Em carta aberta, músicos da filarmônica de Bodocó lamentam falta de valorização

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banda-700x357_FotorOs integrantes da Banda Filarmônica de Bodocó, no Sertão pernambucano, não estão nada satisfeitos com o reconhecimento recebido por parte do governo municipal. Em carta enviada ao Blog, os músicos lamentam o fato de serem substituídos por músicos de outra cidade durante uma tradicional festa do município. O motivo seria a negativa do governo em dar uma “remuneração digna” aos músicos. Acompanhem:

Pela primeira vez na história de Bodocó- PE a Banda Filarmônica Bodocoense não irá apresentar-se em uma Festa de São José e, para substituí-la, virá uma orquestra de outra cidade. A Filarmônica sempre foi um dos símbolos culturais da tradicional Festa de São José da cidade. O evento, que acontece anualmente no período de 09 a 19 de Março, há décadas tem a tradição de contar com a presença da Banda Filarmônica disseminando cultura ao som dos famosos “dobrados” (gênero musical similar às marchas militares) pelas ruas da cidade.

As apresentações da Banda costumavam ser distribuídas da seguinte maneira: no dia 09, por volta das 17h, a orquestra acompanhava a tradicional procissão do Pau da Bandeira de São José, em um percurso com mais de 2km, até à Igreja Matriz. A partir do dia 10, passava a realizar 3 apresentações: às 05h os músicos percorriam as principais ruas da cidade durante aproximadamente uma hora, na apresentação chamada “Alvorada”; logo após, ao meio dia, sob o ardente e desgastante sol nordestino, os membros reuniam-se novamente em frente à Igreja Matriz de São José e desfilavam pela cidade em percurso similar ao anterior, na chamada “Salva”; por fim, às 18h havia uma apresentação que antecedia a Missa Campal e outra após a mesma, à qual se dava o nome de “Retreta”; tal ciclo repetia-se até o dia 18 e, por fim, no dia 19 (Dia do Padroeiro São José), havia o acompanhamento da procissão em homenagem ao Padroeiro da cidade.

Acrescente-se a essas noites as homenagens que em cada dia eram feitas a famílias e/ou a grupos sociais tradicionais da cidade, como “A noite da Família Horas”, “A Noite dos Caminhoneiros”, “A Noite dos Comerciantes”, dentre outras, o que aumentava o percurso e duração das apresentações para abrilhantar ainda mais os festejos de Bodocó. Em suma, os músicos apresentavam-se em média 30 vezes durante a Festa de São José.

Notadamente a tradição vem perdendo seu legado ao passar dos anos em decorrência de um processo de desvalorização cultural. Ocorre que, no ano de 2015, a Banda Filarmônica, como de costume, realizou suas 30 apresentações durante a Festa de Março e somente recebeu sua devida contrapartida remuneratória 11 meses após, já em Fevereiro de 2016, pela Prefeitura Municipal.  Esse atraso, aliado ao desgaste acumulado durante anos, culminou no ápice de descontentamento dos integrantes. Tal cenário fez com que os membros reunissem-se e reivindicassem uma remuneração equivalente à de 2014 (visto que em 2015 houve uma queda em relação a 2014) atrelada a um prazo de pagamento menor.

Diante deste impasse, os integrantes da Filarmônica entraram em contato com o chefe do executivo municipal e levaram uma proposta que lhes rendesse uma remuneração digna e compatível com este trabalho. Todavia, e de maneira surpreendente, a contraproposta do gestor atual foi, de maneira taxativa, um valor 50% menor que a proposta pretendida e muito aquém do praticado em 2015.  Como é de se esperar, o desfecho não foi positivo e os músicos não aceitaram tal proposta por dois simples motivos: eles merecem respeito e devem valorizar-se profissionalmente.

A Constituição Federal de 1988, nossa Carta Magna, traz, em seu artigo 1º, incisos III e IV, como fundamentos da República Federativa do Brasil, a dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho. Nessa seara, a dignidade do trabalho deriva de tais fundamentos e, portanto, deve ser parâmetro imprescindível em qualquer relação de trabalho. No entanto, lamentavelmente, não foi o que aconteceu através da proposta e postura da Prefeitura de Bodocó diante da situação dos membros da Banda Filarmônica.

Como consequência de tais episódios, a ausência destas apresentações cultural e tradicional dos músicos filhos de Bodocó é uma perda muito grande. Perdem os músicos, perde a sociedade e, principalmente, perde a cidade o legado de cultura e de tradição que, durante décadas, foi construído como um ícone da Festa de São José.

Queremos deixar claro para toda a sociedade que não houve qualquer tipo de indisposição por parte dos músicos, tampouco partidarização. Porém, unilateralmente, a gestão quis impor suas condições precárias de contratação e nós não poderíamos ficar à mercê desta imposição no estado democrático de direito em que vivemos. A Banda Filarmônica sempre esteve à disposição da sociedade bodocoense, mas seu trabalho precisa de reconhecimento justo para continuar sua trajetória.

Banda Filarmônica Bodocoense.

7 COMENTÁRIOS

  1. É impressionante o descaso com a cultura em Bodocó. Aliás com outras áreas também. Quem vai àquela cidade e conhece há muito tempo, percebe que está abandonada. A falta de compromisso de muitos políticos do nosso Brasil é grande. Lá não é diferente. Tem uma construção de uma área para fabricação e comercialização de queijo (já que é uma bacia leiteira) que está entregue às baratas, paralisada há muito. Vergonha para os nossos queridos Bodocoenses…

  2. Pior que isso é a falta de transporte escolar na zona rural e os que existem são sucateados. Estou falando não é daqueles fictícios que estão na bela propaganda e sim nos da vida real. Quem duvida venha aqui no sítio Olho D’água.

  3. Uma tradição não pode ser desfeita dessa maneira. Só um gestor de mente pequena poderia atentar contra a cultura de sua cidade. Vergonhoso, seu prefeito!!! E, como se não bastasse, as deficiências de gestão não param por aí.Vejamos a situação da saúde, da educação, do fomento ao comércio local de leite e seus derivados. As ruas esburacadas enfeitam a cidade por todo lado. Os atrasos extremos nos salários dos servidores foram um incentivo à inadimplência e ao endividamento de pais e mães de família.

    Bodocó, em 4 anos, regrediu 40. O novo Bodocó destruiu a cidade de ponta a ponta em todos os setores!!!!

    Ainda assim, a cultura local não poderia ser esquecida e desvalorizada!!! É uma vergonha ver valores que foram passados de geração para geração irem para o ralo por um capricho e incompetência de um gestor!

  4. Verdade! A cidade tá uns caos! Eita Bodocó abandonado. Se o prefeito Danilo pagasse ao menos os contratados em dia já seria bom. Estou deceocioada com política e aqui em Bodocó então nem se fala.

  5. Sou bodocoense radicado em petrólina. ..filho de olavo calado…e sempre que posso vou a bodoco nas festas de março com minha amada esposa também bodocoense. …isva ou mana como é conhecida.
    pra mim novidade esta da filarmônica e em sendo verdade vai o meu repúdio.Como esquecer da filarmônica nas alvoradas esperando amanhecer…dentre outros grandes momento
    como mudar, por exemplo, as noites dedicadas aos motoristas, aos jovens e etc.
    Amaria estar novamente este ano para sentir e respirar minha amada terra natal e viver como se pré momentos que não esquecerei
    UOSTON E ISVA

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