Neste artigo, o leitor Luiz Gonzaga Granja Filho, reflete sobre a perda de coerência na política brasileira e critica a mudança de posicionamentos sem explicação, apontando para uma crise de caráter marcada pela conveniência e pela normalização de práticas que enfraquecem a confiança da sociedade.
Confiram:
Há algo acontecendo diante dos nossos olhos e talvez o mais perigoso não seja o que está sendo feito, mas o fato de estarmos nos acostumando. O Brasil não está apenas atravessando uma crise política. O que se vê é mais profundo, mais silencioso e mais corrosivo. É uma crise de caráter. Uma erosão lenta da coerência. Uma banalização da mentira travestida de estratégia.
Homens públicos que ontem defendiam uma bandeira hoje surgem com outra, com a mesma firmeza de aparência, como se a memória coletiva tivesse sido apagada. Como se ninguém fosse lembrar. Como se não fosse necessário explicar.
E, em muitos casos, não é mesmo.
Chamam isso de articulação. De habilidade. De maturidade política. Mas há um nome mais honesto para esse comportamento: conveniência. Não se trata de evolução de pensamento. Não se trata de revisão legítima de ideias. Isso seria compreensível, até desejável. O que se vê é diferente. É a troca de lado sem qualquer prestação de contas. É a mudança de discurso sem o mínimo respeito à própria trajetória.
É a política transformada em encenação.
E o mais inquietante é perceber que isso só se sustenta porque foi sendo normalizado.
Porque, pouco a pouco, a sociedade foi deixando de estranhar. Foi deixando de cobrar. Foi aceitando o inaceitável como se fosse apenas mais um movimento do jogo. Mas o jogo não é apenas político. É psicológico. Não querem que você compreenda. Querem que você se desgaste. Que você desacredite. Que conclua que não vale a pena acompanhar, que todos são iguais, que nada faz diferença.
Quando você chega a esse ponto, você se afasta.
E quando você se afasta, eles avançam.
Sem resistência.
Sem limite.
Sem qualquer necessidade de coerência.
Uma sociedade que não lembra, que não compara, que não exige explicação, abre espaço para todo tipo de incoerência. Para todo tipo de distorção. Para toda forma de oportunismo disfarçado de inteligência política. O problema nunca foi mudar de ideia. O problema é mudar de lado sem ter coragem de explicar. O problema é dizer hoje o contrário do que se disse ontem — e agir como se isso fosse irrelevante.
O problema é apostar na amnésia coletiva como método de permanência no poder.
E talvez a verdade mais dura seja essa: funciona.
Funciona porque poucos confrontam. Poucos resgatam. Poucos cobram.
E assim, o país vai sendo conduzido não por princípios, mas por interesses momentâneos. Não por convicção, mas por cálculo. Não por compromisso, mas por conveniência. Quando a conveniência passa a ser o eixo da vida pública, tudo se fragiliza. A palavra perde valor. O compromisso deixa de existir. A confiança desaparece. E sem confiança, nenhuma sociedade se sustenta de pé por muito tempo.
Não se trata de esquerda ou direita.
Trata-se de dignidade.
Trata-se de coerência.
Trata-se de caráter.
E caráter não se ajusta conforme a cor da camisa.
O Brasil não precisa de políticos perfeitos.
Precisa de homens que sustentem o que dizem. Que respeitem a própria história. Que tenham o mínimo de responsabilidade com aquilo que já afirmaram diante da sociedade. O que está em jogo não é apenas quem governa. É o tipo de país que estamos aceitando construir.
Ainda há tempo.
Mas isso exige uma decisão que não pode mais ser adiada: parar de normalizar o que é errado.
Lembrar.
Comparar.
E cobrar.
Porque um país não se perde de uma vez.
Ele vai sendo corroído aos poucos… sempre que a consciência coletiva decide fechar os olhos.
Luiz Gonzaga Granja Filho


