Neste novo artigo, o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, analisa a atual conjuntura do país. Confiram:
Existe uma tragédia silenciosa acontecendo diante dos nossos olhos. E talvez o mais assustador seja perceber que ela não nasceu apenas da ignorância. Nasceu da manipulação emocional das massas, da substituição da verdade pela conveniência e da transformação da política numa religião fanática.
O brasileiro foi lentamente treinado para deixar de pensar e começar a torcer.
E quando uma sociedade troca consciência por torcida, ela deixa de produzir cidadãos. Passa a fabricar devotos.
Hoje, milhões já não defendem ideias. Defendem identidades emocionais. Defendem narrativas porque suas emoções, seus grupos sociais e até o próprio ego foram amarrados a elas.
Eis a grande doença do nosso tempo.
O sujeito não pergunta mais:
“Isso é verdadeiro?”
Ele pergunta:
“Isso protege meu grupo?”
“Isso protege minha bolha?”
“Isso protege a fantasia política que construí para mim mesmo?”
Por isso tanta gente passou anos negando aquilo que estava escancarado diante dos olhos do planeta inteiro.
Mensalão.
Petrolão.
Empreiteiras.
Delações.
Operações da Polícia Federal.
Bilhões desviados.
Diretores confessando.
Empresários presos.
Mala de dinheiro.
Apartamentos abarrotados de espécie.
Um dos maiores escândalos de corrupção da história contemporânea mundial.
E ainda assim havia quem repetisse: “Não existiu.”
Ora, em nome da honestidade intelectual, façamos uma pergunta simples:
vocês realmente acreditam que tudo aquilo foi inventado do nada?
Vocês já pararam para perguntar por que advogados milionários cruzavam o país em aviões particulares para defender determinadas figuras?
Já perguntaram por que tantos acordos de colaboração explodiram simultaneamente?
Já perguntaram por que dezenas de estruturas empresariais colapsaram?
Já perguntaram por que tantos agentes políticos caíram?
Não se movimenta uma engrenagem judicial daquele tamanho em torno de um delírio infantil.
Pode-se discutir excessos.
Pode-se discutir abusos.
Pode-se discutir nulidades.
O Estado de Direito exige isso.
Mas negar a materialidade histórica de boa parte daqueles fatos já não é defesa política. É militância emocional.
E o mais grave:
muitos dos que gritavam “defesa da democracia” simplesmente silenciaram diante de absurdos praticados pelo próprio sistema que diziam combater.
Porque a verdade inconveniente é essa: o problema do fanatismo político não está na direita nem na esquerda.
Está na incapacidade moral de condenar o erro quando o erro é praticado “pelos nossos”.
O cérebro humano, capturado por uma tribo ideológica, passa a defender narrativas como mecanismo de sobrevivência emocional.
A verdade deixa de ser um valor.
Passa a ser um obstáculo.
E então surgem as aberrações morais:
o crime do adversário vira escândalo;
o do aliado vira relativização sofisticada.
Enquanto isso, o povo segue sendo manipulado como massa emocional de manobra.
E aqui entra uma reflexão profunda sobre Jair Bolsonaro.
Durante anos, disseram:
“Bolsonaro é grosso.”
“Bolsonaro não tem liturgia.”
“Bolsonaro fala errado.”
“Bolsonaro é rude.”
E eu sempre me perguntava:
vocês queriam um presidente ou um mestre de cerimônias?
Porque Bolsonaro jamais enganou ninguém sobre quem era.
Nunca vendeu a imagem de aristocrata europeu.
Nunca tentou parecer intelectual de salão francês.
Sempre carregou o traço duro de uma geração militarizada, direta, formada numa cultura mais rígida, mais áspera, mais “raiz”.
Mas transformaram grosseria verbal em crime moral absoluto enquanto relativizavam escândalos monumentais que drenaram bilhões da nação.
A estética passou a valer mais que a substância.
A embalagem passou a valer mais que o conteúdo.
E isso me lembra imediatamente José Américo de Almeida, autor de A Bagaceira, um dos maiores intelectuais e políticos da história nordestina.
