Artigo do leitor: “Pedagogia para a Covid-19”

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Foto: Ilustrativa/Alair Ribeiro/MidiaNews

O professor Bartolomeu Barros Jr. acredita, neste artigo enviado ao Blog, que a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) mudou profundamente a forma da relações sociais e, consequentemente, de educação dos estudantes. Nesse contexto, ele acredita ser necessário rever não apenas o lado empresarial das escolas, mas a forma de ensinar a partir de agora.

Confiram:

Senhores diretores e diretoras, coordenações pedagógicas, responsáveis e estudantes.

Permitam-me tratar de um assunto que cabe a toda comunidade escolar, pais, serviços de apoio e alunos. Ao mesmo tempo em que os convido para o debate. É preciso reconhecer cientificamente do que se trata uma pandemia. Em especial, a que estamos constatando enquanto um enorme problema de saúde pública. O novo coronavírus traz um efeito biológico e social amplo e duradouro. As pesquisas já realizadas, a expectativa de uma vacina e as experiências das primeiras cidades que sofreram com a Covid-19 na China nos apontam que estamos longe do controle da situação. Diante deste cenário, não é possível querer e prever um ano letivo nas mesmas condições que tivemos até então.

Houve alteração completa das nossas relações sociais e de convivência institucional e ambiental. Caso pensemos em uma educação de qualidade para nossos filhos, será preciso um processo educativo totalmente diferente do que temos. Espera-se que devemos produzir e conhecer novas maneiras de nos relacionarmos e aprendermos. É claro que temos um método de ensino-aprendizagem bastante consolidado e com resultados consideráveis, como a EaD (Educação a Distância), mas por ser uma modalidade de ensino legítima, não quer dizer que esteja disponível para aplicação em todos os níveis de ensino, todos os perfis de público, pronta para dar conta de especificidades dos campos de saber e disponibilidade tecnológica.

Surge uma pergunta: se esta pandemia fosse há 20 anos? Teríamos assumido que tipo de perda?

Neste cenário, alguns gestores estão perdidos pelo impacto dessa catástrofe ou estão ansiosos pelas oportunidades de lucros nas crises. É aqui que este cenário fica mais difícil de ser encarado. Pois não basta transferir todo processo educativo para uma modalidade não presencial. O saldo dessa estratégia menos pedagógica e mais empresarial tem analogias com as disputas dos que querem abrir todo o comércio em detrimento dos riscos à saúde e da vida dos trabalhadores. São decisões que não devemos permitir erros, especialmente por debatermos com uma contradição: educação (pedagogia) é o oposto de isolamento.

As famílias não possuem estruturas nem acervo pedagógico e emocional que substituam o professor e os colegas de classe. Aliás, a pandemia é uma oportunidade para valorizarmos o papel desses profissionais que fazem parte das necessidades básicas da população, como os da saúde e da segurança. Esses professores já estão em pesquisas para os novos desafios de sua profissão, pois já sentem o efeito dos problemas laborais no distanciamento social. O que pode revelar assédios em relações de trabalho remoto com a gestão, além da ampliação de suas obrigações e comprometimento de seu cotidiano de quarentena com a família. Por outro lado, os pais, avós, responsáveis já sofrem com essa imposição de uma pedagogia do imediatismo. Além da ameaça da doença, estamos obrigados a conviver com pressões de metas caducas e postas agora sobre uma rotina insegura.

Precisamos agir de imediato e impedir soluções que parecem querer mais garantir a economia da escola, ao invés de pensar propostas de acordo com os efeitos da pandemia na vida dos professores, estudantes e suas famílias. Neste contexto é preciso identificar, também, as relações e as disputas que ocorrem no interior dos conselhos de educação e o lobby de empresas e o mercado educacional.

Nossos filhos não estão aprendendo nada com esses improvisos e descasos mediados por uma comunicação precária a distância. Nossos professores não merecem se desdobrar no escuro pelo desconhecimento dos métodos e da didática desvinculada dos nexos necessários para se compreender e explicar os conhecimentos e a realidade para os alunos. As famílias não possuem equipamentos suficientes e de qualidade para atestar a EaD.

Os jovens que estão na iminência dos exames vestibulares e o ENEM 2020 precisam ter iguais condições de participarem. Para tanto, é necessário e urgente adiar o calendário de provas e oferecer segurança psicológica aos candidatos.

É preciso que encontremos formas de superar todos os problemas na perspectiva da solidariedade, do acolhimento e no compromisso com a qualidade da formação. Não estamos vivendo uma oportunidade para meritocracia e performance. Estamos vivendo sobre um ritmo social diferenciado e sui generis. Que deverá ter efeitos traumáticos em todos nós.

Devemos acolher as proposições de pesquisadores sérios e entidades que defendem uma educação de qualidade para todos. Sugerindo soluções que se importam com a vida, com a família, com os contextos de desigualdades e com uma sociedade democrática. E indicar para os pais, estudantes, gestores e o legislativo que há outras alternativas. A exemplo das publicizadas pelos https://avaliacaoeducacional.com/ e http://pansophia.org/.

Bartolomeu Barros Jr./Pai de três estudantes na educação básica e Professor do IF Sertão-PE

3 COMENTÁRIOS

  1. Acho que isso demonstra o fracasso do atual modelo escolar, que hoje apenas serve para aglomerar informação na cabeça de estudantes, que no futuro não usarão para quase nada útil em suas vidas, visto a quantidade de jovens que saem das escolas sem saber o que fazer da vida, sem desenvolver qualquer habilidade profissional, além de forçá-los a conviver com pessoas que não querem, resultando em muitos casos de violência, depressão, uso de drogas, bullying e ansiedade social.

    O modelo atual de escola que temos ainda é o mesmo do século XIX, que fora criado para fins militares pelos prussianos, para criar máquinas de guerra mortíferas, sem qualquer tipo de escrúpulos.

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