Neste artigo, o colaborador Rivelino Liberalino propõe uma reflexão sobre a busca constante por validação em tempos de redes sociais. A partir de uma cena cotidiana, ele questiona a necessidade de aparentar sucesso e discute como a construção de “personagens” pode afastar as pessoas de sua própria essência, gerando cansaço emocional, insegurança e perda de identidade.
Confiram:
Hoje eu parei. Mas não foi uma pausa qualquer. Foi daquelas em que a alma cansa… cansa de ver, de engolir, de fingir que não percebe. E quando eu parei… veio um aperto. Um aperto quieto, profundo, quase constrangedor… como se algo dentro de mim dissesse: “olhe direito… você está vendo o que isso virou?”
Eu vi um rapaz. Vinte e poucos anos. Se apresentando como CEO de uma empresa que sequer existia regularmente. Olhar firme… mas não sereno. Postura segura… mas não sustentada. Palavras de quem venceu… mas ainda sem cicatriz. Falava de superação. Falava de vitória. Falava como quem já atravessou tempestades… sem ainda conhecer o peso de uma noite escura de verdade. E aquilo… meu Deus… aquilo ficou.
Ficou porque eu conhecia a realidade dele. E o que ele mostrava não era uma mentira fria. Era algo mais triste. Era necessidade. Era um pedido de valor disfarçado de conquista. Era como se, por trás de cada frase bonita, existisse um grito baixo, quase imperceptível: “eu já sou suficiente agora?” E talvez essa seja a pergunta mais dolorosa do nosso tempo.
Porque nós desaprendemos a respondê-la em silêncio. Desaprendemos a olhar para dentro. E passamos a depender do olhar dos outros… como quem depende de ar. E quando isso acontece… a gente começa a se perder. Não de uma vez. Mas em pequenas traições. Pequenas concessões. Pequenos personagens. Até que, um dia… a gente já não sabe mais quem é.
Só sabe representar.
E isso adoece. Adoece de um jeito bonito por fora… e devastador por dentro. Uma sociedade bem iluminada… e profundamente cansada. Pessoas boas… se sentindo insuficientes. Gente honesta… duvidando do próprio valor… porque não consegue competir com algo que nem existe. E aqui, com toda a honestidade que me resta, eu preciso dizer: o problema não é quem encena. É quem acredita.
É quem olha… se compara… e se diminui. É quem vai se encolhendo por dentro… tentando caber numa expectativa que não nasceu dele. E isso vai machucando. Vai cansando. Vai drenando.
Machuca quando você se cobra além do que pode. Machuca quando nada parece suficiente. Machuca quando você sente que está atrasado… sem nem saber para onde está correndo. E o corpo sente.
Sente o sorriso forçado. Sente o “tá tudo bem” que não está. Sente cada vez que você se abandona para sustentar uma imagem. Atuar… custa caro. Não em dinheiro. Em alma. E talvez esse seja o preço mais alto que estamos pagando sem perceber. E mesmo assim… ninguém para. Porque parar dá medo.
Medo de não ser visto.
Medo de não ser aceito.
Medo de descobrir que, sem o personagem… talvez a gente nem saiba quem é.
Então seguimos. Encenando. Provando. Forçando uma felicidade frágil… que se quebra no silêncio. E nos abandonando… lentamente. Quase sem perceber. Talvez esteja na hora de fazer uma pausa de verdade. Não para postar menos. Mas para se escutar mais. Para ter coragem de encarar perguntas que não cabem em legenda: pra quem você está tentando provar o seu valor?
Quem é você… quando ninguém está olhando? Existe ainda um você… ou só sobrou o personagem?
Porque a vida real… não tem filtro. Não tem roteiro. Não tem aplauso garantido. A vida real tem falha. Tem tropeço. Tem dias em que você não consegue… e ninguém vê. E isso não é fracasso. Isso é humano. O que não é humano… é viver o tempo inteiro tentando parecer. Nós estamos criando uma geração que brilha por fora… e se apaga por dentro.
E isso não é exagero. Isso é o que está acontecendo… agora.
Talvez seja hora de voltar. Não para desaparecer. Mas para se encontrar. Para aceitar que você não precisa ser extraordinário o tempo inteiro. Para entender que não há vergonha nenhuma em estar no começo. Para reconhecer que fingir força não te fortalece… só te afasta de quem você é.
Porque, no fim…
não são as curtidas que sustentam. Não são os números. Não são os aplausos. É o que você consegue ser… quando tudo silencia. É a verdade que você encara… quando não tem mais para onde fugir. Se isso te incomodou… não fuja.
Esse incômodo não é fraqueza. É um chamado. Talvez o último… antes de você se perder de vez. Porque, num mundo onde quase todo mundo virou personagem… ter coragem de ser de verdade… já não é mais virtude. É sobrevivência… ou desaparecimento silencioso.
Rivelino Liberalino


