Artigo do Leitor: “O Nordeste não nasceu para viver de esmolas e promessas”

por Antonio Carlos Miranda // 21 de outubro de 2026 às 09:40

Fotomontagem: reprodução

Em meio ao intenso embate político-eleitoral no segundo turno para a Presidência da República, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino faz sua leitura acerca da atual conjuntura do Nordeste.

Confiram:

Existem dores que o tempo não consegue apagar. E confesso que, depois de tantos anos de vida, de tantas estradas percorridas e de tantas histórias testemunhadas, poucas coisas ainda me causam tanta indignação quanto ver nosso povo envelhecer esperando por promessas que parecem nunca chegar.

Assisti aos depoimentos de nordestinos apresentados por Nikolas Ferreira. Não vi apenas um vídeo político. Vi rostos castigados pelo tempo, olhos cansados de esperar e corações feridos por uma esperança que, segundo aquelas pessoas, foi sendo adiada ao longo de décadas.

Uma senhora da Bahia conta que passou a vida ouvindo Lula prometer mudanças. Envelheceu e continua enfrentando dificuldades até para tomar banho. Outra, aposentada e em tratamento contra o câncer, relata que precisa escolher entre comprar medicamentos e colocar comida na mesa.

Meu Deus, que país é este em que alguém trabalha durante uma existência inteira e chega à velhice obrigado a escolher entre comer e cuidar da própria saúde?

Mas houve um depoimento que me atingiu profundamente. Uma mãe falando dos filhos que precisaram partir porque não encontraram oportunidades na própria terra.

E ela ficou. Ficou com a casa silenciosa, os lugares vazios à mesa, a saudade dos abraços, do cheiro dos filhos, das conversas ao entardecer. Ficou esperando uma visita, uma ligação, a possibilidade de reunir novamente a família.

Quem é pai ou mãe sabe que existem ausências que dinheiro nenhum consegue preencher.

E é diante dessas histórias que me pergunto: quantas gerações ainda precisarão esperar?

O Nordeste não é uma terra de gente acomodada. É a terra de homens e mulheres que enfrentaram a seca, a fome, a distância e o abandono sem perder a capacidade de acolher o próximo. É onde muitas vezes falta o pão, mas não falta a disposição de repartir. Onde uma mulher, mesmo tendo pouco, ainda pergunta ao visitante se já almoçou.

Euclides da Cunha escreveu: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Mas será que alguém já perguntou ao sertanejo se ele deseja continuar sendo forte pela necessidade de suportar tanto sofrimento?

Lula nasceu em Pernambuco. Governou o Brasil durante três mandatos completos e voltou a disputar a Presidência. A pobreza nordestina continua ocupando lugar central em seus discursos, enquanto famílias ainda enfrentam a ausência de saneamento, a precariedade dos serviços públicos e a falta de oportunidades.

E pergunto: depois de tantos anos, quantas promessas ainda serão necessárias?

Não aceito que a pobreza seja eternamente utilizada como argumento eleitoral. A miséria precisa ser combatida, não transformada em paisagem permanente da política brasileira.

Não condeno quem recebe o Bolsa Família. Jamais condenaria. Sei que, para inúmeras famílias, esse benefício representa a diferença entre ter e não ter comida na mesa. Minha inquietação é com a incapacidade de transformar a proteção social em oportunidades duradouras de autonomia.

O verdadeiro progresso não consiste em fazer o cidadão depender eternamente de uma ajuda, mas em oferecer condições para que possa viver dignamente do próprio trabalho.

E quando observo o contraste entre as dificuldades dessas famílias e os gastos, as cerimônias e os privilégios que cercam o poder, sinto uma indignação difícil de conter.

Quem fala diariamente em pobreza precisa demonstrar, antes de tudo, respeito pelo dinheiro público. Não basta defender justiça social diante dos microfones enquanto milhões de brasileiros continuam esperando serviços essenciais.

A história também não pode ser reescrita conforme a conveniência política. Lula foi condenado em processos criminais cujas decisões foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal. A anulação não corresponde a uma absolvição de mérito, embora retire a validade jurídica daquelas condenações. A sociedade tem o direito de conhecer essa distinção e exigir transparência de seus governantes.

