador pela legislação eleitoral.

Como todo vice, Lyra Neto deseja ser testado numa eleição em que estará no comando do governo do estado, e mais: com a caneta do Diário Oficial na mão, o que lhe dará o direito de fazer bondades e maldades, inclusive contra o próprio candidato a Presidência da República, do PSB, se ele não se comportar conforme o combinado.

E, pensando bem, não há por quê Eduardo Campos se preocupar com outros nomes? Por que tentar demover Lyra Neto da ideia? Logo ele, que esteve ao seu lado em todas as reuniões de monitoramento do governo e até sentou praça na reestruturação da Secretaria da Saúde, jogando seu peso de vice-governador quando das resistências à reestruturação da pasta, tecnicamente operacionalizada pelo secretário-executivo Fred Amâncio, atualmente à frente do Planejamento?

Como a maioria dos outros vices, João Lyra sempre esteve por perto de Eduardo Campos cuidado bem de perto de seu espaço muito além de sua Caruaru. Desde que permaneceu como vice na campanha da reeleição, ele sabia que, no mínimo, teria 240 dias na ponte de comando do barco, quando Eduardo Campos saísse do cargo e, discretamente, ele foi se organizando no governo. Além disso, o governador sabe que com vice no comando não se brinca.

Como boa parte dos políticos de Pernambuco, Eduardo Campos sabe da história ocorrida há alguns anos com Jarbas Vasconcelos e seu grupo político sobre o que é enfrentar um vice no comando. Segundo a história, em 2006, quando o hoje senador detectou, em pesquisas Quali, as dificuldades de Mendonça Filho na eleição que perdeu, sequer pode levantar a ideia de um outro candidato, pois, Mendonça Filho (que já estava no comando), como todo cidadão, deixou muito claro que desejava se colocar para o julgamento do povo. Portanto, pensar que poderia convencer João Lyra em não ser candidato é uma hipótese que nem se discute.

O fato novo, ou melhor, o que pode ser o fato novo, em relação a Eduardo Campos, é ele sair em janeiro. Para João Lyra seria o paraíso: um ano de governo renovável por mais quatro se for eleito. Teria, claro, a obrigação de ser um escudeiro fiel de Eduardo Campos na saúde e na doença. Mas, se perdesse já teria, como governador, vivido a emoção de ouvir, por um ano, todos os dias, os acordes do hino de Pernambuco tocado pelo corneteiro da Polícia Militar quando chega para trabalhar.

Além disso, o que já é bom poderá ficar ainda mais interessante para ele, pois, se Eduardo Campos decolar, a onda de votos nacional em seu favor o ajudaria muito a “surfar” na onda socialista e virar, efetivamente, um candidato competitivo. Resumindo: João Lyra não tem, rigorosamente, nada a perder. Então, por que não iria se arriscar a ter a chance de disputar o governo? Logo ele, que vai estar em todo noticiário oficial como anfitrião da Copa do Mundo de 2014, com Recife na condição de cidade-sede da competição ano que vem.

O diabo dessa conversinha de Eduardo e seu fiel vice (que inclusive foi líder do governo de Miguel Arraes quando deputado estadual) é que ela é tudo que gente como Armando Neto e Fernando Bezerra Coelho não quer saber, pois, significa que estariam fora do jogo de 2014. Para FBC, nem a vaga de senador estaria em disputa, pois a volta de Jarbas Vasconcelos do caminho da perdição já previu a sua candidatura à reeleição.

Até porque, será Jarbas quem vai pegar Eduardo Campos pela mão e rodar o Brasil nos lugares onde o PMDB local não fecha com a patota de Michel Temer e seu presidente burocrata Waldir Raupp (PMDB-RO).

É aí que a história da coluna Aviso aos Navegantes passa a ter sentido. Até porque isso já foi lido, relido e percebido tanto por FBC como por Armando Neto. Como são do ramo, os dois estão cuidando do que pode ser seu. Eles já sabem melhor do que ninguém que daquela moita de Eduardo e João não vai sair nada que beneficie ninguém, inclusive um Coelho.

Isso, talvez explique o que os dois fazem neste momento no interior, e como fazem. Pensando bem, por que diabos o aristocrático Armando Neto estaria se esbaforindo de segunda a domingo visitando prefeito e vereador no interior? Por que o Sommellier Monteiro Neto estaria hoje tomando cerveja Kayser quente, uisque Old Eight, em copo de plástico, e comendo bode assado, se não quisesse se afirmar ou se inserir no contexto?

Ou por que o sertanejo FBC se prestaria ao papel de escudeiro de Dilma Rousseff, sabendo que ela não confia nele e que só turbinou seu ministério porque as pesquisas do PT e da própria presidência da República dizem, claramente, que o Governo Federal tem que se fazer presente de alguma forma no Semiárido para que Eduardo Campos não ocupe esse espaço?

Certo, Fernando Bezerra Coelho é bicho de casca grossa, aguenta sol e sede no Sertão e é capaz de falar com cada um de seus prefeitos e correligionários chamando-os pelo nome – uma das lições que aprendeu, ainda jovem, com o velho Nilo Coelho, seu tio e mentor. Mas, não faria isso se contasse com a chance de ganhar a vaga na janela do PSB de Pernambuco.

O complicador dessa estratégia dos dois é que João Lyra Neto leva uma enorme vantagem. Pela força do cargo ele já senta na primeira fila. Nem FBC nem Armando Neto, por exemplo, têm assento nas reuniões de monitoramento que Eduardo Campos tanto fala. Além disso, com as viagens de Eduardo Campos, cada vez mais frequentes, quem assina o Diário Oficial quando o governador não está no cargo?

Tem mais: empresário de sucesso em vários setores, raposa velha na política do Agreste, João Lyra sabe cortar dobrados com faca cega. Comparado à briga de foice no escuro de adversários como Tony Gel e José Queiroz na “República de Caruaru”, FBC e Armando Neto são bem mais fáceis.

Além disso, João Lyra, por força da afinidade com o irmão Fernando, falecido este ano, esteve a par de tudo que foi conchambrança de nível nacional desde os tempos de Tancredo Neves. Também foi prefeito de sua Caruaru por duas vezes, saindo com altíssimos índices de aprovação. Finalmente, Eduardo Campos sabe que seu vice-governador não é nenhum menino para jogar tudo a perder, abrindo o racha no PSB para onde deve se bandear oficialmente nos próximos dias. Até porque ainda está bem viva na sua memória a burrice do PT de negar candidatura nata a João da Costa, que custou muito caro ao PT.

Resumindo: sendo um vice com prazo de ascensão daqui um ano, filiado com ficha assinada pelo presidente do partido e candidato preferencial à eleição, com direito a apenas um mandato, João Lyra está só esperando o tempo passar, passando o terno e escolhendo a cor da gravata da posse.

Talvez, por isso, é que Fernando Bezerra e Armando Neto tanto se mexem. Até porque sabem que se não agirem rápido podem, literalmente, ficar a ver navios, já que o “paquete” do governador está atracado apenas para o vice assumir a ponte de comando, usando aqui uma linguagem mais adequada à coluna Aviso aos Navegantes.

 Fernando Castilho/Colunista do JC Negócios -Jornal do Commercio

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