Artigo do leitor: “Quando a fé se ajoelha diante da ideologia”

por Carlos Britto // 07 de novembro de 2026 às 19:42

Foto: reprodução

Neste mais recente artigo enviado ao Blog, o colaborador Rivelino Liberalino Almeida Rodrigues aprofunda sua reflexão sobre fé e ideologia. Confiram:

Há uma dor que não consigo disfarçar. Não é simplesmente a decepção com uma eleição, nem a contrariedade de ver triunfar uma preferência política diferente da minha. É algo mais profundo: perceber pessoas de boa-fé, muitas delas sinceramente preocupadas com os pobres, abraçando ideias cuja história desconhecem, convencidas de que basta pronunciar “justiça social” para que tudo esteja moralmente justificado.

O que mais me entristece não é que pensem diferente. É que tantas vezes não queiram pensar. Defendem, repetem, acusam, compartilham. Mas ler, conferir, confrontar fontes e admitir uma dúvida parecem esforços excessivos.

Antes que me apareçam com o conhecido repertório de rótulos, como bolsonarista, fascista, nazista, misógino, reacionário e tantos outros, faço um pedido: leiam o que escrevi. Se discordarem, enfrentem os argumentos. Não substituam o raciocínio pelo insulto. Não transformem a desqualificação de quem escreve em resposta àquilo que foi escrito.

Recentemente, deparei-me com uma situação que ilustra a precipitação com que muitos ingressam no debate público. Alguém confundiu o colaborador de uma publicação com o titular do blog, embora a distinção estivesse expressamente registrada. Um equívoco aparentemente simples, mas revelador de como a pressa em contestar pode comprometer a compreensão dos fatos. Se não examinamos cuidadosamente aquilo que está diante dos nossos olhos, como pretendemos interpretar acontecimentos históricos de tamanha complexidade?

Em junho de 2023, no encontro do Foro de São Paulo, Lula declarou que ser chamado de comunista ou socialista não o ofendia e que, em certas circunstâncias, isso lhe dava orgulho. A declaração é pública. Não afirmo que ela represente adesão aos crimes dos regimes comunistas, nem que transforme automaticamente o presidente em defensor de perseguições religiosas. Mas pergunto: por que uma identificação dessa natureza não suscita, entre tantos cristãos, uma reflexão mais séria sobre o passado que a acompanha?

Na União Soviética, igrejas foram fechadas, bens religiosos confiscados, sacerdotes presos e fiéis perseguidos. Sob Stalin, a repressão atingiu brutalmente comunidades de fé. Em 1946, a Igreja Greco-Católica Ucraniana foi dissolvida à força. O cardeal Josyf Slipyj passou aproximadamente dezoito anos em prisões e campos. Na Hungria, o cardeal József Mindszenty foi condenado à prisão perpétua. Na Romênia, bispos e sacerdotes conheceram o cárcere e o confinamento. Na Albânia, o regime de Enver Hoxha chegou a proibir amplamente a prática religiosa.

Na China de Mao, a Revolução Cultural devastou templos e reprimiu manifestações religiosas. Em 1989, a repressão na Praça da Paz Celestial mostrou ao mundo a violência de um poder que não tolerava reivindicações por liberdade política. Aquele homem sozinho diante dos tanques não representava especificamente uma causa cristã; representava algo que deveria ser sagrado para todos nós: a dignidade de uma consciência diante da força do Estado. Na Coreia do Norte, a liberdade religiosa continua severamente restringida.

Não responsabilizo cada pessoa de esquerda por esses acontecimentos. Seria injusto. Tampouco confundo a legítima defesa de políticas sociais com apoio ao autoritarismo. Mas recuso a operação inversa: apagar os perseguidos para preservar a pureza de uma narrativa ideológica. As vítimas não deixam de ser vítimas porque seus algozes prometiam igualdade.

É aqui que minha tristeza se transforma em inquietação diante de certas autoridades eclesiásticas. Vi religiosos, sacerdotes e pessoas de grande prestígio na Igreja emprestarem sua voz a preferências partidárias. Têm esse direito como cidadãos. O que me parece incompatível com a responsabilidade espiritual que exercem é apresentar preferências partidárias como se delas decorresse uma obrigação de consciência para os fiéis. A autoridade religiosa merece respeito, mas suas manifestações políticas permanecem sujeitas ao exame crítico, sobretudo quando envolvem ideologias marcadas por experiências históricas de perseguição à liberdade religiosa.

Onde fica a memória dos mártires? Como falar de liberdade religiosa e, ao mesmo tempo, silenciar sobre aqueles que foram presos por rezar? Como pedir respeito à dignidade humana e minimizar a dor de quem foi perseguido em nome de um futuro supostamente redentor? A batina não transforma opinião política em doutrina. O título eclesiástico não concede infalibilidade eleitoral. E o altar não foi construído para servir de palanque.

