Artigo do leitor: “O Brasil que você condena também mora em você”

por Antonio Carlos Miranda // 11 de setembro de 2026 às 21:35

Foto: reprodução/internet

Os mais recentes acontecimentos no país levaram o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, a uma reflexão profunda em seu mais recente artigo. Confiram:

Há palavras que o tempo deformou. Apocalipse é uma delas. Durante séculos, aprendemos a ouvi-la como sinônimo de fim do mundo, destruição, fogo, trombetas e medo. Mas apocalipse, em sua raiz grega, significa revelação, desvelamento, retirada do véu. É o instante em que aquilo que estava escondido aparece, em que a máscara já não consegue sustentar o rosto, em que a mentira perde força para continuar parecendo verdade. Talvez seja essa a palavra mais adequada para compreender o Brasil destes tempos. Não porque o mundo esteja acabando, mas porque muita coisa está sendo revelada. E quanto mais o véu cai, mais difícil fica continuar fingindo que não estamos vendo.

Tenho pensado muito nisso. Talvez porque o tempo nos obrigue a olhar a vida de outra maneira. Já vi homens que pareciam gigantes se transformarem em fotografias. Já vi gente cercada de poder, dinheiro, influência, bajuladores e portas abertas descobrir que existem lugares onde nenhum sobrenome consegue entrar na frente. A doença não chama ninguém de Excelência. A dor não pergunta quanto existe na conta bancária. A morte não consulta pesquisa eleitoral. E o cemitério, talvez a instituição mais democrática que conhecemos, recebe poderosos e anônimos da mesma maneira.

O Apocalipse de João não é simplesmente um calendário de catástrofes. É também uma denúncia contra o poder que se absolutiza, contra impérios que se imaginam eternos e contra a idolatria que coloca homens no lugar de Deus. Mudam os séculos, os governantes e as bandeiras, mas permanece intacta nossa facilidade de ajoelhar diante do poder.

Foi isso que fizemos com a política brasileira. Lula e Bolsonaro, para milhões de brasileiros, deixaram de ser homens públicos, falíveis, transitórios e fiscalizáveis. Tornaram-se identidades. Criticar Lula passou a significar ser bolsonarista. Criticar Bolsonaro, ser lulista. Perdemos até a liberdade de concordar hoje e discordar amanhã. Já não perguntamos primeiro se determinada conduta é certa ou errada. Perguntamos quem fez. Se foi o nosso, procuramos uma explicação. Se foi o outro, exigimos condenação.

E é aqui que o Apocalipse começa a doer. Porque uma revelação verdadeira não ilumina somente a sujeira do adversário. Ela ilumina a nossa.

É fácil desejar luz sobre o gabinete do político que detestamos. Difícil é permitir que essa mesma luz atravesse a porta de nossa casa. Exigimos honestidade em Brasília, mas procuramos um conhecido para furar uma fila. Condenamos privilégios e comemoramos quando conseguimos o nosso. Detestamos a mentira adversária e encontramos justificativas para a mentira de quem apoiamos. Reclamamos do tráfico de influência enquanto perguntamos discretamente: “Você não conhece alguém lá dentro que possa resolver isso para mim?”

Então talvez seja necessário fazer uma pergunta desagradável: e se Brasília não for um corpo estranho ao Brasil? E se Brasília for apenas o Brasil quando recebe poder, dinheiro, cargos e a oportunidade de fazer aquilo que condenava quando estava do lado de fora?

Essa pergunta nos retira do lugar confortável de vítimas inocentes. As instituições não nasceram em outro planeta. São ocupadas por homens e mulheres formados na mesma sociedade que formou a mim e a você. A corrupção não começa no primeiro milhão desviado. Começa quando princípios se tornam negociáveis. Quando o errado passa a depender de quem o praticou. Quando honestidade vira ingenuidade, esperteza vira virtude e vantagem pessoal passa a ser chamada de oportunidade.

A Bíblia possui uma passagem devastadora para quem gosta de julgar os outros. O profeta Natã conta ao rei Davi uma história de profunda injustiça. Davi se revolta, aponta o dedo e condena o homem da narrativa. Então Natã olha para ele e diz: “Tu és esse homem.” De repente, aquilo que parecia uma janela se transforma em espelho. Davi enxergava perfeitamente o pecado enquanto acreditava que ele pertencia a outro.

Talvez esteja faltando um Natã diante do Brasil.

Tu és esse homem.

Eu sou esse homem.

Nós somos essa sociedade.

