Neste Dia dos Namorados, o colaborador Rivelino Liberalino compartilha uma reflexão sobre o verdadeiro significado do amor e da vida a dois. Com base em experiências pessoais e em mais de três décadas de casamento, ele mostra que relacionamentos duradouros são construídos diariamente por meio do cuidado, da paciência, do companheirismo e do compromisso mútuo.
Confiram:
Há uma jornada que supera todas as outras. Não é a profissional. Não é a financeira. Não é a social. É a vida a dois. Porque viver a dois exige o gesto mais difícil que um ser humano pode realizar: abrir mão do “eu” para construir o “nós”. É colocar lado a lado duas histórias nascidas em mundos distintos, duas formações emocionais atravessadas por dores diferentes, crenças diferentes, silêncios diferentes e, ainda assim, buscar harmonia. Não é simples. Nunca foi. E talvez nunca seja.
Dizem que os opostos se atraem. A vida me ensinou outra coisa: não é atração, é necessidade. Buscamos no outro aquilo que nos falta. Eu encontrei na minha esposa aquilo que em mim ainda era ausência. Ela, serena, precisa, econômica nas palavras. Eu, intenso, inquieto, um transbordamento que ainda buscava direção. Ela entrava muda e saía calada. Eu entrava falando e saía tentando dizer ainda mais. E, ainda assim, ficamos. Não porque fosse lógico, mas porque fazia sentido em um lugar que a razão não alcança.
São trinta e seis anos de história. Três de namoro e noivado. Trinta e três de casamento. Dois filhos criados, um já formado, outra a caminho. E, no meio de tudo isso, existe um processo silencioso que quase ninguém vê: a lapidação. Porque amar não é encontrar alguém pronto. É permanecer enquanto o outro se constrói. Ela teve paciência quando eu ainda era uma pedra bruta, quando minhas emoções ainda não tinham forma, quando minhas inquietações falavam mais alto do que qualquer serenidade.
Foi ela quem me ensinou o que é o amor. Não por meio de discursos, mas pela prática. Pelo cotidiano. Pela repetição silenciosa dos gestos. Foi com ela que compreendi que o amor é paciente, que o amor é benigno, que o amor tudo suporta. E isso não é poesia. É decisão. Amar é isso. É uma escolha diária. Como já se disse, amar é estar-se preso por vontade. É acordar e dizer: hoje eu quero, hoje eu escolho, hoje, apesar dos pesares, eu tento de novo. E, sim, muitas vezes apesar de você. Outras tantas, apesar de mim. Mas, ainda assim, eu fico.
Porque o amor verdadeiro não é impulso. É cultivo. É plantio de longo prazo. Você planta no silêncio. Planta na paciência. Planta quando não recebe na mesma medida. E um dia colhe. Frutos firmes, duradouros, que não se desfazem diante de qualquer vento. Nunca foi fácil. Nunca será. Mas talvez seja exatamente por isso que seja a jornada mais bela que existe.
Há algo curioso na convivência: ela transforma. Não apenas aproxima. Mistura. Minha esposa, com o tempo, foi absorvendo muito de mim. Eu sempre fui aquela figura de alma inquieta, com um traço quase infantil, que gosta de provocar, de brincar, de aperrear quem tem leveza suficiente para rir da vida. E hoje ela também é assim. Mais expansiva, mais sorridente e, para minha surpresa, adora aperrear. Às vezes olho para ela com um sorriso desconcertado e penso: como foi que você me aguentou? Porque existe algo profundamente bonito nisso. Enquanto ela assimilava minha leveza, eu aprendia sua serenidade. E assim, sem perceber, fomos nos encontrando novamente em um ponto de equilíbrio que não existia antes, um equilíbrio que apenas o tempo é capaz de construir.
