Artigo: Engenheiro agrônomo alerta sobre alta incidência de agrotóxico na fruticultura irrigada da região

por Carlos Britto // 11 de julho de 2012 às 17:39

O artigo abaixo do engenheiro agrônomo Malan Calazans é mais do que simplesmente trazer informações sobre o perigo dos agrotóxicos usados nas culturas de frutas no Vale. É um verdadeiro alerta.

Confiram:

A produção de alimentos está bem abaixo das reais necessidades da população mundial e tem sido o maior desafio no desenvolvimento agrícola. Isto traz como premissa não só o aumento da produção, mas, sobretudo, a elevação da produtividade, com tecnologia aperfeiçoada na produção agrícola.

Por outro lado, sabe-se que 50 milhões de pessoas estão ameaçadas de fome e que mais de 700 milhões sofrem de desnutrição. Paralelamente a estas informações, estudos mostram que 3 bilhões de pessoas terão que ser alimentadas até o ano 2025, quando a população deverá chegar em torno de 8 bilhões. A busca da produção de mais e mais alimentos faz nossa agricultura desbravar florestas e uma enormidade já foi derrubada, cedendo lugar à produção de alimentos sem nenhuma orientação conservacionista e técnica, gerando exploração desordenada dos espaços agricultáveis, solos e recursos hídricos.

Esta prática provocou enorme desequilíbrio entre flora e fauna e, com o decorrer do tempo, surgiram consequências, tais como: baixa fertilidade do solo e agentes nocivos às plantas cultivadas. Daí ter a tecnologia buscado melhoria da produção da planta cultivada, mediante o uso de cruzamentos genéticos, fertilizantes e dos pesticidas. Hoje, sabe-se que as perdas agrícolas provocadas por agentes nocivos, tais como insetos, ácaros, fungos, bactérias, ervas daninhas, etc são da ordem de 35%. O uso dos defensivos constitui hoje em dia o principal método de combate a pragas e doenças que, além de atacarem as lavouras, criam grandes problemas para os produtores, afetando imensamente suas economias. A utilização de agrotóxicos faz-se presente em todas as propriedades rurais, ameaçando não só a saúde daqueles que os utilizam, mas também, o meio ambiente, animais etc.

Podemos amenizar os impactos provocados pelo uso incorreto destes pesticidas, através do gerenciamento correto, estribado em normas de segurança da sustentabilidade ambiental. Assim agindo preservaremos a natureza para futuras gerações.

O QUE ESTÁ ACONTECENDO NO VALE?

Visando ao melhor acompanhamento, definamos os fitossanitários: são produtos químicos ou biológicos desenvolvidos para controlar pragas, doenças e plantas invasoras de lavouras. Esta é a definição oficial usada entre países integrantes do Mercosul. São insumos modernos de alta tecnologia, usados pelo homem na proteção de suas lavouras, diante do ataque dos agentes nocivos que provocam danos econômicos à produção agrícola. O uso deverá ser recomendado por um Engenheiro Agrônomo, mediante receituário agronômico. Já o manuseio destes produtos, também chamados de agrotóxicos e popularmente conhecidos como venenos, estão debaixo de legislação especifica, a NORMA REGULAMENTADORA, conhecida como NR-31, que no seu bojo, aborda armazenagem, transporte, preparo, aplicação, descontaminação de equipamentos e vestimentas. Contempla ainda trabalhadores em exposição indireta, os que não manipulam diretamente os agrotóxicos, adjuvantes e produtos afins, mas que circulam e desempenham atividades de trabalho em áreas pulverizadas.

Isto posto, analisemos o dipolo Juazeiro/Petrolina e, sobretudo os municípios à borda do lago de Sobradinho, onde predominam culturas de ciclo curtos. A agricultura de escala, a fruticultura, face às imposições do mercado importador, obedece à legislação em vigor, com procedimentos em parâmetros técnicos, com protocolos de produção, norteados pela PIF- Brasil e certificadoras internacionais. Possui registros de rastreabilidade, advindo daí maior segurança dos produtos com respeito ao período carencial. Os frutos são constantemente analisados e aceitos. A fruticultura possui maior grade de produtos devidamente registrados nos ministérios da saúde, agricultura e órgãos afins.