Diziam que José Américo era feio.
Ironizavam sua aparência.
Tentavam reduzir um gigante intelectual à estética física.
Até que ele respondeu com uma frase eterna:
“Vocês querem um governador ou um reprodutor?”
Pronto.
Ali estava enterrada a superficialidade nacional.
Hoje vivemos algo parecido.
Uma sociedade treinada para consumir performance.
Para idolatrar aparência.
Para confundir eloquência com caráter.
Para trocar firmeza moral por verniz social.
E enquanto isso, o Brasil vai sendo lentamente destruído por dentro.
Parte da classe artística, que deveria funcionar como consciência crítica da sociedade, em muitos momentos transformou-se apenas em braço emocional de projetos ideológicos.
O exemplo de Michel Foucault na Revolução Iraniana é assustador.
Um dos maiores intelectuais do século XX, estudioso das prisões, do controle estatal e dos mecanismos de opressão, apaixonou-se pela Revolução Iraniana. Ignorou alertas. Desprezou críticas. Tratou denúncias como preconceito ocidental.
Depois vieram execuções.
Perseguições.
Mulheres presas.
Homossexuais enforcados.
Minorias perseguidas.
E o intelectual que estudava o poder opressor silenciou.
Isso prova uma verdade dolorosa:
inteligência não imuniza ninguém contra cegueira ideológica.
Às vezes, o fanatismo veste terno, cita filósofos franceses e fala bonito.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo em larga escala no Brasil.
O país está emocionalmente sequestrado.
As redes sociais agravaram tudo.
O algoritmo recompensa raiva.
Recompensa humilhação.
Recompensa simplificação brutal.
Recompensa tribalismo.
Quem diz:
“o tema é complexo”
perde alcance.
Quem diz:
“o outro lado é lixo”
viraliza.
E assim o brasileiro vai sendo lentamente treinado para odiar mais e pensar menos.
Enquanto isso, os verdadeiros donos do poder observam tudo de camarote.
Porque um povo dividido emocionalmente é muito mais fácil de controlar.
E há algo ainda mais perigoso:
o brasileiro começou a normalizar o absurdo.
Normalizou corrupção.
Normalizou incoerência.
Normalizou perseguições seletivas.
Normalizou abusos institucionais.
Normalizou a destruição moral do adversário.
Tudo em nome da tribo.
Tudo em nome da narrativa.
Tudo em nome do ódio politicamente conveniente.
Mas existe uma lei universal diante da qual todos os homens se ajoelham:
o tempo.
O tempo destrói impérios.
O tempo humilha arrogâncias.
O tempo enterra vaidades.
O tempo mostra quem mentiu.
O tempo revela máscaras.
Eu já vi homens extremamente poderosos sendo esmagados pela própria solidão.
Já vi autoridades descobrirem que cargo não compra paz.
Já vi milionários enterrarem filhos.
Já vi pessoas que controlavam multidões incapazes de controlar a própria alma.
A vida é “casa emprestada”.
E talvez a grande tragédia do nosso tempo seja justamente essa:
o homem moderno está tão ocupado tentando dominar os outros que esqueceu de governar a si mesmo.
O Brasil não precisa de salvadores.
Também não precisa de deuses políticos.
Precisa de maturidade moral.
Precisa de cidadãos que tenham coragem de condenar o errado mesmo quando o errado vem “do seu lado”.
Porque enquanto o brasileiro continuar tratando política como torcida organizada, continuará sendo manipulado por estruturas de poder que se alimentam exatamente dessa cegueira emocional.
A pergunta que fica é simples: até quando?
Até quando o povo brasileiro continuará trocando consciência por militância?
Até quando continuará entregando a própria capacidade crítica a partidos, narrativas e influenciadores?
Até quando continuará chamando fanatismo de virtude?
Porque a História já mostrou inúmeras vezes:
nenhuma sociedade sobrevive por muito tempo quando a paixão coletiva mata a verdade.
E talvez o maior ato de coragem do nosso tempo seja justamente este: voltar a pensar.
Rivelino Liberalino


