Reativação da Hidrovia do SF avança com capacitação para ribeirinhos e pequenos produtores

por Carlos Britto // 04 de novembro de 2026 às 09:00

Foto: reprodução

Parada desde 2012, a navegação comercial no Rio São Francisco entra em uma nova fase de preparação. O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), em parceria com a Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), detalhou o plano de reestruturação do corredor aquaviário (HN-500). A iniciativa aposta na qualificação profissional gratuita de moradores e agricultores familiares de 18 municípios banhados pelo rio em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, estruturando a mão de obra local antes da retomada definitiva das operações de carga.


O programa de formação técnica, organizado pelo Instituto Brasileiro de Gestão por Resultados (IBGR), teve suas atividades iniciadas em Ibotirama (BA). Além de oferecer cursos de logística e operação aquaviária, o projeto realiza um diagnóstico das principais cadeias produtivas regionais para alinhar a capacitação às vocações econômicas de cada polo.


Mão de obra local e pequenos portos para a agricultura familiar


A estratégia governamental visa democratizar o acesso à hidrovia, garantindo que a produção de menor escala também se beneficie da redução dos custos logísticos.
“O acesso dos pequenos produtores depende de pontos de embarque e de preparo para usar o transporte pelo rio. Por isso, o projeto prevê pequenos portos públicos e capacitação das comunidades, considerando as características da produção local e as condições necessárias para transportar cada tipo de carga“, explicou o secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Burlier.
A urgência dessa inclusão social se reflete nos números do campo. Nos municípios centrais do projeto (Petrolina, Juazeiro, Ibotirama, Sobradinho e Pirapora), existem 10.628 estabelecimentos de agricultura familiar — o equivalente a quase 64% do total de propriedades rurais da região, com destaque para o polo Petrolina/Juazeiro, que concentra mais de 8,9 mil dessas unidades.


Divisão territorial e capacidade de carga


O estudo abrange 1.371 quilômetros navegáveis, conectando Pirapora (MG) a Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), incluindo o escoamento pela Eclusa de Sobradinho. A área de abrangência está organizada em três polos logísticos:


Alto São Francisco: Sede em Pirapora (MG), integrando Buritizeiro, Januária, Itacarambi (MG), Carinhanha e Malhada (BA);
Central-Norte: Sede em Ibotirama (BA), englobando Bom Jesus da Lapa, Serra do Ramalho, Sítio do Mato,Paratinga e Riacho de Santana (BA);
Submédio: Sede no polo Petrolina (PE) / Juazeiro (BA), abrangendo Barra, Xique-Xique, Sobradinho e Curaçá (BA).


A expectativa inicial é movimentar 5 milhões de toneladas de carga no primeiro ano de operação comercial. O impacto na infraestrutura rodoviária será imediato: estimar-se que cada comboio de balsas em navegação consiga retirar até 163 carretas das rodovias.


Cargas prioritárias e o desafio da fruticultura irrigada


As projeções técnicas da Codeba apontam que a matriz inicial de transporte será composta por:
Insumos e Minerais: Gipsita (gesso agrícola e para construção civil) e calcário;
Grãos e Fibras: Soja, milho e caroço de algodão;
Outros Produtos: Ração animal, açúcar e biocombustíveis.


E a fruticultura irrigada do Vale do São Francisco? Embora as lavouras permanentes de uva e manga representem a principal força econômica do polo Petrolina/Juazeiro — cobrindo dezenas de milhares de hectares —, o transporte de frutas por hidrovia não ocorrerá de imediato. A Codeba esclareceu que o atendimento à fruticultura irrigada está planejado para uma etapa futura, pois exige a concepção e construção de embarcações específicas com controle de temperatura e tecnologia adequada para produtos perecíveis.


Histórico e gargalos de infraestrutura


A navegação comercial de grande porte no trecho está interrompida desde 2012, motivada principalmente pelo assoreamento do leito do rio e pela falta de dragagem regular. O plano de concessão e modelagem econômica, conduzido em parceria com a Infra S.A. para posterior submissão à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), prevê a reativação em três fases progressivas, iniciando no trecho de 604 km já navegáveis entre Petrolina/Juazeiro e Ibotirama.


Apesar dos avanços nos programas de capacitação, o cronograma definitivo para o início das operações de carga e a implantação das Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte (IP4) seguem condicionados à conclusão dos estudos ambientais, licenciamentos e editais de concessão junto ao Ministério de Portos e Aeroportos.


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