Artigo do leitor: “Entre o Bônus regional e a democratização do ensino superior”

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Num artigo enviado ao Blog, o professor Marcos Uchoa faz uma análise e levanta questionamentos quanto ao Bônus regional de 10% na nota do Enem, aprovado recentemente, para determinados cursos da Universidade de Pernambuco (UPE). 

Confiram:

Entre o Bônus regional e a democratização do ensino superior

A notícia veiculada neste mesmo Blog relacionada ao Bônus regional de 10% na nota do Enem aprovada na Universidade do Estado de Pernambuco me motivou, ainda mais, a tratar do assunto. A escolha da Universidade foi de que somente os cursos de Medicina, Odontologia e Direito seriam afetados pelo Bônus.

De imediato vieram à mente as seguintes perguntas.

Por que esses cursos? Por que não outros? Só há carência de tais profissionais no Estado? A bonificação de determinados cursos, e não de outros, ou de todos os outros, não seria uma forma de atender a interesses políticos ou de lobbys de donos de cursinhos?

Se na raiz da lógica do Bônus regional está a tentativa de desenvolvimento regional aliada à valorização das oportunidades para o povo pernambucano e, especificamente sertanejo, há motivações alheias a isso. Tão carente quanto as profissões de médico, de médico dentista e de advogados, também há carência de professores, de psicólogos, de assistentes sociais, de enfermeiros, de sanitaristas, todos cursos existentes na UPE. Não tenho a intenção de dizer que a adoção da bonificação regional é errada, sou um de seus defensores por vários motivos. Contudo, sou absolutamente contra a escolha de cursos, a partir de critérios que nem sempre denunciam seus verdadeiros motivos, a serem elencados em um suposto cardápio de oportunidades que salvarão o desenvolvimento local e regional.

É necessário fazer a defesa de que o povo pernambucano tenha a oportunidade e também a possibilidade de bonificação em outros cursos, que não são necessariamente vinculados ao desenvolvimento local, mas ao desenvolvimento humano.

Fazer a defesa somente de cursos reconhecidos como de alta seletividade, ou socialmente valorizados, não basta. Essa lógica só fortalece a existência e a reprodução de um núcleo de cursos de alta seletividade. Quem precisa de 10% de bônus na nota do Enem para ingressar em cursos de difícil acesso, já possuía notas relativamente altas e não passou por conta das notas de corte ou quantidade de vagas. Esse tipo de defesa precisa ser para o acesso a qualquer curso da Instituição, para qualquer localidade, inclusive para os cursos a distância. Não se trata só do acesso a cursos de alta seletividade, mas do próprio acesso de muitos pobres ao ensino superior.

Não sei em que medida o movimento em defesa da Bonificação na Universidade do Vale do São Francisco, que luta há tempos, se organiza em torno da democratização do acesso ou de seu fortalecimento em torno de um núcleo restrito de acesso. Mas vale pensar, na medida em que defendemos o acesso democratizado a determinados cursos, estamos os deixando perto de alguns; mas os outros cursos, e o próprio acesso ao ensino superior, continuam distantes de tantos outros. O bônus é válido, mas é melhor que seja para todos os cursos.

Professor Marcos Uchoa/Pedagogo, doutorando em educação e membro do grupo de pesquisa HABITUS

1 COMENTÁRIO

  1. Prezado Professor Marcos,
    Os cursos de docência não precisam de bonificação porque a pontuação de acesso já é muito baixa e não sofre competitividade.
    Como professor, precisamos gastar energia para adquirirmos competência para fazer o aluno aprender independente das suas condições sociais e pessoais. A partir daí a profissão vai ser mais valorizada (sim, estou me referindo a remuneração) e terá uma atração maior.

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