Em novo artigo, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino suscita reflexões sobre pautas da atualidade, a exemplo da recente polêmica envolvendo a cantora Daniela Mercury e o cantor Edson Gomes. Confiram:
Há uma linha invisível, mas absolutamente sagrada, que separa a defesa de uma causa da violação da dignidade humana.
E quando essa linha é ultrapassada, algo se rompe.
Não apenas na pessoa atingida.
Mas na própria causa que se pretendia defender.
Vivemos um tempo em que pautas legítimas ganham voz. E isso é bom. É necessário. É civilizatório. A luta contra a violência contra a mulher, por exemplo, não comporta relativizações. Ela precisa ser firme, constante e inegociável.
Mas há um ponto que precisa ser dito com coragem, com lucidez e com responsabilidade:
nenhuma causa, por mais justa que seja, autoriza a imprudência.
Porque palavras não são neutras.
Palavras constroem narrativas.
Palavras geram consequências.
E há uma verdade antiga, simples e implacável: pedra lançada e palavra dita não voltam atrás.
Quando se dirige a alguém, em público, uma fala que sugere, ainda que de forma indireta, uma conduta grave, sem qualquer prova, o que se está fazendo não é militância. É exposição.
E exposição, quando desamparada de verdade, é injustiça.
Dizer a um homem, diante de todos, que ele “seja carinhoso com sua esposa”, imediatamente vinculando essa fala à violência contra a mulher, não é neutro. Não é inocente. Não é apenas um conselho genérico.
É uma insinuação.
E insinuações públicas têm peso.
Têm consequência.
Têm impacto.
Porque a palavra, quando sai da boca de quem tem palco, não é apenas som. É construção de narrativa. E uma vez lançada, ela não retorna ao ponto de origem, ela se espalha, se deforma, se cristaliza.
E narrativas podem ferir.
O que se esquece, muitas vezes, é que o ser humano não cabe em moldes únicos. Não existe uma única forma de amar. Não existe um padrão universal de afeto que sirva de régua para julgar o outro.
Há quem ame no abraço.
Há quem ame no silêncio.
Há quem ame no cuidado diário, discreto, invisível aos olhos de quem só reconhece o afeto performado.
Eu mesmo já vivi isso.
Não cresci recebendo abraços do meu pai. Não era da natureza dele. E por muito tempo, na minha carência, eu buscava isso no mundo, abraçando pessoas, como quem oferece algo, quando na verdade estava pedindo.
Pedindo o que me faltava.
Até que um dia compreendi.
Não foi num gesto efusivo.
Não foi num abraço.
Foi num olhar.
Um olhar de orgulho. Um sorriso contido ao me ver de paletó.
Ali estava o amor dele. Inteiro. Autêntico. Apenas diferente.
E foi nesse dia que aprendi uma lição que parece ter sido esquecida:
amor não é espetáculo.
Por isso, é profundamente injusto, e até perigoso, querer medir a dignidade de alguém por uma régua emocional que não lhe pertence.
O problema não está na causa.
O problema está na forma.
Porque quando a forma se perde, a causa se enfraquece.
E isso é o que mais preocupa.
Estamos assistindo, pouco a pouco, a um esvaziamento de credibilidade em movimentos que deveriam ser fortes. Não por falta de razão. Mas por excesso de imprudência.
A palavra perde o peso quando se afasta da verdade.
A denúncia perde força quando se banaliza.
E a causa perde legitimidade quando passa a constranger sem fundamento.
E aqui cabe uma reflexão que não pode ser ignorada:
defender o certo não autoriza fazer o errado.
É triste, profundamente triste, perceber que figuras que marcaram a nossa juventude, que já foram referência de sensibilidade e equilíbrio, hoje se vejam envolvidas em falas que flertam com a irresponsabilidade.
Não se trata de negar a causa.
Trata-se de preservar a dignidade humana dentro dela.
Porque tudo na vida é cíclico.
As pessoas mudam. As ideias evoluem. Os posicionamentos se transformam.
Mas há pilares que não podem ser negociados: a dignidade, a credibilidade, o respeito pelo outro.
Quando esses pilares são abalados, não é apenas a pessoa que se fragiliza. É todo o discurso que ela sustenta.
E talvez o alerta mais necessário, neste momento, seja este: nenhuma luta se sustenta sobre a injustiça.
E nenhuma voz, por mais potente que seja, pode se sobrepor ao direito básico de qualquer ser humano: o de não ser exposto por aquilo que não foi provado.
Fica a inquietação.
Porque, no fim das contas, a pergunta que permanece é simples e incômoda:
quem defende a dignidade… pode abrir mão dela no caminho?
Rivelino Liberalino