Tal fato não acontece com culturas de ciclo curto, pois a grade é bem reduzida, provocando celeuma no uso indiscriminado. Esta agricultura de escala resguarda a saúde e bem-estar dos trabalhadores, fornecendo- lhes indumentárias apropriadas – EPI (Equipamentos de Proteção Individual), banheiros, sinalização de áreas recém-pulverizadas. Seguem os ditames da lei que obrigam os produtores rurais colocarem à disposição do aplicador de agrotóxicos tais recursos, além do mais, com base na NR-31, além de capacitarem seus trabalhadores, como uma das exigências das certificadoras internacionais. Particularmente já efetuamos diversos treinamentos sobre manuseio e aplicação dos pesticidas, segundo orientação da Andef, em diversas fazendas.

Mas o problema maior está nos municípios da borda do lago, como também em perímetros irrigados. Aqui sou testemunha ocular dos mais absurdos procedimentos na aplicação dos agrotóxicos. É aqui que devemos investir maciçamente nas capacitações. A FAO expressa em um dos seus relatórios:

“A eficiência, se não for possível com mais recursos, será necessário fazê-la com melhores conhecimentos”.

No Submédio São Francisco, trabalha-se com culturas de ciclo curto (maior parte, cebola), uma área de aproximadamente 11.000 hectares, sendo a Bahia detentora de 5.000 a 6.000 hectares, com envolvimento de aproximadamente 25.000 pessoas. Este agronegócio é insipiente e conduzido de maneira negligenciada, mesmo considerando várias décadas de cultivo.

O processo produtivo fica muito a desejar, daí a necessidade de ações pontuais no sentido de se determinarem padrões que respeitem o meio ambiente e salvaguardem a saúde dos trabalhadores. Neste sentido, salientamos o uso abusivo e comprometedor dos pesticidas, provocando danos irreparáveis, não só ao meio ambiente como à saúde da população ribeirinha.

A ineficiência ocorre dentro e fora da propriedade rural, advindo daí urgência em capacitar os cebolicultores da borda do lago, vez que o conhecimento emancipa as comunidades dos erros e vícios. Boa parte destes rurícolas não sabe diferenciar os agrotóxicos, denominando-os todos de venenos. A grande maioria não usa EPI, não atenta para a direção dos ventos (efeito deriva) e um número considerável trabalha descalço, não lava as vestimentas de imediato, pois roupa suja é fonte de contaminação; Não costuma tomar banho com sabão em barra (o recomendado).

 Muitos se limitam a “banhar” os pés, braços e rosto e se dão por satisfeitos. As mais diversas formas de contaminação são identificadas, sobretudo na hora do preparo da calda, momento em que o agrotóxico, na sua concentração máxima, provoca maior contaminação. Existem notícias de que na comunidade de Riacho dos Pais, em Sento-Sé, é alarmante o índice de câncer, sobretudo em mulheres. Vale lembrar que a mão de obra feminina é altamente usada na fase de transplante das mudas de cebola e em alguns tratos culturais.

Quando ocorre coincidência no horário da aplicação com o trabalho das mulheres, o risco de intoxicação é maior, pois pela ação do vento são respingadas gotas da solução tóxica nessas mulheres, as quais trabalham sem proteção. Aí ocorre a contaminação oral e dérmica, vez que, muitas têm as roupas molhadas pelos respingos e, como não tomam banho e não trocam de roupa imediatamente, a probabilidade de intoxicação é grande.

No que diz respeito às embalagens, o descaso é notório, pois a maioria não processa a tríplice lavagem e os demais procedimentos previstos neste sentido, sendo jogadas as embalagens ao léu e muitas são carreadas pelas águas pluviais até o lago de Sobradinho.

Finalizando, transcrevo a afirmação mais absurda que ouvi de um agricultor: “Os venenos só matam quem não tem ossos, mas nós que temos esqueleto, não somos atingidos”.

Esta região está à mercê da sorte.

Malan Calazans/Engenheiro Agrônomo

Artigo: Engenheiro agrônomo alerta sobre alta incidência de agrotóxico na fruticultura irrigada da região

