IA já influencia disputa eleitoral em Pernambuco

por Antonio Carlos Miranda // 08 de junho de 2026 às 10:32

Foto: redes sociais/reprodução

A inteligência artificial já entrou oficialmente no jogo político de 2026 em Pernambuco. Às vésperas do início formal da campanha eleitoral, pré-candidatos ao governo do estado e ao Senado Federal têm utilizado ferramentas de IA para criar vídeos, animações, montagens realistas e conteúdos virais voltados à disputa pela atenção do eleitorado. Na disputa pelo Governo de Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) tem utilizado a inteligência artificial de forma mais lúdica. Em diversas publicações, a gestora aposta na personagem ‘Raquelzinha’, uma versão em desenho animado de si mesma criada por IA para apresentar ações da gestão estadual. Utilizando uma estética mais leve e de fácil compartilhamento.

Já o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) segue uma linha diferente. O socialista tem recorrido à inteligência artificial para produzir imagens e vídeos com aparência mais realista. Em uma das publicações, João aparece ocupando o lugar do pai, o ex-governador Eduardo Campos, em uma fotografia da época da campanha para o Executivo estadual. Em outra peça, surge ao lado de trabalhadores em um vídeo gerado por IA para celebrar a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara Federal.

Entre os nomes que articulam candidatura ao Senado na chapa da Frente Popular, o uso da ferramenta também cresce em ritmo acelerado. Marília Arraes (PDT) utiliza IA por exemplo para adaptar tendências e formatos virais das redes sociais, enquanto o senador Humberto Costa (PT) aposta em vídeos produzidos com inteligência artificial para reconstruir episódios históricos e reforçar pautas que defende na Casa Alta.

No campo aliado da governadora, Miguel Coelho (União Brasil) e Eduardo da Fonte (PP) têm explorado formatos mais descontraídos e populares, utilizando montagens ligadas à Copa do Mundo, por exemplo. Túlio Gadêlha (PSD), por sua vez, recorre à IA como instrumento de posicionamento político em pautas nacionais, utilizando vídeos gerados para tratar de temas como o fim da escala 6×1 e críticas ao escândalo envolvendo o Banco Master.

O movimento acompanha uma tendência global de digitalização da política, mas também levanta alertas sobre os riscos da manipulação da informação, da disseminação de fake news e da dificuldade crescente em distinguir conteúdos “de verdade” dos produzidos artificialmente. Segundo o cientista político Gustavo Rocha, as novas regras da Justiça Eleitoral tendem a limitar os usos mais explícitos da tecnologia nas campanhas oficiais, mas isso não significa redução da influência da IA na disputa política. “As IAs estarão cada vez mais presentes na publicidade em geral e também nas campanhas. A tendência é que sejam usadas de forma mais invisível e estratégica, especialmente no cruzamento de dados, análise de comportamento e planejamento de comunicação”, analisa.

Rocha alerta que o grande problema está na capacidade da inteligência artificial de produzir conteúdos falsos com aparência extremamente convincente. Para ele, a exigência de identificação de peças produzidas por IA ajuda parcialmente, mas está longe de resolver o problema da desinformação. “A IA aprofunda o problema da fake news e da difusão de mentiras. O fato de um conteúdo ser produzido por IA não significa necessariamente que ele seja falso, mas a tecnologia aumenta enormemente a capacidade de manipulação da percepção pública”, diz. O especialista também chama atenção para o impacto emocional das campanhas produzidas com auxílio da inteligência artificial. Segundo ele, a política contemporânea já privilegia o apelo emocional acima do debate racional, e a IA tende a potencializar ainda mais esse fenômeno.

Efeito rebote

Outro ponto levantado por Gustavo Rocha é a possibilidade de um “efeito rebote”, no qual o excesso de conteúdos artificiais acabe gerando desconfiança até mesmo sobre materiais verdadeiros. “A sociedade pode chegar em um momento em que qualquer vídeo ou imagem seja colocado sob suspeita”, afirma. Apesar da expansão acelerada da tecnologia, os especialistas avaliam que a autenticidade ainda continuará sendo um fator decisivo na política em Pernambuco. Para o cientista político Alex Ribeiro, o eleitor local mantém forte identificação com campanhas de proximidade e presença física. (Fonte: Diario/PE)

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