Irmãs Rita e Sizenice Amorim morrem vítimas de Covid-19 em Petrolina

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Foto: reprodução

O novo coronavírus (Covid-19) deixou mais uma família de luto em Petrolina. As irmãs Rita e Sizenice Amorim perderam a batalha contra a doença, vindo a óbito no dia de ontem (23). O detalhe é que uma faleceu por volta das 15h30, e a outra meia hora depois.

Ambas eram bastante conhecidas na sociedade local. Sizenice foi  professora do antigo Polivalente (atual Escola Eduardo Coelho). Já Rita era ligada à cultura popular e foi secretária-executiva do então prefeito Simão Amorim Durando nos anos 70.

A sobrinha das duas, Maria Alice Amorim, escreveu dois artigos carregados de emoção sobre cada uma.

Confiram:

Rita Amorim

“Eu sou uma pessoa feliz. Fui uma criança feliz, fui uma adolescente feliz, fui uma adulta feliz. E hoje estou aqui, a própria, feliz”.

Assim era Rita Amorim: falante, alegre, apaixonada. Pela vida. Pela política. Pela cultura popular.

Quando  o compositor de frevo Nelson Ferreira esteve em Petrolina em 1970, Rita era secretária executiva do prefeito Simão Durando. O pai, Sizenando Amorim, tocava violão e Rita então articulou um encontro entre Nelson Ferreira e ele, para que os dois pudessem se conhecer e trocar ideias sobre música.

Era apaixonada pelas tradições populares e vibrava com batucadas, reisados, samba de veio, forró, frevo, maracatu.

Promovia a cultura na cidade. Colaborava na produção e difusão das artes e artistas. Rita aproveitava, por exemplo, as idas ao Recife e comprava partituras na tradicional loja Violão de Ouro para o Maestro Pedro, o então regente da Banda 21 de Setembro.

Gostava de falar sobre a vida, de filosofia, literatura, teatro. E não cansava de repetir o dito popular: “Deus dá as provações conforme os ombros”. Entusiasta do Movimento Armorial, gostava de definir-se assim: “Sou eu e João Grilo, da Compadecida, ou é ou não é”.

Completamente seduzida pelo viver, ponderava sobre os sentidos da existência, sem perder a alegria: “a vida é linda, a morte é que é um mistério”.       

Sizenice Amorim

Sempre elegante e refinada, assim era Sizenice. As habilidades manuais e a sensibilidade artística seduziam a todos ao redor. Esteve sempre, toda a vida, às voltas com cavalete, pincéis, telas, tintas, terebintina. Ouro em pó para o restauro de estatuária antiga. Milhares de ideias e inspiração para as pinturas autorais. A vida era colorida a mão, com traços a uma só vez firmes e delicados.

Era uma pessoa avançada para a própria época. Falava inglês fluentemente, resultado sobretudo de autodidatismo. Foi a primeira presidente mulher do Lions Clube, do DLA-5. Foi presidente do Lions Clube Petrolina Centenário.

Compartilhando afinidades com a irmã, Rita Amorim, uma dessas cumplicidades era a literatura. Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, foi rapidamente devorado pelas duas assim que publicado no Brasil, nos anos 1970.

Gostava de poesia. Um dos prazeres era declamar de cor os poemas preferidos. Por exemplo, Ismália, do simbolista Alphonsus de Guimarães. Também o clássico Última Quimera, de Augusto dos Anjos, arrebatava a atenção dos ouvintes logo que começava, com o tom dramático exigido pelo poema: “Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera”.

Caligrafia belíssima, não importava se executada com a mão direita ou a esquerda. Era canhota contrariada, e por isso mesmo transformada em ambidestra. Com as duas mãos passou a vida assinando com fios de ouro cada dia vivido.

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