Artigo do Leitor: “Quando o oprimido sorri, o confortável se incomoda”

por Carlos Britto // 05 de janeiro de 2026 às 18:20

Fotos: AP Photo: Evan Vucci/Reuters: Leonardo Fernandez

Neste artigo, o leitor Rivelino Liberalino reflete sobre as reações à comemoração de venezuelanos diante das recentes notícias envolvendo o país e critica a romantização de regimes autoritários, o uso ideológico do sofrimento alheio e a dificuldade de parte do debate político em reconhecer a dor de quem viveu a repressão, a fome e o exílio.

Leiam:

Há momentos históricos em que a verdade não se anuncia em discursos oficiais, nem em notas diplomáticas. Ela se revela de forma muito mais simples ,e muito mais honesta, na reação espontânea do povo. Quando a notícia correu pelo mundo, verdadeira, simbólica ou apenas anunciadora de um fim, venezuelanos espalhados por continentes inteiros fizeram o que há anos lhes era negado: comemoraram. Choraram. Abraçaram-se. Cantaram. Não por ideologia. Por memória. Memória da fome. Memória do medo. Memória do exílio forçado.

E foi exatamente aí que algo ficou escancarado.

Enquanto o povo venezuelano, que atravessou selvas, fronteiras, mares e humilhações, reagia com alívio e esperança, parte da esquerda brasileira reagia com indignação. Não pela dor alheia, mas porque a narrativa tremia. Existe algo profundamente doentio em quem nunca viveu uma ditadura, nunca sentiu o cheiro da fome institucionalizada, nunca teve que escolher entre ficar e morrer ou fugir e perder tudo , mas se acha moralmente autorizado a explicar a dor dos outros.

Não é solidariedade. É apropriação ideológica do sofrimento alheio.

Romantizar regimes autoritários sob o verniz do “anti-imperialismo” é fácil quando não é você quem apanha, não é você quem foge, não é você quem enterra amigos, não é você quem vê o Estado transformar miséria em método de controle. Dizer “eu visitei a Venezuela e não era assim” não é argumento. Turista também visita Auschwitz. Isso não transforma ignorância em autoridade moral.

Defender um regime que destruiu sua própria nação não é defender soberania. É defender a própria coerência interna, ainda que à custa da realidade. A revolta não nasce do amor ao povo venezuelano, mas do medo de ver um dogma ruir. E quando o dogma corre risco, a empatia desaparece. Passa-se a relativizar a violência, a humanizar criminosos, a tratar vítimas como efeitos colaterais inconvenientes. Isso não é empatia. É egoísmo ideológico travestido de virtude política.

Sim, o mundo é sujo. Sim, existem interesses econômicos, petróleo, minerais, poder e geopolítica. Relações internacionais nunca foram um conto de fadas. Mas nada disso autoriza negar o sofrimento real de quem viveu uma ditadura na pele. Nada. Discutir poder é legítimo. Discutir geopolítica é necessário. Discutir precedentes globais é saudável. Romantizar o que você não viveu é indecente.

Talvez o que mais incomode não seja a Venezuela. Talvez seja o espelho. Um país que relativiza ditaduras alheias enquanto fecha os olhos para suas próprias contradições institucionais; que se diz humanista enquanto normaliza a violência quando ela “vem do lado certo”; que posa de superioridade moral enquanto convive com incoerências gritantes. O problema não é Caracas. É Brasília. É o sistema. É a dissonância ética.

O povo venezuelano não pediu autorização ideológica para sofrer. Nem para comemorar. Quando ele sorri, ainda que por um símbolo, ainda que por uma esperança, o mínimo ético não é corrigir sua emoção a partir de gabinetes climatizados, mas ouvir. Porque transformar vítimas em detalhe inconveniente da própria ideologia não é política, não é empatia, não é humanidade. É apenas vaidade travestida de causa.

Aprenda a separar conhecimento de causa de opinião. E, principalmente, aprenda a calar quando a dor não é sua.

Se a sua leitura do mundo exige negar a experiência concreta de quem sangrou para preservar a pureza do seu discurso, o problema não está nos fatos , está em você.
Você quer discutir a realidade como ela é, ou prefere continuar explicando dores que nunca sentiu?

Rivelino Liberalino

Artigo do Leitor: “Quando o oprimido sorri, o confortável se incomoda”

  1. MARCOS ANTONIO disse:

    Parabéns pela publicação do artigo e parabéns a quem o escreveu também.

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