No ano em que o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) completa 30 anos, estudo inédito realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) aponta que o acesso ao Programa está associado a um aumento médio de cerca de 18% no valor bruto da produção das unidades familiares no Brasil.
A análise cruzou bases do Crédito Rural (Banco Central do Brasil) com o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) para avaliar milhares de unidades produtivas em todo o país ao longo de mais de uma década. O estudo comparou famílias com características semelhantes — região, tipo de produção, escolaridade e perfil socioeconômico — e identificou que aquelas que acessaram o crédito apresentaram desempenho produtivo superior às que não tiveram acesso.
O secretário de Agricultura Familiar e Agroecologia (SAF/MDA), Vanderley Ziger, destacou a importância do monitoramento e avaliação para a evolução do Programa. “Esse estudo traz uma evidência robusta do que vemos na prática, nos últimos anos, a partir dos esforços e do nosso trabalho na SAF: quando o crédito chega na agricultura familiar, ele se transforma em produção, renda e desenvolvimento nos territórios. O Pronaf não é apenas financiamento, é uma política estruturante que fortalece a capacidade produtiva das famílias, dinamiza economias locais e contribui para a segurança alimentar do país”.
Metodologia inédita
A pesquisa utilizou modelos estatísticos avançados para medir o impacto do crédito, considerando tanto a trajetória de acesso ao Pronaf quanto a evolução da produção entre 2013 e 2024. Foram analisados dois grupos ao longo do tempo: agricultores que nunca acessaram crédito e agricultores que passaram a acessar o Pronaf após 2017. Além da análise por acesso individual ao crédito, o estudo inovou ao trabalhar com a unidade de produção familiar.
Para a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Regina Helena Rosa Sambuichi, responsável pelo estudo, o principal diferencial da análise está na escala e na qualidade dos dados utilizados. Ela lembra, ainda, que o destaque está na análise do Brasil como um todo, com dados abrangentes. “É um estudo inédito, usando uma metodologia que ainda não foi utilizada com esses dados, especialmente com o CAF, permitindo uma análise em nível nacional”, acrescenta.
Além do aumento da produção, o acesso ao Pronaf está associado à maior ocupação de mão de obra familiar, à continuidade do crédito ao longo dos anos e ao crescimento recente do acesso, especialmente no Nordeste, impulsionado pelo microcrédito. A análise também aponta desigualdades no acesso, indicando desafios para ampliar o alcance da política. “A gente vê que existem diferenças no acesso ao Pronaf. Alguns agricultores têm mais probabilidade de acessar do que outros, dependendo de características como tipo de produção, escolaridade e perfil socioeconômico”, explica Regina.