Isso não dilui responsabilidades. Quem praticou ilícito deve ser investigado e, comprovada sua responsabilidade mediante o devido processo legal, deve responder. Seja de esquerda, direita ou centro. Governo ou oposição. Executivo, Legislativo, Judiciário ou setor privado. Mas uma sociedade não será regenerada apenas colocando corruptos na cadeia se continuar preservando a cultura que produz corrupção.

Cristo advertiu que os escândalos viriam, mas pronunciou palavras severas contra aquele por meio de quem viessem. Existe nisso uma verdade que atravessa dois mil anos. O mal pode fazer parte da fragilidade humana, mas isso não elimina a responsabilidade de quem escolhe praticá-lo. Não existe ideologia capaz de revogar consequência moral. Não existe maioria eleitoral que transforme errado em certo. Não existe cargo que conceda imunidade diante da consciência.

Costumo repetir que Newton não inventou a gravidade. Apenas percebeu uma lei que já existia. A maçã já caía antes dele. Há também uma espécie de gravidade moral na existência. Paulo escreveu que aquilo que o homem semear, isso também colherá. Talvez ainda não tenhamos compreendido a profundidade disso. Imaginamos que nossas palavras desaparecem depois de pronunciadas, que nossas escolhas terminam depois de feitas e que o mal praticado contra alguém permanece apenas do lado de lá.

Não permanece.

O que fazemos também nos faz.

O ódio que lançamos contra alguém primeiro precisa morar dentro de nós. A mentira que repetimos primeiro deforma nossa consciência. A injustiça praticada contra alguém começa destruindo alguma coisa naquele que a pratica. Talvez determinadas escolhas comecem a nos condenar muito antes de qualquer julgamento, quando precisamos nos acostumar progressivamente com aquilo que um dia teríamos vergonha de fazer.

Quantas vezes, quando a vida aperta, levantamos os olhos e perguntamos: “Meu Deus, por que comigo?” Talvez exista uma pergunta que deveria vir antes: como tenho vivido? O que tenho plantado? O que minhas escolhas estão fazendo comigo e com aqueles que estão ao meu redor?

Isso não significa dizer que doença, acidente, morte, perda de um filho ou qualquer tragédia sejam castigos de Deus. Seria cruel e teologicamente pobre transformar o sofrimento humano em contabilidade. O próprio Cristo rejeitou essa associação simplória entre sofrimento e culpa. Existem dores que pertencem ao mistério da existência. Existem inocentes que sofrem e homens maus que aparentemente prosperam. A vida não cabe numa planilha moral.

Mas existe uma verdade da qual ninguém escapa: escolhas produzem consequências, hábitos formam caráter e caráter participa da construção dos nossos destinos.

Às vezes, a própria vida nos oferece sinais que deveriam nos arrancar da embriaguez da vaidade. Já vi homens poderosíssimos atravessarem este país cercados de autoridades, assessores e pessoas disputando alguns segundos de sua atenção. Homens capazes de fazer um telefone tocar e uma porta se abrir. Depois a vida entrou sem pedir audiência. Chegou a doença. Chegou a velhice. Chegou uma perda irreparável. Chegou a morte. E diante delas desapareceram Excelência, gabinete, influência, patrimônio e poder.

Ficou o homem.

Nu de títulos, de cargos e de aplausos.

E nessas horas me pergunto: para que serviu tanta guerra? Para que humilhar? Para que destruir reputações? Para que acumular inimigos? Para que vender a consciência, sacrificar família, paz, amizade e dignidade para permanecer mais quatro anos numa cadeira que inevitavelmente será ocupada por outro?

Talvez devesse existir sobre a mesa de todo homem poderoso a fotografia de um cemitério. Não por morbidez. Por consciência. Ali repousam pessoas que também tinham compromissos amanhã. Planejavam a próxima semana, a próxima eleição, o próximo negócio. Tinham patrimônio, adversários, projetos e vaidades. Algumas certamente acreditavam ser indispensáveis. A morte possui uma pedagogia terrível: ela devolve todos nós ao mesmo tamanho.

Talvez uma das maiores tragédias humanas seja passar a existência inteira acumulando poder sobre os outros e chegar ao fim sem ter conquistado poder algum sobre si mesmo.

E a lei da semeadura é ainda mais assustadora porque não precisamos morrer para colher. Há gente colhendo em vida a solidão que plantou. Há quem conquistou poder e perdeu a família. Quem acumulou dinheiro e não viu os filhos crescerem. Quem ganhou todas as discussões e terminou sem ninguém com quem conversar. Quem construiu uma imagem admirável para milhares de desconhecidos enquanto se tornou estranho dentro da própria casa. Quem defendeu tanto uma ideologia que já não consegue abraçar um irmão que pensa diferente.

