De forma anônima, por receio de represálias, funcionários do Departamento de Polícia Técnica (DPT) de Juazeiro (BA) divulgaram uma carta aberta à sociedade, em que chamam atenção para um cenário de intimidações pelo qual estão sofrendo.
Confiram a íntegra da carta:
Nós, trabalhadores do Departamento de Polícia Técnica de Juazeiro, decidimos tornar público um pedido de socorro.
Escrevemos de forma anônima porque temos medo.
Medo de perseguições, avaliações negativas, prejuízos funcionais, processos administrativos, demissões e outras possíveis formas de retaliação, incluindo perseguição. Entre nós existem servidores efetivos, servidores em estágio probatório, contratados pelo REDA, terceirizados e trabalhadores da limpeza. Muitos gostariam de falar, mas sentem que não podem.
O que estamos vivendo no ambiente de trabalho precisa ser conhecido e, principalmente, apurado por órgãos competentes.
Nos últimos tempos, o ambiente do Departamento passou a ser marcado por um clima que muitos de nós consideramos hostil e intimidatório. A sensação é de que não existe espaço seguro para discordar, questionar decisões ou simplesmente apresentar uma dificuldade sem receio das consequências.
Pequenos erros ou situações corriqueiras de trabalho são, segundo relatos de trabalhadores, tratados de maneira desproporcional, criando um ambiente permanente de tensão. Trabalhadores que foram chamados nos últimos dias, na sala da coordenação, foram vistos aos prantos.
Também existe uma percepção generalizada de dificuldade de diálogo com a coordenação. Muitos servidores relatam que não se sentem à vontade para apresentar opiniões divergentes ou questionar determinadas decisões. A comunicação, em algumas situações, é percebida como imprevisível e seletiva, o que aumenta a insegurança de quem depende da avaliação de seus superiores.
Os trabalhadores mais novos, especialmente REDA, terceirizados e servidores em estágio probatório, têm ainda mais receio de se manifestar por dependerem de avaliações e renovações de contrato.
Entre os servidores antigos, próximos da aposentadoria, também existe medo de sofrer algum tipo de represália depois de uma manifestação contrária à gestão.
Ou seja: os que têm mais medo de perder o emprego não falam; os que têm estabilidade também temem possíveis consequências funcionais. E assim o silêncio se instala.
Não queremos uma guerra dentro do Departamento.
Não queremos perseguição contra ninguém.
Não queremos privilégios.
Queremos apenas um ambiente de trabalho saudável, respeitoso e democrático.
Também nos preocupa o relato de situações que poderiam caracterizar assédio moral entre trabalhadores. Já presenciamos, segundo relatos internos, situações de tamanha pressão sobre profissionais que resultaram em afastamentos por sofrimento psíquico. Esses episódios precisam ser analisados com seriedade e imparcialidade, sem pré-julgamentos, mas também sem serem ignorados.
A recente denúncia pública envolvendo a existência de câmeras na Sala Lilás, ambiente destinado ao atendimento de mulheres e crianças vítimas de violência sexual, aumentou ainda mais a nossa preocupação.
Independentemente de quem tenha realizado a denúncia ou de quais sejam suas motivações, entendemos que uma questão dessa gravidade deve ser tecnicamente investigada e esclarecida pelos órgãos competentes, inclusive quanto à existência ou não de gravação de imagem e/ou áudio, finalidade, armazenamento, acesso às imagens, responsável pelo equipamento e conformidade com as normas de proteção à intimidade das vítimas e dos profissionais.
Da mesma forma, entendemos que eventuais conflitos envolvendo a implantação do ponto eletrônico, sindicatos ou categorias profissionais não podem resultar em um ambiente de trabalho marcado pelo medo ou pela hostilidade.
O serviço público precisa funcionar.
Mas precisa funcionar com respeito aos servidores, aos trabalhadores terceirizados, aos profissionais contratados e, principalmente, às pessoas que procuram o Departamento em situações de extrema vulnerabilidade.
Por isso, fazemos um apelo: Que sejam realizadas, de forma independente e imparcial, as devidas apurações sobre o ambiente de trabalho do Departamento de Polícia Técnica de Juazeiro, pois, estamos adoecendo!
Que sejam ouvidos servidores efetivos, REDA, terceirizados e trabalhadores da limpeza, preferencialmente em condições que garantam o anonimato e impeçam qualquer forma de retaliação.
Que sejam investigadas as denúncias relacionadas à Sala Lilás.
Que sejam avaliadas as condições de trabalho e as relações hierárquicas existentes.
Que eventuais denúncias de assédio moral sejam recebidas com seriedade.
E que os trabalhadores possam exercer suas funções sem precisar escolher entre preservar a própria saúde e segurança funcional ou denunciar aquilo que consideram errado.
Não estamos pedindo que ninguém seja condenado antecipadamente.
Estamos pedindo investigação.
Estamos pedindo escuta.
Estamos pedindo proteção para quem falar.
E, acima de tudo, estamos pedindo que o Departamento de Polícia Técnica de Juazeiro volte a ser um lugar onde profissionais possam trabalhar com dignidade, respeito e segurança.
Precisamos de ajuda.
E precisamos que alguém nos ouça antes que o silêncio adoeça ainda mais pessoas.
A carta foi elaborada a partir de relatos de trabalhadores que, por receio de possíveis consequências funcionais e profissionais, optaram por preservar suas identidades. O Blog deixa o espaço reservado ao DPT sobre o assunto.