  1. Josival Amorim disse:

    As informações podem parecer exageros, mas não são. São Verdadeiríssimas. E o pior é que tudo o que se deve fazer não será feito. Sabe o porquê? Os planos de ação por parte do governo estão tcheios de equívocos. Os produtores desinformados e muito mal conscientizados. Guardando-se as honrosas exceções dentre, principalmente, os fruticultores para exportação e mais uns poucos gatos pingados que independentes de qualquer controle externos, primam pela proteção do trabalhador, do consumidor e da natureza.
    Assim como existe um casal daquele que, recentemente, não quis se apropriar dos R$20.000,00 encontrados por que não lhe pertenciam, apesar da sua extrema carência, assim também existem produtores que preferem tomar o prejuízo com sua lavoura a envenenar o ser humana que comprará sua verdura ou fruta na feira. Ainda bem que nem tudo está perdido. No Brasil, via de regra, não existe condição de monitorar um produto encontrado em qualquer feira livre ou supermercado com nível de agrotóxico acima do permitido para consumo humano. Simplesmente porque nada existe montado com este objetivo.
    Este assunto pode ocupar livros e livros. Todavia o maior resumo que se pode fazer deste assunto é:
    1 – tem que ser feito um trabalho de conscientização entre os consumidores e produtores e fornecer toda a orientação de conduta técnica no produzir e na pós colheita;
    2 – Fazer o controle dos níveis de agrotóxico e responsabilizar os vendedores dos produtos agrícolas para que eles exijam dos seus produtores fornecedores certificados de residual.
    3 – Fazer apreensão do produto contaminado, incinerá-lo ou destiná-lo para onde determinam as normativas;
    4 – Sair multando, simplesmente porque o produtor não usa receituário agronômico, também não resolve. O importante é saber se aquele produto foi produzido corretamente. Aquele papel é um simples indicativo de conhecimento técnico, mas não garante a qualidade do produto. Tudo tem que culminar com a rastreabilidade do produto, o acompanhamento e controle de uma ponta a outra da cadeia produtiva, envolvendo os atores: trabalhador, consumidor e a natureza.
    Parabéns Dr. Malan pelo artigo. Este assunto não pode morrer até um dia alguma coisa de objetivo seja feita.

  2. nina disse:

    Isso é gravissimo. E o q estão fazendo para combater esses fatos lamentáveis? Aos poderes a palavra….

  3. Não é por acaso que o vale do São Francisco é a região do brasil em que se mais consome produtos quimicos. Nos últimos dez anos o índice de pessoas com câncer aumentaram assustadoramente na nossa região, além de fetos com má formação, isso já é reflexo do descaso, do uso abusivo e indiscriminado de agroquímicos usados nas cadeias produtoras, as empresas não estão preocupadas com a saúde dos consumidores, e sim ao lucro apenas, a ciência nos recomenda a levar uma alimentação a base de frutas e verduras, mas, aqui não sei se vale apena adotar esta prática..

  4. Thomas More disse:

    As informações prestadas pelo colega Malan são o retrato fiel do que acontece no Vale. Embora muitos que não conhecem a realidade do que acontece nas fazendas da nossa região imaginem que as nossas uvas e mangas são carregadas de agrotóxicos. Isso não é verdade. Nossas áreas de manga e uva são esquadrinhadas por todos os orgãos de fiscalização. Essas propriedades são fiscalizadas pela ADAGRO (em PE) e ADAB (BA), Ministério da Agricultura, Ministério do Trabalho, Sindicatos de Trabalhadores Rurais, além das fiscalizações dos importadores europeus e americanos que têm níveis baixíssimos de tolerância para compostos químicos em seus países e temos que seguir essas normas.
    Por outro lado, uma área imensa é cultivada aqui no vale, principalmente pela cultura da cebola( como relatou o colega Malan – mais de 11.000 ha) e não vemos nenhuma atuação desses orgãos para fiscalizar esses produtores. Fora o uso indiscriminado de defensivos agrícolas, sem nenhuma proteção aos aplicadores, descarte de embalagens em qualquer lugar, muitas vezes no próprio lago de Sobradinho, todo o trabalho de transplantio e colheita da cebola é feito manualmente. Vemos muitas crianças, mulheres, adolescentes nessas áreas, o transporte de pessoal é feito em caminhões, sem nenhuma segurança.
    E certa vez, comentei tudo isso com um diretor do sindicato dos trabalhadores rurais de Casa Nova-BA, e a resposta que ele me deu foi que eles não iam nessas propriedades porque eram propriedades familiares, onde não existiam trabalhadores ali, e sim apenas gente da família. Dei uma sonora risada na cara do mesmo. Amigo, haja gente na família para cuidar de 30..40…100 hectares de cebola, como existe em muitas áreas daquela região. Nessas áreas, não existe Procuradoria do trabalho..não existe ministério do Trabalho…e a vida desses trabalhadores continua…

  5. Jonh disse:

    Parabéns MALAN CALAZANS pelo artigo, enfim vozes começam a defender O VALE DO SÃO FRANCISCO e a imensa quantidade de HUMANOS nesse contexto, a exatamente oito anos atrás, o marido de uma amiga minha, em uma confraternização entre confrades e ele também AGRÔNOMO como o Senhor, egresso da UNEB de Juazeiro Bahia já pintava um quadro como o que o que descrito no seu artigo. Parabéns de verdade pela sensibilidade HUMANA!

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