Artigo do leitor: “O Brasil não está dividido; está hipnotizado”

por Carlos Britto // 16 de maio de 2026 às 21:49

Foto: Roque de Sá/Agência Senado arquivo

Neste novo artigo, o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, analisa a atual conjuntura do país. Confiram:

Existe uma tragédia silenciosa acontecendo diante dos nossos olhos. E talvez o mais assustador seja perceber que ela não nasceu apenas da ignorância. Nasceu da manipulação emocional das massas, da substituição da verdade pela conveniência e da transformação da política numa religião fanática.

O brasileiro foi lentamente treinado para deixar de pensar e começar a torcer.

E quando uma sociedade troca consciência por torcida, ela deixa de produzir cidadãos. Passa a fabricar devotos.

Hoje, milhões já não defendem ideias. Defendem identidades emocionais. Defendem narrativas porque suas emoções, seus grupos sociais e até o próprio ego foram amarrados a elas.

Eis a grande doença do nosso tempo.

O sujeito não pergunta mais:

“Isso é verdadeiro?”

Ele pergunta:

“Isso protege meu grupo?”

“Isso protege minha bolha?”

“Isso protege a fantasia política que construí para mim mesmo?”

Por isso tanta gente passou anos negando aquilo que estava escancarado diante dos olhos do planeta inteiro.

Mensalão.

Petrolão.

Empreiteiras.

Delações.

Operações da Polícia Federal.

Bilhões desviados.

Diretores confessando.

Empresários presos.

Mala de dinheiro.

Apartamentos abarrotados de espécie.

Um dos maiores escândalos de corrupção da história contemporânea mundial.

E ainda assim havia quem repetisse: “Não existiu.”

Ora, em nome da honestidade intelectual, façamos uma pergunta simples:

vocês realmente acreditam que tudo aquilo foi inventado do nada?

Vocês já pararam para perguntar por que advogados milionários cruzavam o país em aviões particulares para defender determinadas figuras?

Já perguntaram por que tantos acordos de colaboração explodiram simultaneamente?

Já perguntaram por que dezenas de estruturas empresariais colapsaram?

Já perguntaram por que tantos agentes políticos caíram?

Não se movimenta uma engrenagem judicial daquele tamanho em torno de um delírio infantil.

Pode-se discutir excessos.

Pode-se discutir abusos.

Pode-se discutir nulidades.

O Estado de Direito exige isso.

Mas negar a materialidade histórica de boa parte daqueles fatos já não é defesa política. É militância emocional.

E o mais grave:

muitos dos que gritavam “defesa da democracia” simplesmente silenciaram diante de absurdos praticados pelo próprio sistema que diziam combater.

Porque a verdade inconveniente é essa: o problema do fanatismo político não está na direita nem na esquerda.

Está na incapacidade moral de condenar o erro quando o erro é praticado “pelos nossos”.

O cérebro humano, capturado por uma tribo ideológica, passa a defender narrativas como mecanismo de sobrevivência emocional.

A verdade deixa de ser um valor.

Passa a ser um obstáculo.

E então surgem as aberrações morais:

o crime do adversário vira escândalo;

o do aliado vira relativização sofisticada.

Enquanto isso, o povo segue sendo manipulado como massa emocional de manobra.

E aqui entra uma reflexão profunda sobre Jair Bolsonaro.

Durante anos, disseram:

“Bolsonaro é grosso.”

“Bolsonaro não tem liturgia.”

“Bolsonaro fala errado.”

“Bolsonaro é rude.”

E eu sempre me perguntava:

vocês queriam um presidente ou um mestre de cerimônias?

Porque Bolsonaro jamais enganou ninguém sobre quem era.

Nunca vendeu a imagem de aristocrata europeu.

Nunca tentou parecer intelectual de salão francês.

Sempre carregou o traço duro de uma geração militarizada, direta, formada numa cultura mais rígida, mais áspera, mais “raiz”.

Mas transformaram grosseria verbal em crime moral absoluto enquanto relativizavam escândalos monumentais que drenaram bilhões da nação.

A estética passou a valer mais que a substância.

A embalagem passou a valer mais que o conteúdo.

E isso me lembra imediatamente José Américo de Almeida, autor de A Bagaceira, um dos maiores intelectuais e políticos da história nordestina.

Diziam que José Américo era feio.

Ironizavam sua aparência.

Tentavam reduzir um gigante intelectual à estética física.

Até que ele respondeu com uma frase eterna:

“Vocês querem um governador ou um reprodutor?”

Pronto.

Ali estava enterrada a superficialidade nacional.

Hoje vivemos algo parecido.

Uma sociedade treinada para consumir performance.

Para idolatrar aparência.

Para confundir eloquência com caráter.

Para trocar firmeza moral por verniz social.

E enquanto isso, o Brasil vai sendo lentamente destruído por dentro.

Parte da classe artística, que deveria funcionar como consciência crítica da sociedade, em muitos momentos transformou-se apenas em braço emocional de projetos ideológicos.

O exemplo de Michel Foucault na Revolução Iraniana é assustador.

