Um Pai para sempre

por Carlos Britto // 09 de agosto de 2026 às 22:01

Nós vínhamos caminhando tranquilos com destino a nossa casa e o meu pai ia me ensinando a vida. Andava devagar, com passos tímidos, e eu gostava de olhar para os seus cabelos e sua expressão quando falava.

Não tinha muita oportunidade de andar com ele, pois mal saía de casa, e como não tínhamos carro, gostava mais quando íamos a pé. Muitas vezes porque ele não tinha dinheiro mesmo. Outras vezes também.Era bem complicado, pois ele era apenas um aposentado ferroviário e tinha quatorze filhos e eu, seu neto, outro que a vida lhe pôs nas mãos para chamar e registrar como filho.

Era bem conservador o meu pai, ao ponto de ir à Celpe e Compesa perguntar o que fazer para a conta não chegar à casa e ele ir pagar nas companhias. Abominava a cobrança e a ele cabia a palavra. E valia. Era severo e sensível o meu pai. Seu olhar era terno e duro quando precisasse. Seu sorriso era generoso e franco. Seu abraço, acolhedor. Na sua pequena instrução percebeu que precisávamos ser educados. Aos filhos impôs a condição dos seus melhores carinhos aos estudos.

Se a escola particular nunca foi possível, a escola pública que nos recebia merecia nosso melhor cuidado e sua homenagem. Era exigente também o meu pai José Leite. Meu boletim, e suas notas invariavelmente medíocres, lhe entristecia muitas vezes, como a minha paixão que se revelava muito mais pela bola que pelas bancas escolares.

Lembro do seu desapontamento quando fui atropelado aos sete anos e um motorista mais desesperado que irresponsável fugiu sem assumir as consequências.Assustei-me tempos depois quando me contaram que “cassou” o motorista que deixou seu filho jogado no asfalto, como quem deixa um cachorro de revólver na cintura.Depois me encantei quando soube que se emocionou com esse mesmo motorista quando constatou que ele correu apenas por medo, por que pegara o carro da empresa emprestado, porque perderia o emprego e não teria como alimentar sua já combalida família.

Quando decidi pela vida na comunicação e recebi as críticas pela falta de remuneração do longo estágio, quando em nossa casa toda ajuda era necessária, com seu gesto sereno apenas balbuciou: “Deixem, ele vai ser o que desejar ser”.

Meu pai me amou e me salvou de várias maneiras. De todas que possam ser possíveis. Em seu nome hoje quero homenagear todos os pais. As mães que são pais e mães. Aos pais que hoje, mesmo sozinhos, passam o seu domingo dizendo que não faz mal, mas que sofrem com a distância, com o descaso e com o abandono imposto pelas várias situações.

Homenageio os pais que trocaram os abraços, o ambiente da família, os aniversários e os almoços porque tiveram que estar longe para garantir o sustento ou algum futuro aos filhos. A distância com renúncia, mesmo com todo peso, há de ser reconhecida. Meu pai me deixou há mais de trinta anos mas nunca saiu de mim.O tempo passou, meu pai. Depois fui eu que fui cobrir os meus filhos entrando sorrateiramente em seus quartos. Beijando-os com cuidado para que não acordassem, como fazia. Quero dizer que às vezes eu via, e por covardia ou para não estragar o momento, eu nunca falei.

Também fui eu que cobrei as notas da escola e olhei com ternura, mesmo sabendo que eu nunca poderei olhar com o amor que um dia os seus olhos me fitaram.

Porque eu nunca serei melhor que ti.

 

Carlos Britto – Em um domingo que doeu!

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