Artigo do leitor: “Será se o Nego D’Água pode nos dar uma força?”

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Em artigo enviado a este Blog, o presidente do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), Haroldo Schisteck, comenta sobre a seca na Bacia do São Francisco e faz um questionamento quando à transposição. Schisteck ainda fala sobre a figura mitológica do Nego D’Água, que tem uma estátua no Bairro Angary, em Juazeiro (BA), a qual está totalmente fora do leito do rio. A lenda diz que o Nego D’Água vive no fundo do rio e que os pescadores, antes do trabalho, devem agradá-lo, para ele não ficar zangado. “Será que, tentando de novo, o Nego D’Água poderia nos dar uma força para a água voltar para o São Francisco?”

Acompanhem:

No sexto ano de chuvas muito abaixo do que se costuma registrar, e mais irregulares na sequência temporal e na distribuição geográfica, o sistema hidroelétrico do São Francisco está penando e, junto com ele, as populações ao longo do rio. O Rio São Francisco, chamado também de Integração Nacional, por nascer e desaguar no mar dentro do território brasileiro, é o quinto maior rio do Brasil, com 3.180 km de extensão.

Na cidade de Juazeiro (BA), no período chuvoso, que se estende aproximadamente de outubro a março/abril, este ano choveu somente 91 mm, enquanto se poderia esperar 525 mm em média. A falta de chuva não foi muito diferente nas nascentes do Rio São Francisco e dos seus tributários. A isso se somam ainda as quantidades enormes de água que são retiradas dos afluentes ou do lençol freático para projetos gigantes de irrigação. E, evidentemente, do próprio São Francisco.

O lago de Sobradinho serve praticamente de caixa d’água para todas hidroelétricas rio abaixo, pois lá, pelos fatores geográficos e geológicos, os reservatórios são pequenos. O Lago de Sobradinho está perto do colapso: no último dia 12 estava na capacidade de armazenamento de somente 10,92 %. A capacidade de todo Nordeste (que inclui Sobradinho, Três Marias e Itaparica) desceu para 16,51 % de água armazenada. É importante saber que estas três barragens representam 96,86 % da capacidade de armazenamento da região.

Isto já é catastrófico por si mesmo. Mais ainda quando se sabe que estamos na metade do mês de julho e as chuvas em Minas Gerais o nos afluentes não devem  iniciar antes de outubro. Para economizar água, o volume liberado da barragem de Sobradinho já foi reduzido para a vazão de 600 m³ por segundo (A Chesf garantiu na época da construção da barragem pelo menos 1.200 m³ por segundo, durante o ano todo, pois a barragem regularizaria o fluxo da água). Mas a redução não foi suficiente, pois uma nova norma proíbe qualquer irrigação em todas as quartas-feiras até 30 de novembro, sendo que nem a água armazenada nos projetos de irrigação pode ser usada. Ainda assim, já está em vista uma nova redução para 570 m³ por segundo.

Ainda se pergunta: de onde vão retirar a água para a Transposição?

Com a redução de água no rio, tanto os grandes projetos quanto os pequenos irrigantes são afetados, mas os agricultores que tentaram viver de irrigação na borda no Lago de Sobradinho tem ainda maiores prejuízos. Na maior extensão do lago, o rio voltou para seu leito antigo, deixando vastas extensões de lama ressecada em cada lado. Os agricultores irrigantes tinham suas roças instaladas na beira do lago e hoje a água se encontra a quilômetros de distância. Tentaram no início deslocar as bombas de irrigação mais perto da nova linha d’água, comprando mais tubulações. Mas chegaram logo a um limite financeiro. Prefeituras começaram socorrer, cavando valetas de aproximação, para que a água chegasse mais perto das áreas irrigadas. O roubo de tubulações e bombas de irrigação agravou a crise da irrigação no Lago de Sobradinho, que hoje se encontra praticamente parada, gerando falta de emprego e renda.

Um sinal visível da situação de penúria do São Francisco se percebe nas duas fotos da estátua do Nego D’Água, que possui uma altura de mais de seis metros. Uma foi tirada em 2006 e a outra faz cinco dias. O Nego D‘Água está no seco. Em anos de chuva boa, a água chega no peito da estátua.

O Nego D‘Água, uma figura mitológica, vive, segundo os marujos e pescadores, no fundo do rio e pode ficar muito zangado, afundando barcos e navios ou deixando eles encalhados em bancos de areia, se não receber uma oferenda antes de cada viagem. Com uns goles de cachaça ou uma pitada de fumo, ele fica contente.

Este costume chegou ao desuso. Será que tentando de novo, o Nego D’Água poderia nos dar uma força para a água voltar para o São Francisco?

Haroldo Schisteck/Presidente do IRPAA

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