Um dos maiores intelectuais do século XX, estudioso das prisões, do controle estatal e dos mecanismos de opressão, apaixonou-se pela Revolução Iraniana. Ignorou alertas. Desprezou críticas. Tratou denúncias como preconceito ocidental.

Depois vieram execuções.

Perseguições.

Mulheres presas.

Homossexuais enforcados.

Minorias perseguidas.

E o intelectual que estudava o poder opressor silenciou.

Isso prova uma verdade dolorosa:

inteligência não imuniza ninguém contra cegueira ideológica.

Às vezes, o fanatismo veste terno, cita filósofos franceses e fala bonito.

E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo em larga escala no Brasil.

O país está emocionalmente sequestrado.

As redes sociais agravaram tudo.

O algoritmo recompensa raiva.

Recompensa humilhação.

Recompensa simplificação brutal.

Recompensa tribalismo.

Quem diz:

“o tema é complexo”

perde alcance.

Quem diz:

“o outro lado é lixo”

viraliza.

E assim o brasileiro vai sendo lentamente treinado para odiar mais e pensar menos.

Enquanto isso, os verdadeiros donos do poder observam tudo de camarote.

Porque um povo dividido emocionalmente é muito mais fácil de controlar.

E há algo ainda mais perigoso:

o brasileiro começou a normalizar o absurdo.

Normalizou corrupção.

Normalizou incoerência.

Normalizou perseguições seletivas.

Normalizou abusos institucionais.

Normalizou a destruição moral do adversário.

Tudo em nome da tribo.

Tudo em nome da narrativa.

Tudo em nome do ódio politicamente conveniente.

Mas existe uma lei universal diante da qual todos os homens se ajoelham:

o tempo.

O tempo destrói impérios.

O tempo humilha arrogâncias.

O tempo enterra vaidades.

O tempo mostra quem mentiu.

O tempo revela máscaras.

Eu já vi homens extremamente poderosos sendo esmagados pela própria solidão.

Já vi autoridades descobrirem que cargo não compra paz.

Já vi milionários enterrarem filhos.

Já vi pessoas que controlavam multidões incapazes de controlar a própria alma.

A vida é “casa emprestada”.

E talvez a grande tragédia do nosso tempo seja justamente essa:

o homem moderno está tão ocupado tentando dominar os outros que esqueceu de governar a si mesmo.

O Brasil não precisa de salvadores.

Também não precisa de deuses políticos.

Precisa de maturidade moral.

Precisa de cidadãos que tenham coragem de condenar o errado mesmo quando o errado vem “do seu lado”.

Porque enquanto o brasileiro continuar tratando política como torcida organizada, continuará sendo manipulado por estruturas de poder que se alimentam exatamente dessa cegueira emocional.

A pergunta que fica é simples: até quando?

Até quando o povo brasileiro continuará trocando consciência por militância?

Até quando continuará entregando a própria capacidade crítica a partidos, narrativas e influenciadores?

Até quando continuará chamando fanatismo de virtude?

Porque a História já mostrou inúmeras vezes:

nenhuma sociedade sobrevive por muito tempo quando a paixão coletiva mata a verdade.

E talvez o maior ato de coragem do nosso tempo seja justamente este: voltar a pensar.

Rivelino Liberalino

Artigo do leitor: “O Brasil não está dividido; está hipnotizado”

  1. Rodrigues disse:

    Parabéns pela reflexão!!!. Relatou com precisão a atualidade social.

  2. nilson dias santos disse:

    Muito bom. Análise feita com inteligência e sem paixões. Assim deveríamos pensar todos nós, principalmente os jornalistas, influenciadores e formadores de opinião.

  3. ADALBERTO RODRIGUES ANDRADE disse:

    Sou leitor fiel desse blog e dos excelentes artigos postados aqui, e esse.é um deles.

    Na gringa,somos comparados a “cucarachas” e não é atoa.

  4. Edilberto disse:

    Concordo plenamente, é mais fácil mentir oferecendo picanha, do que dizer que não é possível compra-la. Bolsonaro tentou ser sincero, honesto, verdadeiro, estão acabando de mata-lo com torturas por 24hs. Essa situação com essa esquerda suja no poder total, pode se expandir a todos brasileiros. Com uma falsa narrativa de “golpe” prenderam mais de 1000 inocentes arbitrariamente, prática de toda ditadura COMUNISTA, pra quem se opõe ao ditador. Já vivemos uma regime de “exceção” não existe mais “Ordem e progresso”, no Rio de Janeiro organizações criminosas políticas no poder, já superam organizações criminosas dos morros. Fiquem atentos enquanto não seja tarde demais, vamos mudar esse sistema sujo em outubro com o voto, o governo faz clientelismo com dinheiro público (bolsas) pra se reeleger, depois das eleições a conta chega.

