Com deficiência visual, Psicóloga da Funase de Petrolina pede garantia de direitos para exercer seu trabalho com dignidade

1
Funase-Case de Petrolina. (Foto: Blog do Carlos Britto)

Com deficiência visual, a psicóloga Julianna Caffé Lima Moreira enviou à Coordenação Geral da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase) uma Carta Aberta, divulgada pelo Blog, pela qual pede à instituição o direito de exercer dignamente seu trabalho, sem medidas que cerceiem o profissional com deficiência.

Confiram:

Sirvo-me do presente instrumento para tornar público aquilo que há muito tenho experimentado no meu cotidiano profissional. Até o momento da elaboração deste documento, as dificuldades e entraves vivenciados no meu dia-a-dia de trabalho eram compartilhadas com colegas da instituição, com a direção local e nos espaços onde me era possível colocar as angústias, aflições e sonhos, sim sonhos, de um amanhã mais acessível. Hoje, após quase seis anos de exercício profissional, vejo a necessidade de ampliar a minha voz e alcançar lugares, espaços que até então me foram vetados.

Quero tornar visível o que hoje é restrito, reservado, abafado e levado a uma esfera particular. E se existe algo que todos estes anos me fizeram “enxergar”, ter uma forte convicção, é a de que vetar direitos, vetar acessibilidade de um ou de uns é reação em cadeia e, em algum momento, silenciar significa perpetuar uma era de não direitos.

Em junho do ano de 2013 (dois mil e treze) ingressei como psicóloga no quadro efetivo da Funase, ocupando vaga destinada a Pessoa com Deficiência-PCD. Contudo, apesar do conhecimento dessa condição, a partir da capacitação “vi” que efetivamente a instituição Funase não detinha qualquer noção da responsabilidade e das condições mínimas que um profissional assim requer.

A Lei nº 13.146 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência), em seu Capítulo VI – Do Direito ao Trabalho, em seu artigo 34. &2º, preconiza que: “As pessoas jurídicas de direito público, privado ou de qualquer natureza são obrigadas a garantir ambiente de trabalho acessíveis e inclusivos”. No &5º É garantida aos trabalhadores com deficiência acessibilidade em cursos de formação e capacitação.

Contudo, no decorrer dos anos,  foi se somando no meu dia-a-dia de trabalho as impossibilidades e entraves…desde o meu acesso à sala de trabalho até o instrumental que me permitiria apresentar o resultado da minha prática profissional. Hoje ainda não possuo meios de apresentar em ambiente físico ou virtual as intervenções realizadas com os efetivos destinatários do meu fazer profissional, e aquilo que venho a produzir não traduz os inúmeros esforços: diários, constantes e silenciosos de formalizar o resultado do meu trabalho.

Com este documento pretendo dar visibilidade as impossibilidades enfrentadas cotidianamente no meu ambiente profissional, ao tempo que venho requerer que diligências sejam tomadas. Resta-me concluir que há, sim, uma deficiência. Contudo, mais relevante e impeditiva é a conduta institucional, que ao não oferecer acessos cerceia direitos e, ao mesmo tempo que me diz “vem por aqui”, tachativamente me impõe a não permissão de prosseguir. Quero declarar que tenho direito a ter direitos e na verdade, antes de necessitar trazer para meu laboro a exigente tarefa de me fazer visível, aprendi, no ordinário da minha vida, que não é só negligente toda a falta de iniciativa. É violenta. E, diante disso não perdi a capacidade de enxergar!

Julianna Caffé Lima Moreira/Psicóloga/Analista em Gestão Socioeducativa/Funase-Case Petrolina-PE

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Comentar
Seu nome