Artigo do leitor: “Estatutos no Brasil – Verdades escondidas ou mentiras veladas?”

3

estatuto famíliaNeste artigo enviado ao Blog, a professora e psicanalista critica duramente a existência de tantos estatutos no Brasil, em especial o da Família, recentemente aprovado no Congresso. E também não poupa os parlamentares.

Confiram:

O que há por trás dos tantos estatutos no Brasil: As verdades escondidas ou mentiras veladas?

Estamos sempre buscando motivos ou razões para os acontecimentos, sejam culpados, sejam soluções, estamos sempre em busca da explicação. Explicação esta que vem da mídia esquizofrênica que tomou conta dos canais de TV, de jornais e jornalistas sensacionalistas que repetem à exaustão imagens grotescas, que na sua maioria apenas me revela o que tem de pior no ser humano: a sua tendência a homenagear a desgraça alheia.

Pergunto-me se as palavras de Gabriel O Pensador não seriam mais que adequadas para o momento de comoção nacional que estamos passando pelo episódio dos arrastões nas praias no Rio de Janeiro, quando ele diz: “A população lincha o rato de praia, mas perdoa o corrupto com a desculpa: ele rouba, mas faz”. Ao ver em todos os canais, telejornais, internet, jornais e revistas, os comentários dos “especialistas” no assunto lembrei-me dessa frase de Gabriel e passei a refletir também sobre isso.

A conclusão a que cheguei foi a seguinte: para os “especialistas”, os arrastões são naturais e normais, desde que não aconteçam onde os ricos estejam. Pode nas comunidades (acho este termo mais pejorativo que favela, mas essa é a minha opinião); nas praias onde turistas vêm gastar os seus dólares e os ricos vão pegar um sol, não, definitivamente é crime. Penso sempre que a praia é um lugar democrático, onde todas as tribos podem e devem estar e se encontrar, mas mesmo depois de 500 anos a nossa sociedade continua a classificar as pessoas pela cor da pele, pelo endereço onde mora e pelo salário que ganha.

Infelizmente continuamos votando nas pessoas erradas e pelos motivos errados. Enquanto isso as nossas crianças, adolescentes e jovens sofrem na pele as desvantagens de ter na pele a cor que não combina com “status”.

Ainda mais agora, com a aprovação em primeiro turno desse estatuto da família, onde mais uma vez – e equivocadamente – os nossos representantes definem uma família apenas como núcleo formado por homem, mulher e filhos. Sinto-me aqui afrontada na minha capacidade de pensamento, de crítica e de opinião, pois discordo em cada consoante e vogal desta definição.

Se tivesse a oportunidade deste singelo texto chegar às mãos dos “nobres?” deputados faria perguntas simples que me vêm à cabeça neste momento como: como vou dizer ao meu aluno/aluna que é criada pela avó, pois o seu pai está preso por ter assassinado a sua mãe e que a culpa disso ter acontecido foi justamente a omissão deste estado, que ele/ela não tem um núcleo familiar? Como uma criança que já é discriminada por ser pobre e mesmo assim a mãe se desdobra pra manter em uma escola particular, para ter na sua ingênua concepção “uma educação e futuro melhor”, mas que não tem o pai, talvez por estar preso ou morto, pela omissão do mesmo estado, e essa criança será ainda discriminada por não ter família? Poderia ainda formular muitas outras perguntas, mas me sinto extremamente e ainda mais decepcionada com os nossos políticos.

Posso afirmar aqui, sem sombra de dúvida, que família é todo núcleo formado com o único objetivo de proporcionar à criança um ambiente onde esta se sinta acolhida, protegida, amada, alimentada, valorizada na sua condição de criança, e não vou de forma nenhuma ensinar aos meus alunos que exista outra definição de família, pois acredito que quem ama uma criança e a protege de todos os males, aí sim está a família desta criança.

Aos “nobres(?)” deputados, gostaria de pedir que ao invés de propor leis que definam um núcleo familiar, antes definam ou proponham ações e leis que fortaleçam todo e qualquer núcleo familiar, destinem mais recursos às escolas básicas onde mães, pais, avós, tios e tutores possam deixar as suas crianças para trabalhar, sabendo que ali será um espaço saudável e seguro para as suas crianças. Invistam mais em espaços de esporte e lazer, onde as nossas crianças, adolescentes e jovens possam vislumbrar uma luz no fim do túnel, que não seja o brilho da casa do rico do outro lado dos muros; que encontrem na escola e nos centros de lazer e esportes o seu passaporte para uma vida digna e igual, onde as suas famílias seja qual a constituição também tenha espaço e voz para juntos encontrarmos o caminho para a tão sonhada democracia na essência do seu significado.

E não poderia deixar de citar aqui um pensamento para a reflexão do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, que disse: “É imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado da severa vontade de prover os meios da sua execução.” Isso é nada menos do que espero de bons legisladores, mas onde estão os nossos?

Sebastiana Nunes da Costa/Professora, Psicanalista e Bacharel em Teologia

3 COMENTÁRIOS

  1. Diz-me guri!
    Por que não escrevemos comentários a quatro mãos?
    Gosto do que tu escreves e amaria produzir algo contigo!
    Como faço pra te passar meu fone de forma..ah, deixa pra lá!
    Irão pensar mal de mim, née??

DEIXE UMA RESPOSTA

Comentar
Seu nome