Artigo do leitor: A luz dos olhos cegos de Zé Vicente

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ana e zé vicenteA família da eterna Ana das Carrancas perdeu na última sexta-feira (30/5) o seu patriarca, José Vicente de Barros. Patriarca adotivo. Não importa. Patriarca que amou cada filha e neto de sua amada como se fossem seus. Isso é o que importa. O viúvo de Dona Ana tinha 82 anos e morreu em um hospital de Petrolina, após dois infartos (o último já na unidade médica).

O jornalista e professor de comunicação da Uneb, Emanuel Andrade, conheceu bem essa figura tão essencial na vida da artesã e de sua família. Andrade escreveu, em 2007, a biografia de Ana das Carrancas, e deixa agora seu relato sobre a morte de Zé Vicente, que entristece um pouco mais a cultura local. Confiram:

Conheci Zé Vicente já no final da década de 90, ainda na humilde casa em que morava o clã de Ana das Carrancas. Foi quando vi pela primeira vez as habilidosas mãos de Ana e do companheiro Zé sobre o barro, dando vida às suas exóticas e famosas carrancas que já atravessaram o oceano.  Arte que sempre foi e será notória e podendo dialogar com qualquer segmento artístico. Fica provado que a carranca já figurou na boa literatura, no cinema, na televisão, no teatro, na pintura, enfim.

Sempre ali calado, vendo o mundo a seu redor pelo olfato, pela audição, pelo coração. Por um olhar diferenciado. Homem simples, comportado, apaixonado pela vida, pelo som do forró, pelo aroma da vida do jeito como ela sempre foi para ele. Nessa fase, eu engatinhava nas primeiras entrevistas que deram suporte para escrever as diversas reportagens sobre Ana das Carrancas que, mais adiante, me delegou a liberdade de escrever sua biografia “A Dama do Barro” (edição esgotada e a caminho de uma segunda, se Deus permitir e apoio editorial aparecer).

Nesse saudoso e inesquecível ambiente, Zé estava sempre presente, ouvindo as perguntas e respostas se cruzarem entre o repórter e a artesã. Ele atendia ao chamado das filhas. Comia por ali. Lembro de certa vez ele se lambuzando de alegria numa manga ou numa laranja, provando o sabor que o fazia enxergar a doçura da vida. Pertinho estava sempre um papagaio falador, com quem ele também cometia seus diálogos verbais. Zé gostava de assoviar, de cantar, de ouvir canções no rádio. Era fã de Luiz Gonzaga e do humor de Coronel Ludujero. Com este soltava gargalhas. Zé era uma alegria coletiva onde estivesse.

Bastava um interlocutor o chamar pelo nome, mesmo que houvesse tempo sem aparecer, que logo identificava o visitante. A cada diálogo respondia, perguntava, corrigia se preciso fosse. Batia as mãos e dava aquela gargalhada. E quando se falava da paixão por dona Ana, a quem conhecera há mais de meio século, lá nas entranhas do Piauí, aí ele dava aquela respirada forte e falava cada detalhe de tudo como foi, até o último dia em que ficou ao lado da amada, companheira e parceira com quem partilhou a criação das filhas que eram só dela. Depois vieram os netos, que ganharam um avô pelo destino da vida.

“Ana foi um caminhão de ouro na minha vida”, dizia com sinceridade. Vicente nasceu em Genipapo, povoado distante pouco mais de 300 quilômetros da capital Teresina, numa das regiões mais pobres daquele estado. “Acho que era o lugar mais feio do mundo. Nem sei como vão as coisas por lá”, respondeu em certa ocasião. 

Zé Vicente jamais será esquecido no filme real da vida de Ana. Primeiro porque foi o verdadeiro marido. Segundo, porque as carrancas nasceram também pelas mãos deles. E não havia homenagem maior que perfurar os olhos das criaturas de barro. Ana não precisava nem mais declarar seu amor por Zé. O furo nos olhos pode ter sido mais um flechada com ajuda do cupido que selou o encontro e a eterna paixão entre os dois. 

A deficiência visual de Zé foi uma barreira cruel e genética que atingiu outros membros de sua família de origem. Zé foi abrigado a se conformar com a estúpida escuridão da vida. Nós, que enxergamos, ficamos sempre apavorados quando falta energia ou ocorre um apagão que entrou na agenda energética do país.  Zé não ficava. Nem tinha razão para isso. Em toda sua vida, tudo foi escuro, literalmente, na faculdade do olhar. Não importavam luz de vela, lampião, lamparina, fogueiras, lanterna, lâmpadas elétricas…, pois, sempre estava afogado no breu. Ele enxergava pelas vielas do coração.

E foi justamente o coração que resolveu apagar duas vezes na última sexta-feira, dia 30 de maio, em plena madrugada. Bem que o primeiro baque que lhe provocou desmaio no banheiro poderia ter sido só um blecaute. E aí, Zé podia retomar a vida aos poucos, já que chegou respirando e emitindo sinais ao dar entrada numa unidade de saúde de Petrolina, para onde foi levado. Já de manhã, em plena luz quente do dia no sertão, um segundo infarto provocou o apagão definitivo na vida de Zé.

Não teve jeito, a família foi pega de surpresa. E fomos obrigados, lamentavelmente, a aceitar o diagnóstico de que Zé pisava na linha final do horizonte. O Homem lá de cima, Deus, que ele tanto louvou, o chamou. Talvez o santo de devoção de Ana e dele, São Francisco, também o convocou. E eis que no mistério da vida e morte, vamos entender que Zé Vicente subiu aos céus no penúltimo dia de maio para se encontrar com a eterna amada Ana das Carrancas.

Todas as carrancas, agora, choram as lágrimas que correm caudalosas pelo rio São Francisco –  o rio que deu vida, que deu luz, que deu a Zé a alegria de viver. Zé podia ser o personagem de muitas poesias, canções, cantorias e toadas. Foi justamente em Vinícius de Moraes, que nada tinha a ver com o Sertão, que encontrei uns versos lá em ‘Samba da Bênção’, que podiam ser dedicados a Zé Vicente: “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração”. Assim era a luz solar que saia dos olhos cegos de Zé.

Emanuel Andrade/Jornalista e Professor

(Foto: Livro “A Dama do Barro”)

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