Covid-19: ”O que vai acontecer é um massacre”, diz ex-diretor do Ministério da Saúde

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Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O debate sobre a flexibilização do isolamento social em virtude da pandemia do novo coronavírus começa a ganhar corpo no Brasil. Estado mais afetado no país, São Paulo divulgou, na semana passada, um plano para dar início ao desconfinamento. O Amazonas segue caminho semelhante, mas, no interior, os rumos serão decididos individualmente pelos prefeitos. Especialistas, no entanto, alertam: as medidas que tornam a quarentena menos rígida devem ser tomadas coletivamente, considerando as necessidades de cada região.

O sistema de saúde de Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, está no limite. Na última quinta-feira, um dia após o governador João Doria (PSDB) anunciar a flexibilização da quarentena no estado, 100% das unidades de terapia intensiva (UTIs) da cidade estavam ocupadas. Ao divulgar o plano, composto por cinco fases, o governo paulista estabeleceu uma série de indicadores para o flexibilização gradual. A capacidade ociosa de leitos é um deles. No dado mais recente sobre a capacidade de leitos em Guarulhos, divulgado no sábado (30), a taxa de ocupação das UTIs diminuiu, chegando a 84,9%.

“O que vai acontecer é um massacre. Quem está morrendo? Pretos e pobres”. Júlio Croda, ex-diretor do Ministério da Saúde.

As cidades que circundam a capital foram divididas em cinco subáreas. Elas devem apresentar, juntas, propostas para retomar as atividades. Enquanto isso não ocorre, apenas os serviços essenciais podem funcionar. Para aderir à retomada gradual, que começa nesta segunda em parte do estado, os municípios terão que seguir, também, outros critérios, como o uso obrigatório de máscaras, a continuidade das medidas de distanciamento em áreas públicas e a redução da curva de infectados.

Entrevista/Júlio Croda

Infectologista da Fiocruz e ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde

Como convencer os brasileiros sobre a necessidade das medidas restritivas mesmo em meio às flexibilizações anunciadas em algumas partes do país?

Acho muito difícil. Já estávamos em situação difícil, com o governo federal sem apoiar o isolamento. O Ministério da Saúde não publicou materiais técnicos, com indicadores precisos, que apontem as regiões de saúde que precisam de mais restrições ou que podem iniciar a flexibilização. Alguns estados, como Minas, Rio Grande do Sul e São Paulo, fizeram isso de modo independente. Sem o apoio da presidência e com estados e municípios pressionados pela iniciativa privada para reabrir mesmo sem leitos, o que vai acontecer é um massacre. Quem está morrendo? Pretos e pobres, que moram em comunidades carentes, onde o vírus circula mais intensamente, já que a população de baixa renda não consegue cumprir o distanciamento social. Nas classes altas, o vírus circula menos e há mais leitos no setor privado. Em compensação, nas classes pobres, há mais circulação e faltam leitos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. A decisão é do gestor local, mas do ponto de vista técnico, o Ministério da Saúde tem que fornecer as ferramentas para as tomadas de decisão.

Interiorização do caos

Um estudo do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), ligado à Fiocruz, aponta que, de 9 a 16 de maio, nos municípios com população entre 20 mil e 50 mil habitantes, a cada dia, seis cidades registraram, pela primeira vez, óbitos em decorrência da doença. Na mesma semana, entre cidades ainda menores – com população entre 10 mil e 20 mil –, a cada 24 horas, cinco municípios passaram a constar na lista de localidades com baixas causadas pelo coronavírus.

A interiorização da doença pode trazer consequências aos hospitais instalados nas grandes metrópoles. “A doença chegou primeiro às capitais. O coronavírus tem uma evolução clínica lenta, com o paciente, muitas vezes, ficando vários dias na UTI. Então, quando chega às cidades menores, a tendência é que as pessoas busquem atendimento nas capitais, onde as UTIs vão estar lotadas”, pontua Diego Xavier, epidemiologista e pesquisador do Icict.

No Amazonas e no Pará, por exemplo, mais de 20% da população mora em áreas com poucos recursos médicos. Se, no início da pandemia em solo amazonense, Manaus concentrava grande parte dos casos, o panorama agora é outro. “Norte e Nordeste têm sofrido mais com a doença pois, historicamente, o sistema de saúde nessas regiões é deficitário. Então, qualquer oscilação para mais ou para menos no serviço faz chegar ao limite extremo. Por isso, lá colapsou primeiro. No Sul e no Sudeste há contingente populacional muito maior. Logo, mesmo tendo mais dinheiro para investimentos, quando a demanda de outros municípios começar a chegar, teremos essa situação (esgotamento do sistema)”, acrescenta o epidemiologista.

Retomada no Nordeste

Com 46.506 infectados – além de 2.956 óbitos –, o Ceará também anunciou um plano de retomada. Nesta segunda-feira, indústrias voltam a operar. A expectativa é liberar, gradualmente, o funcionamento do comércio em duas semanas.

Outro estado fortemente afetado pela Covid-19, com 37.296 caos e 2.900 mortes, o Pará pôs fim ao lockdown e começou, na semana passada, uma flexibilização “degrau a degrau”, nas palavras do governador Helder Barbalho (MDB). A partir de amanhã, por exemplo, shoppings, igrejas e salões de beleza – cumprindo critérios sanitários – já podem reabrir em Belém e outras regiões paraenses. (Fonte: Diário de Pernambuco)

3 COMENTÁRIOS

  1. Esse ex-diretor poderia fazer algo melhor: ficar calado, por exemplo. Vemos que não se trata de um massacre, mas de vários. Fizeram do tal vírus o centro do Universo, enquanto coisas mais graves aconteceram e continuam acontecendo. Essa situação não acaba tão cedo.

  2. Nunca vi tanta incoerência num parágrafo de comentário. O cidadão manda o ex-secretário ficar calado ao passo que concorda com o mesmo, quando diz que “essa situação não acaba tão cedo”.
    E o que ele quis dizer com “coisas mais graves aconteceram e continuam acontecendo”? O que pode ser pior que 30 mil pessoas morrendo em um intervalo de pouco mais de 3 meses?
    O bolsonarismo costuma alegar que em 2018 morreram 68 mil pessoas por morte violenta no Brasil e ninguém fez tanto barulho, qual o momento certo de falar sobre esses que hoje são 30 mil? Quando forem 60, 120, 1 milhão?

  3. Palavra do nobre infectologista no texto acima: “A decisão é do gestor local, mas do ponto de vista técnico, o Ministério da Saúde tem que fornecer as ferramentas para as tomadas de decisão.” Como!? Se os gestores locais decidiram desde o início e com o apoio do STF terem autonomia e fazerem o que bem entendessem. Cresci estudando e praticando os Manuais do Ministério da Saúde e agora do nada se rebelaram com o Ministério. O problema é que politizaram o vírus e a culpa de todas as mazelas estão atribuindo ao Governo Federal. Talvez se tivessem adotado o isolamento vertical (infectados, grupos de riscos: idosos, crianças e pessoas com comorbidades) desde o registro dos primeiros casos, a realidade seria outra.
    Apesar de estarmos em embarcações diferentes, estamos na mesma tempestade.

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