Protógenes nega grampo no STF e chama Dantas de bandido

por Carlos Britto // 23 de dezembro de 2008 às 16:20

O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz disse acreditar que não houve grampo realizado contra o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, durante a Operação Satiagraha e qualificou de “banqueiro bandido e condenado” Daniel Dantas, o principal investigado na ação.

Em entrevista ao “Roda Viva”, da TV Cultura, o delegado rejeitou qualquer grampo ilegal de uma conversa entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). “Levaram o nome de duas importantes pessoas da República fabricando um escândalo”, disse. “Eu acredito que não houve grampo. Não existe áudio. Logo que foi anunciado [o suposto grampo] eu mesmo perguntei ‘cadê o áudio?’. Eu quero o áudio.”

Para ele, “a partir de vários outros momentos deixou-se de falar da conduta de um banqueiro, que na verdade é um criminoso. Eu estou na condição de investigado porque os veículos [de comunicação] informaram ao leitor uma afirmação mentirosa”, disse, em referência à gravação.

Dantas teve a prisão decretada por duas vezes pelo juiz Fausto de Sanctis, da 6ª Vara de São Paulo, e foi libertado por habeas corpus do STF em ambas.

A suposta escuta do presidente do Supremo desencadeou uma investigação da própria PF contra o delegado por desvio de conduta e quebra de sigilo funcional. O delegado foi acusado de permitir que fossem filmadas as pessoas presas na operação.

Operação Satiagraha

Em julho, a PF realizou a operação que investigou denúncias de lavagem de dinheiro, desvio de verba pública e corrupção. Foram presos políticos, como o ex-prefeito Celso Pitta, e investidores, além de Dantas, dono do grupo Opportunity.

Protógenes minimizou a exibição dos suspeitos algemados: “A imagem do bandido poderoso não choca a população. [Exibir o ex-prefeito Celso Pitta de pijama] não prejudica a investigação nem choca a população. O que me choca e o que choca a população, e que ninguém comenta, são crianças algemadas”, disse.

A Operação Satiagraha teve início há três anos, como desdobramento do caso do mensalão. O trabalho da CPI dos Correios levou a Polícia Federal a iniciar uma investigação, que acabou apresentando indícios dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, formação de quadrilha, gestão fraudulenta, além de uso indevido de informação privilegiada.

Protógenes negou que tenha usado a Satiagraha como plataforma política. Questionado sobre se pretendia se candidatar à Câmara em 2010, Protógenes respondeu um sonoro “não”. Ele ainda comentou sobre a prisão do contrabandista chinês Law Kin Chong e sobre a Operação Banestado, que apurou o envio de recursos para o exterior por meio de contas CC5..

Na bancada, estavam os jornalistas Fernando Rodrigues, da Folha; Ricardo Noblat, colunista de “O Globo” e escritor do Blog do Noblat; Renato Lombardi, da TV Cultura; e Fausto Macedo, de “O Estado de S. Paulo”.

Gilmar Mendes

Na semana passada o programa da Cultura entrevistou o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF. Ele defendeu seu posicionamento em relação aos habeas corpus concedidos ao banqueiro Daniel Dantas e disse que o segundo habeas corpus foi uma resposta a um desafio ao Supremo, que sofria uma tentativa de desmoralização naquele momento.

“Na verdade o segundo habeas corpus era uma resposta a um desafio que se fazia ao Supremo Tribunal Federal. Os argumentos [da segunda ordem de prisão] eram os mesmos [da primeira]. Isso que o STF reconheceu, agora, no julgamento, por 9 a 1”, afirmou, referindo-se ao julgamento do mérito do habeas corpus, ocorrido no dia 6 de novembro.

Mendes citou a proximidade entre o primeiro habeas corpus e a segunda ordem de prisão contra o banqueiro. “Certamente a ordem de prisão, o novo ‘entendido’, tudo isso estava sendo ajustado entre a noite e a madrugada. […] Não há mais o que dar explicação”, afirmou, mostrando irritação com a insistência dos entrevistadores em voltar ao assunto.

Ao conceder os habeas corpus a Dantas em julho, Mendes recebeu críticas e chegou a trocar farpas com o ministro Tarso Genro (Justiça). Procuradores da República articularam a apresentação, no Senado, de um pedido de impeachment do presidente do STF em razão da sua atuação nos habeas corpus de Dantas.

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