  5. Genny disse:

    Amei esse texto! Perfeito do início ao fim! Você conseguiu mostrar a verdade com muita profundidade e coerência! Fui professora por 20 anos! E posso afirmar que tudo começou na Educação! Primeiro abandonaram o Hasteamento da Bandeira e o canto do Hino Nacional semanalmente! Perdemos o Patriotismo! Depois criaram uma lei que não podia ter Reprovação, o maior absurdo dentro da educação, pois alguns aluno perderam o interesse em estudar e ampliar seus horizontes, não precisava estudar, pois não passaria pela vergonha de ser Reprovado! E por último resolveram pagar uma mesada para o aluno frequentar a escola, onde ele poderia ir só para bagunçar! O resultado está aí; uma geração que não respeita pais, professores, e não tem princípios e valores! O que vejo é a falta de Esperança em Mudanças ! O Brasil está um caos !

    1. Maria Lourdes Almeida Rodrigues disse:

      Pura verdade! Era lindo as crianças em posição de sentido, cantando o Hino Nacional com todo respeito. A Bandeira Nacional era hasteada nas ocasiões solenes. Não sei quem teve a infeliz ideia de fazer da Bandeira um pano de chão, onde tanta gente sem respeito, se enrola nela como cobertor e ainda desnecessariamente, diz que é por amor a pátria. Esse é o exemplo que os mais velhos de hoje passam para nossa juventude. Por que as autoridades que na minha época primavam pela seriedade e o respeito não impediram?. Os mais velhos gritam ,sem voz ,quando vêem tanta anarquia e tanto escândalo em nome da democracia. Para arrematar tanto desmandos, ainda interferiram na educação religiosa nas escolas. É por esse Brasil que vcs estão lutando?ou dando asas para quem não dá valor aos valores morais e éticos.?Já pararam pra escutar as letras das músicas que os nossos jovens estão cantando.?

  6. Bosco disse:

    Triste ver milhões de brasileiros achar ladrão quadrilheiros com bolsonaro ser honesto

  7. Antônio Marreco disse:

    O articulista é bolsonarista, assim demonstram seus textos. Defender a ignorância e truculência de um sujeito homofóbico, sexista e agressivo com as mulheres, revela um desvio de avaliação com a qual não se pode concordar. A análise se revela apaixonada, pois, a comparação deve ser feita sob a ótica das entregas do gestor, dos beneficiários dessas entregas, da repercussão das acoes governamentais no futuro dessas pessoas e fo país. Por isso, é bom não perder de vista o PROUNI, MINHA CASA MINHA VIDA, SAMU, AS UNIVERSIDADES CONSTRIDAS, entre muitos outros equipamentos. Não cuido aqui de fazer coro a pregadores da ignorância, mas, fazer reflexão de certas personalidades que não respeitam valores caros à humanidade.

    1. Bosco disse:

      Bom dia irmão! Vc falou td

    2. RIVELINO LIBERALINO disse:

      Antônio( Marreco) , a despeito do confortável anonimato parcial dos epítetos virtuais , muitas vezes utilizados mais para proteger a contundência do ataque do que para sustentar a coragem do debate , agradeço sinceramente seu comentário.

      Ele acaba confirmando, com impressionante precisão, uma das teses centrais do próprio artigo: o fato de que o Brasil passou a reagir menos às ideias e mais às identidades atribuídas a quem ousa formulá-las.

      Observe que, em vez de enfrentar profundamente a reflexão proposta, houve a imediata necessidade de etiquetar moralmente o articulista, como se rotular fosse suficiente para invalidar inquietações legítimas sobre comportamento coletivo, manipulação emocional e hipnose narrativa.

      Ainda assim, sua manifestação possui utilidade democrática. Ela ajuda a revelar algo preocupante do nosso tempo: a crescente incapacidade social de separar divergência política de condenação moral absoluta.

      O debate público adoece quando deixamos de confrontar argumentos para tentar interditar pessoas.

      E talvez seja exatamente por isso que tantos brasileiros hoje já não conversam. Apenas se classificam.

      De toda forma, recebo sua crítica com serenidade. Porque pensamentos verdadeiramente livres não temem contestação. Temem apenas o silêncio das consciências anestesiadas.

  8. Edilberto disse:

    Professora, admiro sua postagem e, antes de tudo gostaria de dizer que não tenho “partido nem político de estimação”, sou a favor da verdade, realidade, do ético e honesto sem hipocrisia, e contra fatos não existem argumentos. Hoje infelizmente temos um quadro de alfabetizados “funcional”, que não respeitam nem os mestres que formam todas profissões. Quando jovem após o primário, para acesso ao ginásio existia um exame de “admissão” (vestibular), nas escolas era hasteada a bandeira nacional ao ritmo do hino nacional, nos emocionava e nos fazia “patriota”. Depois já no exército, que consegui até uma promoção em pouco tempo, era reforçado o amor pela pátria. Hoje infelizmente vemos essa “esquerda suja” ratos COMUNISTAS, organização criminosa que se criou no pais, depois do regime militar, queimando a BANDEIRA NACIONAL em praça pública, criminosos que não respeitam nem um símbolo NACIONAL. Outro detalhe, era disciplinas obrigatórias OSPB (Organização Social e Politica do Brasil) e também Educação moral e cívica. Chegou o caos o pais, uma degradação, moral e de civilidade, não existe mais “justiça”. Quem denuncia os Ladrões , viram réus e são presos, já vivemos o COMUNISMO!

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