Artigo do Leitor: “A órfã que ensinou a todos nós o verdadeiro significado da fé”

por Karyne Ramos // 19 de julho de 2026 às 19:40

Foto: GloboNews/reprodução

Em mais uma de suas reflexões emocionantes, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino aborda uma história de fé, saudade e amor, mostrando como a simplicidade de uma criança pode revelar grandes ensinamentos sobre a vida. Confiram:

Há momentos em que Deus não fala pelos púlpitos, nem pelos teólogos, nem pelos intelectuais. Há momentos em que Ele escolhe a voz de uma criança. Foi exatamente isso que testemunhei, de forma absolutamente despretensiosa, durante a cobertura das festividades de Nossa Senhora do Carmo. A repórter Bianca Carvalho entrevistava romeiros quando parou diante de uma menina de apenas oito anos. Nada indicava que, dali a poucos segundos, milhares de pessoas seriam conduzidas ao mais profundo dos santuários: o coração humano. A pergunta era simples: “O que você pediu a Nossa Senhora?”. A resposta, porém, rasgou a alma.

Com uma serenidade que só existe em quem já conheceu uma dor grande demais para a própria idade, Antonella respondeu que pedia proteção, que nada de ruim acontecesse com ninguém. E então, quase como quem tenta esconder a própria ferida, disse: “Minha mãe faleceu”. Não havia revolta. Não havia reclamação. Havia saudade. Uma saudade tão pura que parecia atravessar a tela. Ela contou que perdeu a mãe em maio, que fez oito anos sem poder abraçá-la, que a família a acolhe e que a tia se tornou uma mãe para ela. Mas, ainda assim, confessou com uma sinceridade desarmante: “Eu sinto saudade da minha mãe.”

Existe uma frase que atravessa séculos sem jamais perder a força: mãe é insubstituível. Pode haver pais extraordinários, avós heroicos, tias que oferecem a própria vida e madrastas que amam como verdadeiras mães. Tudo isso é real. Tudo isso é digno da mais profunda reverência. Mas existe um espaço na alma que guarda o cheiro da mãe, o colo, a voz, o toque, a maneira única como chamava o nosso nome. Há ausências que nenhum amor consegue apagar completamente.

Conheço essa realidade muito de perto. Minha esposa perdeu a mãe quando tinha apenas um ano de idade. Foi criada com amor, recebeu cuidado, jamais lhe faltaram dedicação e afeto. Ainda assim, a vida inteira ouviu a mesma frase: “Essa é a filha da finada Maria”. Era como se uma parte de sua história apontasse continuamente para alguém que ela jamais teve a oportunidade de conhecer. Quantas vezes imaginei o que teria significado para ela recordar um abraço, lembrar do perfume ou simplesmente dormir novamente no colo da mãe, ainda que por poucos minutos. Há lembranças que nunca existiram. E, justamente por isso, doem ainda mais.

Também me recordo de uma mulher simples que trabalhou na casa dos meus avós. Ela havia sido rejeitada pela própria mãe, uma mulher consumida pelo alcoolismo. Anos depois, já adulta, escrevia cartas dirigidas àquela mãe. Cartas que talvez jamais fossem lidas. Não buscava dinheiro. Não buscava herança. Buscava apenas uma resposta para uma pergunta que nunca deixou de morar dentro dela: “Por que não fui amada?”. Conheci também pessoas plenamente realizadas profissionalmente que viajaram por cidades inteiras na tentativa de localizar a mãe biológica. Algumas já eram avós. Mas continuavam sendo filhas. Porque existe uma criança que nunca envelhece dentro de cada ser humano. Ela continua esperando um abraço que nunca recebeu e desejando ouvir um “eu te amo” que jamais chegou.

A psicologia chama isso de vínculo primário. A psicanálise fala da primeira relação de amor. A neurociência demonstra que a presença materna influencia profundamente o desenvolvimento emocional. Mas nenhuma ciência consegue traduzir completamente aquilo que a alma sente. Antonella conseguiu. Sem teoria, sem livros, sem discursos elaborados. Apenas dizendo: “Eu sinto saudade da minha mãe.”

Enquanto muitos adultos desperdiçam a vida reclamando do que têm, aquela menina agradecia pelas pessoas que Deus colocou ao seu redor. Disse que sua tia é sua mãe. Disse que sua família a apoia. E, por fim, pronunciou uma frase que parecia saída diretamente do Evangelho: “Minha mãe está me vendo em todos os lugares.”

Naquele instante, lembrei-me de Cristo. O Deus que decidiu conhecer a dor humana por dentro. Que nasceu do ventre de Maria, cresceu sob o olhar de uma mãe, chorou diante da morte de um amigo, experimentou a fome, o cansaço, a solidão e a traição. O mesmo Cristo que viu a própria mãe sofrer enquanto assistia ao Filho inocente ser crucificado. Maria conheceu a dor que nenhuma mãe deseja conhecer. Viu o Filho ser condenado injustamente, percorreu o caminho do Calvário e permaneceu de pé diante da cruz, não porque não sofresse, mas porque o amor também sabe permanecer.

Foi esse mesmo Cristo quem, antes de partir, nos deixou uma das maiores promessas das Escrituras: “No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (João 16,33). Ele nunca prometeu uma vida sem lágrimas. Prometeu que as lágrimas jamais teriam a última palavra.

Talvez seja essa a maior lição daquela pequena menina. Ela perdeu a mãe, mas não perdeu a esperança. Perdeu o abraço, mas não perdeu a fé. Perdeu a presença física, mas não perdeu o amor. Há crianças que ensinam adultos a rezar. Antonella foi uma delas. Sem perceber, transformou uma simples entrevista em uma verdadeira homilia e fez milhares de pessoas refletirem sobre aquilo que realmente importa.

Porque, no fim das contas, a vida não será medida pelo patrimônio que acumulamos, pelos cargos que ocupamos ou pelos títulos que ostentamos. Ela será medida pelos abraços que demos, pelas lágrimas que enxugamos, pelas vidas que acolhemos e pelo amor que deixamos como herança.

Que Nossa Senhora do Carmo acolha todas as crianças que cresceram sem o colo da mãe. Que fortaleça todos os pais, avós, tias e familiares que, com amor e sacrifício, procuram preencher uma ausência que sabem ser impossível substituir. E que cubra Antonella com seu santo manto, protegendo seus passos, consolando seu coração e transformando sua saudade em esperança.

Porque algumas crianças parecem falar com a voz dos anjos.

E, naquele dia, Deus escolheu falar através dela.

Rivelino /Victoria Liberalino

Artigo do Leitor: “A órfã que ensinou a todos nós o verdadeiro significado da fé”

  1. Cledson Oliveira disse:

    Bela reflexão.
    Seu Rivelino escreve muito bem .
    Tem sensibilidade para aborta vario temas

  2. Raquel Bonfim disse:

    Que texto lindo, li com lágrimas nos olhos, pois também perdi minha mãe ainda criança e conheço na pele a dor e a saudade, e foi essa mesma fé que me guiou na infância e me guia até hoje! Parabéns ao escritor!

  3. João Almeida disse:

    Linda reflexão. Antonella foi além da alma, sua fé mostrou a maior aproximação entre a razão e a emoção. Palmas 👏 para Antonella.

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