Artigo do Leitor: “A juventude de um imortal”

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APLNeste artigo enviado ao Blog, o leitor Fernando Filho enaltece a figura do escritor Paulo Gustavo, o mais novo imortal da Academia Pernambucana de Letras (ABL).

Confiram:

Em 1970 – muita coisa além da Copa do México me permite ser preciso quanto ao ano -, quem saísse da Rua do Príncipe e quisesse entrar na pequenina Nunes Machado, podia cortar caminho por uma espécie de atalho que cruzava um terreno onde reinavam duas casinholas e três galinhas. Ora, muitas vezes eu estava chegando ao cruzamento em cotovelo – ao cabo de uma caminhada que começara vinte minutos antes, na Rua da Aurora -, quando o pessoal que vinha da zona noroeste da cidade – geralmente no ônibus 27, o de Nova Descoberta – também desembarcava por ali, pouco depois das sete da manhã. E, ocasionalmente, a depender das afinidades, fazíamos a dois o curto trajeto em animado papo.

Quem vez por outra eu encontrava nessa hora mágica da manhã recifense, era o escritor Paulo Gustavo – o mais novo imortal da Academia Pernambucana de Letras. Simpático e acolhedor, ele dispensava a ascendência desagradável que afetavam alguns dos alunos mais velhos – um ano que fosse – e nos tratava no mesmo tom que emprega até hoje: atencioso, bem humorado e positivo. Aliás, se o bullying nasceu em Pernambuco e se o Ginásio de Aplicação foi a matriz dessa prática, como dizem, há de se reconhecer que alguns alunos faziam, na verdade, um trote cordial com os mais jovens e logo ganhavam simpatia. Além do referido Paulo, Flávio Brayner e Francisco Cunha eram dois dos que planavam acima dessa tradição pouco amistosa.

O mais incrível desse curto trajeto, contudo, era o tom de camaradagem que prevalecia com o escritor, agora imortal. Emociona-me até hoje nos enxergar em retrospectiva num Recife de manhãs luminosas, mangueiras frondosas e jambos no chão, roídos pelos morcegos. Andávamos de bolsa a tiracolo, camisa branca imaculada, calça cinza e sapatos pretos. Ali, naquele trechinho, parece que encontrávamos tempo para prosear sobre o mundo. O rito adubou um carinho mútuo e, de minha parte, uma imensa admiração pelo homem então em formação. É claro que as conversas de tempos adultos podem ter fornecido elementos mais copiosos para uma releitura da infância. Mas outras tantas ficaram e datam de então.

Pois já vinha daquela época a profissão de fé que Paulo Gustavo fazia pela literatura e o magistério. Mais do que qualquer um de nós, adorava o professor Rubem Franca e, de forma desconcertante para mim, dizia que tiraria seu sustento da burocracia, quando chegasse a hora. Desde que não abrisse mão do ensino da língua portuguesa que tanto amava. Ora, a burocracia para mim era, e ainda é, uma palavra aterradora. Seria o mesmo que admitir que se viveria da contravenção ou, numa hipótese boa, que a pessoa se resignava a ser parte do rodapé das grandes sagas da vida adulta. Hoje vejo que ele sabia bem do que falava. Isso porque não há paga maior para uma vida do que a de se perseverar nos caminhos sonhados na infância. E deles jamais abdicar.

Assim sendo, tenho orgulho de ter privado da convivência de um menino tão verdadeiro. Que Paulo ocupe a cadeira por muitas décadas e que marque a história de nossa APL com o toque de qualidade e urbanidade que lhe caracterizam a personalidade desde sempre. Ademais de emprestar a seus novos pares a incrível bagagem do intelectual sólido que fala como poucos de Bandeira, Cabral, Camões, Drummond e Guimarães Rosa. Um detalhe: ele sempre pairou acima da política e das coisas pequenas. Só teve olhos para o que importava na vida. Para o grande e o perene. Em tempos como os que vivemos, isso não é trivial. E que assim continue pois de panfletários o mundo está coalhado. Mas para achar alguém como ele, há de se peneirar muito.

Fernando Dourado Filho/Consultor em internacionalização de empresas

1 COMENTÁRIO

  1. Rico em detalhes , os artigos de Fernando Dourado nos fazem viajar no tempo pra conhecer melhor o seus personagens. Hoje, homenageia um contemporaneo seu. Paulo Gustavo, e o mais novo membro da APL. A literatura Pernambucana esta em festa… .Parabéns ! Luiz Eduardo

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