Em 1937, Pio XI publicou a encíclica Divini Redemptoris, crítica expressa ao comunismo ateu e à concepção materialista que subordina a pessoa a um projeto político. É documento da Igreja, não panfleto de campanha. Quem deseja falar em nome da tradição católica deveria, no mínimo, conhecê-lo. E deveria conhecer também a Rerum Novarum, de Leão XIII, que tratou da condição dos trabalhadores e da justiça social sem converter a fé em instrumento de partido.

Cristo não precisou de Marx para ensinar o amor aos pobres. A Igreja não precisou de Lenin para reconhecer a injustiça. E nenhum cristão precisa fechar os olhos para a perseguição religiosa a fim de provar que possui compaixão. A doutrina social da Igreja exige solidariedade, mas também liberdade, responsabilidade e respeito à pessoa humana. Não é propriedade da direita, da esquerda ou de qualquer governo.

Também me angustia a facilidade com que se desprezam as preocupações das famílias. Quando surgem controvérsias sobre classificação etária de conteúdos bíblicos, manifestações artísticas ofensivas a símbolos cristãos ou a participação dos pais na educação moral dos filhos, não basta ridicularizar quem se inquieta. É preciso examinar os fatos. Classificação indicativa não é, por si, proibição; uma representação ofensiva não prova, isoladamente, uma política estatal de perseguição. Mas o respeito à liberdade de expressão não exige que os cristãos renunciem ao direito de criticar aquilo que fere suas convicções.

Não falo de toda a Igreja. Seria falso e injusto. Conheço a grandeza de sua missão e respeito os muitos sacerdotes e leigos que a cumprem com independência. Minha crítica alcança aqueles que parecem confundir fidelidade a Cristo com fidelidade a uma corrente política. O Evangelho não autoriza essa apropriação. Nenhum partido recebeu procuração para falar em nome de Deus.

Há outro problema, talvez anterior a todos: a pobreza de leitura. Pessoas usam “comunismo”, “socialismo”, “fascismo”, “nazismo”, “globalismo” e “MST” como se fossem palavras mágicas, capazes de explicar qualquer coisa ou encerrar qualquer discussão. Não são. Cada conceito tem história, diferenças internas, contradições e consequências que merecem estudo.

Existem pequenos livros introdutórios sobre esses temas, alguns capazes de oferecer uma primeira visão em uma hora e meia. Comecem por eles. Não porque um livreto resolva questões tão complexas, mas porque pode abrir uma porta. É como conhecer a fachada de um edifício: não significa conhecer seus alicerces, seus corredores ou sua estrutura. Para isso, será necessário entrar e estudar muito mais.

Leiam autores diferentes. Leiam Marx e seus críticos. Leiam documentos históricos, historiadores de distintas perspectivas, textos do Vaticano e relatos de quem viveu sob regimes autoritários. Estudem o fascismo e o nazismo sem reduzi-los a xingamentos. Investiguem os movimentos sociais sem aceitar cegamente nem a propaganda de seus defensores nem a de seus adversários. Não terceirizem o pensamento. Quem entrega a própria consciência a um líder, a um influenciador ou a uma autoridade religiosa corre o risco de se tornar massa de manobra sem sequer perceber.

Sei que muitas pessoas votam movidas pela esperança de uma vida melhor. Respeito essa esperança. A intenção de combater a miséria pode ser sincera e generosa. Mas nenhuma boa intenção dispensa o exame dos meios escolhidos. A promessa de pão não autoriza a retirada da liberdade. E a defesa da liberdade não absolve a indiferença diante da fome. O cristão deve recusar ambas as deformações.

Não quero que pensem como eu. Quero que pensem mesmo. Quero que leiam antes de acusar, que investiguem antes de repetir e que reconheçam o sofrimento humano mesmo quando ele desmente suas preferências. Se encontrarem erros no que escrevo, mostrem-nos com documentos e razões. Terei o dever de examiná-los. Isso é debate. O restante é apenas a tentativa de esconder, sob o barulho das acusações, a fragilidade de argumentos que não resistem ao exame da razão.

Aos cristãos que se deixam fascinar pelo poder, recordo: governos passam, partidos desaparecem, líderes envelhecem e as ideologias são julgadas pela história. A fé não deveria ser propriedade de nenhum deles. Cristo não fundou um partido, não entregou o Evangelho a um governante e não condicionou a dignidade humana ao resultado de uma eleição.

Quando uma ideologia exige que o cristão esqueça os perseguidos, não é a história que precisa ser corrigida para caber na ideologia. É a ideologia que precisa ser submetida ao julgamento da consciência.

Porque a fé que se ajoelha diante do poder talvez continue de pé nos templos. Mas terá perdido algo essencial no caminho: a coragem de dizer que nenhuma promessa política vale mais do que a dignidade de uma pessoa.

Rivelino Liberalino Almeida Rodrigues

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  1. Destruíram o cais e história de um povo, sua memória.