Especialista que estará novamente em Petrolina este mês diz que preconceito linguístico no país “ainda é forte”

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Autor de quase 30 títulos – entre eles o livro “Preconceito linguístico: o que é, como se faz” (Editora Loyola, 1999, 52ª edição), Marcos Bagno retorna a Petrolina para abordar o “português brasileiro”. Em palestra e noite de autógrafos no auditório do Centro Cultural Dom Bosco, marcada para o próximo dia 27 de outubro, em evento da CRIATur (facebook.com/criaturismo), o também professor e colunista abordará a relação entre o ensino da língua portuguesa e a identidade do brasileiro.

Bagno falou com exclusividade para o Blog de Carlos Britto. Veja entrevista:

Recentemente um médico foi afastado do SUS após debochar da linguagem de paciente na web. Qual seu ponto de vista a respeito desse caso?

O caso desse jovem médico é bastante ilustrativo da cultura linguística brasileira, marcada, como tudo mais, por uma profunda desigualdade social. As pessoas das camadas sociais privilegiadas – brancas, urbanas, letradas e com acesso à renda e ao consumo – se julgam, “naturalmente”, superiores às demais, que formam a ampla maioria da população. Essa superioridade autoatribuída pelas classes privilegiadas lhes dá a liberdade de menosprezar, ridicularizar, oprimir as demais camadas sociais. Assim como essas classes privilegiadas se acham no direito de exercer outras formas de discriminação (o racismo, o machismo, a homofobia, a intolerância religiosa etc.), elas também praticam a discriminação pela linguagem: qualquer uso da língua que não corresponda ao que elas acham que deveria ser o “correto” é menosprezado, ridicularizado. O episódio serviu como prova claríssima de que o preconceito linguístico existe e é muito forte na sociedade brasileira.

Na sua opinião, como se caracteriza essa relação entre língua e poder na sociedade brasileira?

A relação entre língua e poder na sociedade brasileira se assemelha àquela que existe em muitas outras sociedades. Em todas as sociedades fortemente hierarquizadas, é frequente que a língua (ou as línguas) seja usada como instrumento de demarcação social, uma espécie de “arame farpado” simbólico empregado para separar os grupos sociais. Nas sociedades multilíngues (que são a maioria no mundo), uma única língua, por razões históricas, acaba sendo eleita como a língua “boa”, a “certa”, a oficial, aquela que vai ser ensinada nas escolas, usada pelos órgãos do poder etc. No caso do Brasil, o português – como língua majoritária num país onde são faladas mais de 180 línguas diferentes – exerce essa função de marcador social. Embora seja uma língua falada por mais de 200 milhões de pessoas num território imenso, maior que o da União Europeia, não são todas as variedades de português brasileiro que gozam do mesmo prestígio social. Somente as formas de falar mais próximas dos grupos sociais privilegiados é que gozam desse prestígio: variedades do Sudeste e do Sul, das zonas urbanas, das pessoas de classe média e alta, brancas, com acesso à educação formal etc. Esses critérios de seleção vão reduzindo cada vez mais o número dos que falam “bem” e lançando numa ampla lata de lixo linguística todo o resto da população.

Por que “brasileiro”, e não “português”?

Não se trata nem de “brasileiro” nem de “português”, mas de “português brasileiro”. Os estudiosos da língua têm usado cada vez mais, e já há algum tempo, o rótulo “português brasileiro” para definir a língua majoritária da nossa população. Passados 500 anos desde a invasão portuguesa, a língua europeia trazida para cá sofreu mudanças, como é absolutamente natural que aconteça com toda e qualquer língua humana. O português também passou por transformações do outro lado do Atlântico. É uma ilusão sem fundamento acreditar que os portugueses de hoje falam como se falava em 1500. Não existe língua “pura” nem língua que não se transforme com o tempo. As mudanças ocorridas no português brasileiro são muitas e profundas, especialmente no plano da gramática. As pessoas sem formação específica acham que as diferenças se resumem ao “sotaque” e ao vocabulário, mas isso é uma espécie de “folclore” linguístico, sem maiores consequências. O que faz uma língua ser o que é são as regras de funcionamento de sua gramática, e o português europeu e o português brasileiro apresentam grandes diferenças nesse plano. Por isso, temos feito questão de falar sempre do “português brasileiro”. E desde o início deste novo século, muitas obras importantes têm sido publicadas com o objetivo explícito de descrever, com boas bases teóricas, esse nosso português, tão diferente do europeu.

É preciso rever o ensino da língua nativa em nosso país? Por quê?

Faz mais de trinta anos que linguistas e educadores vêm propondo mudanças no ensino de língua no Brasil. Como resultado de um longo passado colonial, a sociedade brasileira ainda guarda muitas concepções e crenças equivocadas a seu próprio respeito e, nesse “pacote” de equívocos, a respeito da língua mais falada por aqui. Não tem mais cabimento continuar ensinando uma língua artificial, anacrônica, obsoleta, que não é falada por ninguém, e que já deixou até mesmo de ser veículo da nossa melhor produção literária. Insistir no ensino do pronome “vós” e de suas marcas verbais, por exemplo, é inútil, além de desonesto, já que não corresponde a nenhum uso real da língua. Nós já temos todas as condições de promover um ensino de língua realista, com base no que é realmente a língua culta brasileira. Infelizmente, as forças conservadoras, essas mesmas que estão agora nos mais altos postos do comando da nação, também exercem sua pesada influência sobre as concepções de língua e de ensino.

4 COMENTÁRIOS

    • Você é que é um idiota! Ele não relativizou nada, apenas expõe o que realmente aconteceu e acontece com nossa língua. Há muito tempo que os portugueses e brasileiros falam idiomas diferentes e isso não se dá apenas na diferença de vocabulário ou na pronúncia Duvido que vossa Idioticência (sic!) fale conforme as regras ensinadas na Gramática Normativa.

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