Há vitórias que são derrotas disfarçadas.

Há conquistas cujo preço foi exatamente aquilo que tínhamos de mais precioso.

Talvez você esteja lendo estas linhas e pensando imediatamente nas pessoas que lhe fizeram mal. No político que detesta. Em Lula. Em Bolsonaro. Num ministro. Num deputado. No vizinho. No parente. No antigo amigo.

Não.

Desta vez, não.

Esqueça todos eles por alguns segundos.

Pense em você.

O que você tem plantado dentro de sua casa? O que seus filhos aprendem observando você? Como você trata quem não pode lhe oferecer nada? Quantas pessoas você feriu e chamou isso de sinceridade? Quantas humilhou e chamou de justiça? Quantas vezes desejou ao adversário exatamente aquilo que pediria de joelhos a Deus que jamais acontecesse com alguém que você ama? Quantas vezes pediu perdão no Pai Nosso e voltou a alimentar o mesmo ódio?

Agora faça uma pergunta ainda pior: se seus filhos repetissem exatamente o seu comportamento, você teria orgulho deles?

Talvez seja nesse instante que o Apocalipse deixe de ser política e finalmente se transforme em revelação.

Porque é muito fácil retirar o véu de Brasília.

Terrível é retirar o nosso.

Cristo disse que nada há encoberto que não venha a ser revelado. Que venha à luz, então, tudo aquilo que precise vir. Se houver sujeira na esquerda, que apareça. Na direita, que apareça. No centro, que apareça. No Executivo, Legislativo ou Judiciário, que apareça. No setor privado, que apareça. Sem condenação antecipada e sem blindagem seletiva. Com prova, contraditório, devido processo e responsabilidade.

A verdade não tem partido.

Quem deseja a verdade somente quando ela destrói o adversário não ama a verdade. Ama a arma em que conseguiu transformá-la.

Olhe o que fizemos conosco. Famílias brigaram. Amigos se afastaram. Irmãos deixaram de se falar. Pessoas rezam “perdoai as nossas ofensas” e minutos depois desejam a destruição de quem pensa diferente. Publicamos versículos sobre amor e distribuímos ódio. Falamos em família enquanto permitimos que políticos que sequer sabem nosso nome destruam relações construídas durante décadas.

De que adianta vencer uma eleição e perder a alma?

A eleição de 2026 está diante de nós. Entre naquela cabine sem carregar um ídolo. Político não é salvador. Partido não é igreja. Ideologia não é Evangelho. Urna não é altar. Não vote para se vingar, para derrotar o vizinho ou apenas pelo próprio bolso. Olhe o todo. Examine caráter, competência, passado, alianças, coerência, propostas e respeito às instituições. Depois fiscalize principalmente aquele em quem votou. Democracia começa quando temos coragem de cobrar os nossos.

Antes de apertar “confirma”, faça silêncio.

Pergunte que Brasil você está ajudando a deixar para seus filhos.

Mas faça outra pergunta, muito mais difícil: que pessoa eu me tornei enquanto dizia que estava tentando salvar o Brasil?

Talvez o verdadeiro Apocalipse brasileiro não esteja acontecendo apenas em Brasília. Talvez esteja acontecendo dentro de nós. O véu está caindo. Instituições estão expostas. Ídolos revelam pés de barro. Contradições aparecem. Mas ainda existe uma última máscara a cair.

A nossa.

Porque Lula passará.

Bolsonaro passará.

Presidentes passarão. Ministros passarão. Parlamentares passarão.

Eu passarei.

Você passará.

E chegará um momento em que não haverá cargo, partido, dinheiro, argumento, seguidores ou multidão para nos proteger do encontro com aquilo que fomos. Restará aquilo que fizemos, aquilo que deixamos nas pessoas e aquilo que plantamos.

Talvez, no fim, Deus não pergunte quantas discussões políticas vencemos, quantos adversários humilhamos ou quantas vezes provamos que estávamos certos. Talvez a pergunta seja muito mais simples e muito mais terrível:

O que você fez com a consciência que recebeu?

O Apocalipse não precisa ser o dia em que o mundo acaba. Talvez seja o dia em que o véu finalmente cai e enxergamos aquilo que passamos a vida inteira tentando esconder.

O Brasil que tanto acusamos também mora dentro de nós. E se o véu caísse agora, se todas as justificativas desaparecessem e você tivesse de ficar sozinho diante de Deus, da sua história e da sua própria consciência, sem Lula, sem Bolsonaro, sem partido e sem ninguém para culpar, você teria coragem de olhar para a pessoa que seria revelada?

Rivelino Liberalino

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