Artigo do leitor: “Samuel Britto e a ‘Impuderada do Sertão, história de mulheres agredidas'”

por Carlos Britto // 08 de maio de 2026 às 10:00

Foto: Divulgação

O jornalista, poeta e publicitário Carlos Laerte realça, neste artigo, as nuances reflexivas do livro ‘A Impuderada (sic) do Sertão, história de mulheres agredidas’, do jornalista Samuel Britto, a ser lançado nesta sexta-feira (8) no Sesc Petrolina. A leitura é imprescindível nesses tempos de tanta violência de gênero.

Confiram:

Na primeira noite eles se aproximam, ameaçam, intimidam e violentam psicologicamente uma rosa do nosso jardim. E não dizemos nada.

Na segunda noite, conhecendo nosso medo, já não se escondem, abusam física e emocionalmente, matam o roseiral e, conhecendo nosso medo, arrancam-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. A primeira imagem que nos remete à leitura do livro “A Impuderada do Sertão, história de mulheres agredidas”, do jornalista e escritor Samuel Britto, é um mergulho no poema “No caminho com Maiakóvski” (1968), do poeta Eduardo Alves da Costa.

No poema, assim como no livro, que será lançado no Senac Petrolina, no próximo dia 8 de maio, tulipas, rosas e orquídeas se confundem com Marias, Marielles e Ângelas no perigoso e insano carrossel de violência, que já registra em 2026 o 1° trimestre mais letal da história para mulheres, com 399 vítimas de feminicídio entre janeiro e março, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O número representa uma média de quatro mulheres mortas por dia no período — o equivalente a uma vítima a cada cinco horas no país. Ancorado em exemplos femininos de lutas e conquistas, dados e estatísticas bem apuradas, o livro do mesmo autor de ‘Maria Caminhoneira Sertanea e Seus Contos Heróicos, Românticos e Sertanejos’ (2024), nos revela a incrível história de Maria das Dores, a Maria Impuderada do Sertão. Impuderada assim mesmo, com essa escrita informal e liberta das regras estabelecidas pela gramática tradicional.

Valorizando as falas nordestinas, costumes e ritos do povo sertanejo, a obra transita entre o folclórico e o imaginário, desnudando lendas, contos e personagens de um realismo fantástico, povoado por seres sobrenaturais e fantasias arrepiantes.

Aventuras, crenças religiosas, rivalidades, feitos heróicos e outros nem tanto, vão impregnando as mais de 300 páginas da obra com as cores da imprevisibilidade e as contradições, que somente à luz da determinação, doçura e da paixão, “alguns (a que tal graça se consente) é dado lê-la”.

Ilustradas com imagens a partir de recursos de IA (Inteligência Artificial) e mesclado por versos de literatura de cordel, as narrativas de ficção e de fatos reais vão se misturando numa velocidade estonteante, conduzindo o leitor por um fascinante labirinto de letras, signos e significados que mais parecem livramentos no meio de um rio revolto de maretas e marolas. Depois de exibir, à luz do dia, os antepassados de Cruz Credo, local onde se passa a história, Samuel Britto, também envereda pelas aventuras do cangaço e do fanatismo religioso, ressaltando personagens como Lampião e Maria Bonita, fontes de inspiração para os Tomés Valentias e as Marias Impuderadas. Principalmente Maria das Dores, a heroína e guerreira da caatinga, que além de eliminar os maus tratos domésticos na sua família, ajuda a combater a violência contra toda e qualquer mulher do sertão.

Evocando as orações do Credo e de Santo Expedito, o autor segue revelando a continuidade das famílias e convidando à mesma mesa a mulher, a mulher trans, parceiros íntimos ou ex-parceiros e a união de casais do mesmo sexo. Tudo nos mesmos pratos e talheres, com a mais legítima intenção: espalhar uma nova fase de paz, união e amor no sertão.

O empoderamento feminino é um movimento político, social e filosófico que luta pela equidade de gênero e participação ativa da mulher na sociedade. Essencial para o combate à violência, o movimento fomenta a autonomia econômica, emocional e política, permitindo que mulheres façam suas próprias escolhas.

Carlos Laerte/Jornalista, poeta e publicitário

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