Com quase 2 milhões de fiéis em PE, evangélicos tornam-se força eleitoral decisiva

por Antonio Carlos Miranda // 10 de agosto de 2026 às 10:00

Foto: divulgação

O eleitorado evangélico de Pernambuco desenha um mapa político próprio, marcado pela diversidade e longe de qualquer fórmula pronta. Representando 25,2% da população do Estado, cerca de 1,97 milhão de pessoas, segundo dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, esse grupo deixou de ser apenas uma estatística para se tornar peça fundamental na balança das disputas eleitorais.

A corrida por esse voto é intensa entre os candidatos. De acordo com análise do cientista político Alex Ribeiro, essa disputa é alimentada pela alta capacidade de mobilização das igrejas e pelas redes de relacionamento comunitárias. Por essa razão, é comum que postulantes a cargos do Executivo e do Legislativo busquem alianças e acordos com essa parcela do eleitorado.

Para ele, a conquista dessa base precisa ir além do período eleitoral e do discurso religioso pouco autêntico. “Em geral, as candidaturas que conseguem maior receptividade são aquelas que demonstram respeito às diferentes expressões da fé e apresentam propostas concretas para enfrentar os desafios da população“.

Contudo, engana-se quem pensa na existência de um voto evangélico único ou padronizado. Os últimos resultados nas urnas mostraram um mosaico influenciado não apenas pela denominação religiosa, mas também pela classe social e pela região onde os fiéis vivem. “Os principais equívocos das campanhas são enxergar os evangélicos como um grupo homogêneo“, frisa Ribeiro. “Nos municípios da Região Metropolitana, temas ligados à segurança, saúde, transporte e mercado de trabalho costumam ganhar maior destaque. Já no interior, a proximidade entre lideranças religiosas, políticas e comunitárias tende a exercer contribuição mais intensa sobre o processo eleitoral”, aponta o cientista político.

O poder de influência dos púlpitos, exercido por meio da figura pastoral, também possui relevância nas escolhas eleitorais, como observa o cientista político Hely Ferreira. “Há uma conduta desse eleitorado, que é a de seguir o que é dito por essas figuras de liderança dentro das igrejas e templos”.

Em contrapartida, Alex Ribeiro pondera que o conselho pastoral ainda pode soprar a favor de uma candidatura, mas já não basta para garantir, por si só, a vitória no pleito. “No atual cenário, as lideranças religiosas dividem espaço com influenciadores digitais, redes sociais e a própria avaliação que cada cidadão faz da realidade política. Dessa forma, pastores podem fortalecer determinadas candidaturas, mas dificilmente definem sozinhos o resultado das urnas”, conclui.

Vinculação vista com cautela

A universitária Iasmin Luz de Paula, crescida em uma família evangélica, enxerga a ligação da religião com a política com ceticismo, uma vez que abriria margem para deturpações. “Eu acredito que os evangélicos preferem que a gente tenha espaço na política, porque o Brasil é majoritariamente cristão. Porém, dentro do ambiente evangélico, naquilo que a gente chama de culto, num ambiente sagrado, eu acredito que a política não deve se misturar”, defende.

Desde criança eu via os deputados e vereadores fazerem boca de urna depois do culto, o pastor praticamente obrigando os cristãos a votarem naquele candidato. Não importava se você era um cristão fiel, mas se você votava naquele candidato”, relata Iasmin.

Alinhamento com a direita e pautas importantes

Histórica e ideologicamente, há uma inclinação do eleitorado evangélico para candidaturas alinhadas à direita, com maior evidência na disputa presidencial. No entanto, na conjuntura estadual, Alex Ribeiro analisa que esse alinhamento costuma ser menos rígido. Nesse contexto, conforme o cientista político, permite-se o “apoio a candidatos de diferentes campos políticos quando a gestão é bem avaliada ou quando as propostas para segurança pública e políticas sociais são consideradas convincentes“.

Para Hely Ferreira, pautas morais, defesa da família e valores de costumes continuam a ser pontos importantes entre os evangélicos. Ao mesmo tempo, Alex Ribeiro acrescenta que temas como segurança pública, emprego, combate à corrupção e melhoria das condições de vida também exercem forte contribuição sobre a decisão do voto.

A inserção de debates sensíveis no seio das comunidades teria a religião como porta de entrada, como observa o professor de história Diogo Xavier. “As periferias das grandes cidades demarcam muito um voto que sempre foi muito disputado, em que o conservadorismo não tinha muita entrada e conseguiu muito por conta desse voto evangélico ligado às causas, de pautas morais, sobretudo porque eles vinculam a lógica do pânico moral”, observa. “Jogam com a lógica de que a vida daquela pessoa está em risco por conta de uma modernização que vem para transformar e acabar com a família. E é nisto que pautas como aborto e a questão da homossexualidade, de maneira geral, ganharam tanta ênfase e tornaram-se debates generalizados”, complementa Xavier. (Fonte: Diario/PE)

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