Volto ao vídeo de Nikolas Ferreira, um jovem parlamentar que encontrou nas redes sociais uma maneira de levar ao debate nacional as inquietações de pessoas frequentemente esquecidas.

Independentemente das divergências políticas, o que mais me impressionou foram aquelas vozes. A aposentada que precisa comprar remédios. A senhora que envelheceu esperando. A mãe que sente falta dos filhos.

E essas vozes precisam ser ouvidas para além da disputa entre Lula e Bolsonaro.

Porque o Nordeste não pertence a Lula, a Bolsonaro, ao PT, ao PL ou a qualquer outro partido. Pertence aos nordestinos, com sua diversidade de opiniões, sua fé, seu trabalho e sua dignidade.

Não quero que nossa gente seja lembrada apenas nas campanhas eleitorais, nas fotografias de comícios ou nos discursos emocionados sobre a pobreza.

Quero vê-la com água tratada, saneamento, segurança, escolas de qualidade, hospitais funcionando e oportunidades para que seus filhos possam escolher onde construir a própria vida.

Conheço a força desse povo. Conheço sua generosidade, sua fé e sua coragem. E talvez por isso me revolte tanto perceber que ainda existem brasileiros vivendo em condições que deveriam ter sido superadas há décadas.

Não podemos continuar confundindo resistência com resignação. O fato de o nordestino suportar as dificuldades não significa que esteja satisfeito com elas. O fato de repartir o pouco que possui não significa que deva permanecer com pouco.

Aos governantes, deixo uma cobrança: parem de medir o sucesso das políticas públicas apenas pelo número de pessoas que recebem benefícios. Mostrem também quantas conseguiram superar a pobreza, alcançar autonomia econômica e construir um futuro diferente.

Ao terminar de ouvir aqueles depoimentos, fiquei pensando naquela senhora que disse ter envelhecido esperando as mudanças prometidas.

Talvez ela não tenha mais tantos anos pela frente. Talvez não consiga recuperar o tempo perdido. Talvez continue esperando aquilo que ouviu durante grande parte da vida.

E essa é a parte mais cruel das promessas que não se realizam.

O tempo dos políticos é medido em eleições. O tempo de quem sofre é medido em dias de vida que jamais poderão ser recuperados.

Não consigo olhar para aquelas imagens com indiferença. Não são apenas questões de direita ou esquerda. São questões de humanidade, dignidade e responsabilidade.

O Nordeste não precisa de piedade. Precisa de respeito. Não precisa ser condenado à dependência. Precisa de oportunidades. Não precisa continuar sendo exaltado apenas porque resiste à miséria. Precisa ter condições de superá-la.

E nenhuma mãe deveria precisar envelhecer esperando o futuro que prometeram aos seus filhos.

O nordestino já provou que é forte. Agora é a vez de quem governa provar que é capaz de fazer justiça à força desse povo.

Porque há uma diferença imensa entre ajudar alguém a atravessar a pobreza e permitir que a pobreza atravesse a vida inteira de alguém.

E o que mais me dói não é apenas ver nosso povo sofrendo. É perceber que, enquanto a vida passa para quem espera, a próxima promessa já está sendo preparada para a próxima eleição.

Rivelino Liberalino

Artigo do Leitor: “O Nordeste não nasceu para viver de esmolas e promessas”

  1. Edilberto disse:

    O ex presidiário presidente é o sujeito mais mentiroso “na história desse pais”‘. Após 3 mandatos, ele já prometeu picanha, acabar com a fome, a pobreza, ele EVOLUIU nas mentiras, agora ele promete fabricar “CHIPS” de computador e uma I.A brasileira em 4 anos. Gigantes da tecnologia como NIVIDIA, SAMSUNG gastaram bilhões de dólares e, mais de 50 anos de pesquisas pra desenvolver microprocessadores. É um hipócrita, mentiroso, nosso povo precisa acordar pra realidade da vida.

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