Artigo do leitor: “Você não está viciado, está ferido”

por Carlos Britto // 26 de abril de 2026 às 20:00

Foto: Ilustrativa da internet

Neste artigo, o colaborador Rivelino Liberalino propõe uma reflexão profunda sobre a origem dos comportamentos que costumamos rotular como vícios. O texto desloca o olhar do ato em si para as dores silenciosas que o antecedem, explorando como padrões repetitivos, relações desgastantes e escolhas aparentemente conscientes podem, na verdade, ser formas de anestesiar feridas internas não resolvidas.

Confiram

Hoje eu não quero falar de vício.

Quero falar daquilo que vem antes. Daquilo que ninguém vê. Daquilo que não aparece nos discursos, nem nos diagnósticos, nem nas estatísticas. Quero falar da dor silenciosa que não faz barulho, mas organiza a vida de muita gente sem que ela perceba.

Porque há dores que não gritam. Elas se estruturam. Aprendem a conviver. Se adaptam. Vestem terno, ocupam cargos, constroem patrimônio, sustentam famílias, fazem negócios, sorriem em público. Mas continuam ali , intactas. E quando permanecem por tempo demais sem serem nomeadas, elas não desaparecem. Elas procuram anestesia.

E a anestesia nem sempre vem na forma óbvia. Nem sempre é álcool. Nem sempre é droga. Às vezes, ela vem disfarçada de escolha. De rotina. De insistência. De um padrão que se repete com uma fidelidade quase doentia. Algo que, visto de fora, parece decisão… mas que, por dentro, é necessidade.

Dostoiévski entendeu isso de uma forma que poucos conseguiram. Ele não escreveu sobre o vício. Ele escreveu sobre a dor que antecede o vício. Sobre o homem que não suporta o próprio vazio. Sobre aquele que, diante da própria existência, precisa de um mecanismo que suspenda a realidade , ainda que por alguns segundos.

O jogador não joga pelo dinheiro. Essa é uma das maiores ilusões já aceitas com facilidade. O jogador joga porque, por um instante, a vida se simplifica. Ou ganha… ou perde. Sem ambiguidades. Sem conflitos internos. Sem a exigência insuportável de ter que lidar com aquilo que não se consegue resolver dentro de si.

Existe, inclusive, um momento perverso nesse processo. Quando restam apenas as últimas moedas. Quando tudo está prestes a acabar. E, ao invés de desespero… surge um tipo estranho de alívio. Porque a incerteza termina. A espera acaba. A angústia se dissolve. A derrota, naquele instante, não é apenas perda. É fim. E, para quem vive esmagado pela tensão constante de existir sem resposta, o fim pode parecer descanso.

E talvez seja por isso que tanta gente continua girando a própria roleta.

Não por esperança de vitória.

Mas por necessidade de interrupção.

Mas aqui está a parte mais incômoda e mais verdadeira:

Nem toda roleta está dentro de um cassino.

Algumas têm nome. Têm rosto. Têm história.

Uma relação que você sabe que te esgota, mas você permanece. Um ambiente que te diminui, mas você tolera. Um ciclo que já te provou, inúmeras vezes, que não te faz bem , mas você repete, como se houvesse ali alguma promessa escondida.

Não é amor. Não é lealdade. Não é resiliência.

Muitas vezes… é só dor organizada.

É a tentativa inconsciente de dar forma ao caos interno. De transformar o vazio em algo previsível. Porque, por mais duro que seja, o sofrimento conhecido ainda parece mais suportável do que o desconhecido que mora fora dele.

E isso não é fraqueza.

Mas também não pode ser ignorado.

Dostoiévski escreveu O Jogador enquanto ainda estava dentro do próprio abismo. Ele não escreveu como alguém curado olhando para trás. Ele escreveu como alguém sangrando, tentando entender o próprio sangue.

E talvez seja exatamente por isso que sua obra atravessa tanto.

Porque não fala de um personagem distante.

Fala de nós.

De cada escolha que repetimos sem entender. De cada padrão que mantemos sem coragem de interromper. De cada fuga que racionalizamos para não ter que encarar aquilo que, no fundo, já sabemos.

Todos nós temos uma roleta.

Algo que usamos para não parar.

Algo que nos impede de olhar.

Porque olhar exige coragem.

E coragem exige silêncio.

E o silêncio… revela.

O vício não começa no ato.

Começa naquilo que você evita sentir.

Na ferida que você aprendeu a contornar.

Na dor que você sofisticou, justificou, racionalizou… mas nunca enfrentou de fato.

E aqui não há julgamento.

Há responsabilidade.

Porque, no fim, a vida não nos cobra pelos erros dos outros.

Mas por aquilo que sabíamos… e mesmo assim decidimos não encarar.

Então eu te deixo com uma pergunta e ela não é confortável:

Qual é a sua roleta?

E mais do que isso:

Você ainda está jogando porque acredita na vitória…
ou porque, no fundo, já não suporta mais a espera de si mesmo?

Rivelino Liberalino

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