Neste artigo, o leitor Alessandro Maracajá reflete sobre os desafios da contratação e retenção de mão de obra no agronegócio do Vale do São Francisco. O autor defende que a escassez de trabalhadores não é o único problema enfrentado pelo setor e destaca a importância da gestão de pessoas, da formação de lideranças e da valorização dos colaboradores como fatores essenciais para reduzir a rotatividade e fortalecer a produtividade no campo.
Confiram:
A dificuldade para contratar e manter trabalhadores tem sido apontada por muitos produtores rurais como um dos principais desafios do agronegócio no Vale do São Francisco. Em uma região onde a fruticultura continua crescendo e demandando cada vez mais profissionais, a disputa por mão de obra qualificada é uma realidade. Mas será que o problema está apenas na falta de trabalhadores? Na minha visão, não.
Existe, sim, uma redução da oferta de mão de obra em algumas funções. Porém, em muitas propriedades, a dificuldade de contratar e, principalmente, de reter colaboradores está diretamente relacionada à forma como as pessoas são geridas. Existem fazendas onde os funcionários permanecem por cinco, dez anos ou mais. Em outras, a rotatividade é tão alta que novas contratações acontecem todos os meses. A diferença nem sempre está no salário. Muitas vezes está na gestão. O produtor acompanha de perto o pomar, controla a irrigação, monitora pragas, produtividade, custos e comercialização. Mas a mesma atenção precisa ser direcionada às pessoas. Afinal, são elas que transformam planejamento em resultado.
A realidade do campo mudou. Hoje, mesmo colaboradores com baixa escolaridade têm acesso à informação pelo celular, conhecem outras oportunidades e valorizam ambientes onde são respeitados. Salário é importante, mas sozinho não garante permanência. O trabalhador permanece onde encontra respeito, diálogo, organização, oportunidade de crescimento e reconhecimento pelo seu trabalho. Outro ponto que merece atenção é o papel da liderança. Na prática, o colaborador convive diariamente com seu encarregado, líder ou gerente.
É essa liderança que influencia diretamente seu nível de motivação, comprometimento e permanência na empresa. Por isso, investir no desenvolvimento de líderes deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade. Liderar não significa apenas cobrar resultados. Significa orientar, ouvir, desenvolver pessoas, resolver conflitos e criar um ambiente de confiança. Também é importante compreender que nem todos os colaboradores estão no mesmo estágio de desenvolvimento profissional. Há profissionais que estão iniciando e precisam aprender praticamente tudo.
Outros já dominam suas atividades, mas ainda necessitam de acompanhamento para evoluir. Existem aqueles que atuam com autonomia e desempenho consistente e, por fim, profissionais estratégicos, que possuem conhecimento técnico e exercem influência positiva sobre toda a equipe. Cada um desses perfis exige uma forma diferente de liderança, acompanhamento, treinamento e reconhecimento. Tratar todos da mesma maneira costuma gerar desmotivação e perda de talentos.
Outro aspecto pouco observado é o custo da alta rotatividade. Quando um colaborador deixa a empresa antes dos primeiros meses, a propriedade assume uma série de custos que muitas vezes não aparecem nos relatórios financeiros: recrutamento, seleção, treinamento, perda de produtividade, desligamento, rescisões e, em alguns casos, ações trabalhistas. Recursos que poderiam estar sendo direcionados para capacitação, melhoria do ambiente de trabalho, formação de lideranças e fortalecimento da cultura organizacional.
Da mesma forma que o produtor acompanha indicadores financeiros, operacionais e produtivos, também precisa acompanhar indicadores relacionados às pessoas, como rotatividade, absenteísmo, tempo médio de permanência, horas de treinamento, desempenho das equipes e clima organizacional. Gestão de pessoas não é um setor isolado dentro da propriedade. Ela faz parte da estratégia do negócio. No fim das contas uma propriedade rural produz frutas, mas quem entrega os resultados são as pessoas. E quando existe uma gestão eficiente, com processos bem definidos, lideranças preparadas e colaboradores valorizados, o resultado aparece em todos os setores da empresa.
Alessandro Maracajá/Leitor


