Artigo do leitor: “Uma década perdida”

por Antonio Carlos Miranda // 24 de outubro de 2026 às 17:46

Foto: divulgação

Neste artigo, o leitor André Gustavo Vieira faz uma análise sobre as consequências de uma eleição para a vida do país. Confiram:

O Brasil não ficou menor numa eleição. Ficou menor ao longo de uma década. Por tempo demais, a pauta política, a pauta da imprensa e a conversa da própria sociedade foram ocupadas por disputas de personagens, crises institucionais e guerras de narrativa. O que deveria ter prevalecido — o debate sobre o país que queremos ser — foi sendo empurrado para o rodapé. Nesse processo, questões fundamentais para a vida dos brasileiros perderam espaço, voz e prioridade.

Enquanto disputávamos o presente, o futuro foi ficando para trás.

Nesse intervalo, o mundo andou. A revolução tecnológica e a Inteligência Artificial estão redesenhando a economia, o trabalho e a vida cotidiana, mas uma parcela expressiva da juventude brasileira, sobretudo a que depende da escola pública, segue à margem dessa transformação. Não se trata apenas de acesso à tecnologia, mas de preparar gerações para compreender, participar e protagonizar um mundo que já está sendo construído. O risco é aprofundarmos desigualdades históricas e condenarmos milhões de brasileiros a oportunidades cada vez mais distantes.

Esse desafio nos obriga a repensar, entre outras coisas, o próprio modelo educacional brasileiro. Há décadas repetimos que a educação transforma vidas e constrói o futuro de uma nação. Mas precisamos reconhecer que os resultados ainda estão muito aquém dessa promessa. Não basta ampliar o acesso à escola se não formos capazes de assegurar aprendizagem, desenvolver o pensamento crítico, estimular a criatividade e preparar os jovens para as exigências de uma sociedade em permanente transformação. A pergunta não é apenas quanto investimos em educação, mas por que os resultados continuam tão limitados diante dos recursos mobilizados e das necessidades do país.

Educação, saúde, infraestrutura, saneamento e tantas outras áreas essenciais continuam presentes nos discursos, mas frequentemente ausentes da centralidade das decisões. São temas que afetam diretamente a vida da população, condicionam a produtividade da economia e determinam a capacidade de um país de reduzir desigualdades. Ainda assim, foram progressivamente ofuscados por disputas que consomem energia política, mobilizam a opinião pública e, muitas vezes, produzem mais ruído do que soluções.

O tempo é implacável. Cada ano de atraso pode representar uma década de distância das oportunidades que outros países estão construindo.

Esse desvio de foco tem responsabilidades difusas, e é justamente por isso que exige uma reflexão coletiva. Parte da classe política fez do poder um fim em si mesmo. Parte da imprensa se deixou pautar pelo conflito, contribuindo para transformar divergências legítimas em disputas permanentes. E a sociedade, cansada de crises sucessivas, foi sendo levada a escolher o que parece menos ruim, em vez de cobrar o que seria efetivamente melhor.

Quando o debate público se resume à defesa ou à rejeição de personagens, a política perde sua capacidade de formular projetos. Quando as instituições que deveriam zelar pela estabilidade passam a ser percebidas dentro da lógica do confronto, a confiança, que é um dos capitais mais valiosos de uma democracia, se corrói. E quando a polarização se transforma em método permanente de atuação, o país deixa de discutir suas prioridades e passa a organizar suas escolhas em torno de adversários.

Enquanto isso, as perguntas de fundo continuam sem respostas satisfatórias. Por que tanto recurso público produz resultados tão limitados? Por que o crescimento das empresas nem sempre se traduz em aumento consistente da renda e da qualidade de vida da população? Como redefinir, por meio de um novo pacto federativo, as responsabilidades e os meios de atuação dos municípios, dos estados e da União? Como internacionalizar nossa economia, ampliar a competitividade e atrair investimentos sem simplesmente reproduzir modelos que não necessariamente respondem às nossas particularidades? E como preparar o Brasil para as transformações tecnológicas sem deixar para trás justamente aqueles que mais precisam das oportunidades que elas podem oferecer?

Essas questões não podem ser tratadas isoladamente. Educação de qualidade influencia a produtividade, a inovação e a renda. Infraestrutura e saneamento condicionam a saúde, a atividade econômica e a qualidade de vida. O equilíbrio federativo determina a capacidade de transformar recursos públicos em serviços eficientes. E a estabilidade institucional cria as condições necessárias para o planejamento e os investimentos de longo prazo. O desenvolvimento de um país depende da capacidade de integrar essas dimensões em uma estratégia coerente, que sobreviva aos ciclos eleitorais e às mudanças de governo.

Nenhuma dessas questões pertence exclusivamente à esquerda ou à direita. São questões de país. Exigem conhecimento, planejamento, responsabilidade fiscal, capacidade de execução e, sobretudo, disposição para construir consensos em torno do que é essencial. O radicalismo, que tantas vezes interessa a quem vive da disputa permanente, é um dos maiores obstáculos a esse esforço.

O Brasil perdeu uma década, mas não perdeu a capacidade de recomeçar. O desafio agora é compreender que não basta superar uma eleição, substituir personagens ou reorganizar forças políticas. É preciso recuperar a capacidade de pensar o país para além do próximo mandato, trocar a política dos personagens pela política das prioridades e reconstruir uma visão estratégica que integre educação, saúde, infraestrutura, saneamento, federalismo, economia, tecnologia e instituições em um verdadeiro projeto de desenvolvimento nacional.

Isso exige uma mudança de postura de todos os envolvidos. Dos governantes, que precisam assumir compromissos com resultados concretos. Da imprensa, que deve contribuir para qualificar o debate público sem se deixar aprisionar pela lógica do conflito. E da sociedade, que precisa voltar a cobrar propostas, prioridades e resultados, em vez de se contentar com a sucessão interminável de embates políticos.

Uma nação não se torna menor apenas quando perde oportunidades. Torna-se menor quando deixa de discutir o futuro, quando se acostuma a adiar soluções e quando permite que o urgente, o circunstancial e o eleitoral ocupem permanentemente o lugar do essencial.

O Brasil já perdeu tempo demais olhando para os lados e para trás. Está na hora de voltar a olhar para a frente. O desafio é nosso: recuperar a capacidade de pensar grande e transformar essa ambição em um projeto de país.

André Gustavo Vieira/leitor

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