Lembro-me de muitas noites em que eu estava insone. Ela percebia. Sempre percebia. Aproximava-se com aquela calma que é só dela e perguntava o que estava acontecendo. Eu, muitas vezes, resistia. Abrir as próprias dores nunca foi simples. Mas quando alguém se dispõe a ouvir de verdade, a gente cede. E eu falava. E, falando, descansava. Dormia. E ela permanecia acordada. Velando. Cuidando. Em silêncio. Foi ali que compreendi que o amor possui linguagens diferentes. A minha sempre foi o toque: abraçar, beijar, aproximar. A dela é o cuidado. Ela não é de excessos, mas é presença absoluta. Nada falta. Tudo está ali, inclusive nos detalhes invisíveis. Quantas vezes, mesmo no calor, eu já estava deitado e ela chegava para me cobrir, ajeitar o lençol, dar um beijo na cabeça. Um gesto simples, mas carregado de uma grandeza que não se explica. E ali você não recusa. Você recebe. E aprende.
Aprende que amar também é isso: cuidar do outro até quando ele não percebe.
E assim fomos construindo. Em determinado momento dessa caminhada, nossa filha enfrentou um período difícil. E ela, sem hesitar, abdicou da vida profissional para exercer a maternidade em sua plenitude. Sem anúncio. Sem vitrine. Sem aplausos. Apenas com entrega. E aquilo me fez pensar. Em que momento nos perdemos? Não se trata de ideologia. Trata-se de ruptura. Famílias saudáveis sustentam sociedades saudáveis. E talvez estejamos nos esquecendo disso.
Outro dia, percorrendo o fluxo automático das redes sociais, deparei-me com a história de Terry Crews e Rebecca King-Crews. Para quem não associa imediatamente o nome ao rosto, Terry Crews é o ator que interpretou Julius, o inesquecível pai de Chris na série Everybody Hates Chris, conhecida no Brasil como Todo Mundo Odeia o Chris. Sempre lembrado pela figura forte, trabalhadora, bem-humorada e pelas tiradas que marcaram gerações de telespectadores, ele se tornou uma personagem quase familiar para muitos de nós.
Talvez por isso o impacto tenha sido ainda maior.
Porque, fora da ficção, não havia ali o Julius que arrancava risadas do público. Não havia o personagem. Havia apenas um homem diante da fragilidade da mulher que ama, enfrentando ao lado dela as limitações, os medos e os desafios impostos por uma doença como o Parkinson. Sem máscaras. Sem roteiro. Sem personagem. Apenas humano.
E aquilo me marcou profundamente.
Porque ali não havia dois fortes.
Havia dois verdadeiros.
Quando um não podia, o outro sustentava.
Quando um caía, o outro permanecia.
Talvez por isso essa história tenha me tocado tanto. Porque ali não estavam personagens. Ali estava a vida. Ali estava a prova de que o amor não é sobre encontrar alguém perfeito. É sobre permanecer humano diante da imperfeição do outro. É sobre compreender que haverá dias em que um carregará mais peso do que o outro. Dias em que um terá mais forças. Dias em que um precisará ser sustentado. E nenhuma relação atravessa décadas sem que ambos ocupem, alternadamente, esses lugares.
Aquilo me fez refletir sobre algo que o tempo talvez tenha me ensinado da forma mais bonita possível. Durante muito tempo acreditamos que o amor era sobre felicidade. Hoje penso diferente. O amor é sobre crescimento.
Não estou falando de histórias perfeitas. Não estou falando de príncipes e princesas encantados. Não estou falando de pessoas que nunca discordaram, nunca sofreram ou nunca atravessaram tempestades. A vida real não é assim. A vida real é feita de encontros e desencontros, de acertos e erros, de quedas e recomeços, de momentos em que o encanto parece abundante e de outros em que apenas a decisão de permanecer mantém a ponte de pé.
Talvez a maior beleza da vida a dois esteja justamente aí: na possibilidade de duas pessoas imperfeitas caminharem juntas enquanto aprendem a se tornar versões melhores de si mesmas. Porque a convivência verdadeira não apenas aproxima. Ela transforma. Corrige excessos. Suaviza arestas. Ensina paciência a quem é impaciente. Ensina leveza a quem carrega o mundo nos ombros. Ensina silêncio a quem fala demais. Ensina coragem a quem teme. E, pouco a pouco, constrói algo que nenhum dos dois conseguiria construir sozinho.
Com o passar dos anos, compreendi que a vida é passagem. Somos todos viajantes. Todos estamos atravessando um breve trecho da eternidade. E talvez o verdadeiro sentido de compartilhar essa travessia com alguém não seja apenas ser feliz. Talvez seja ajudar um ao outro a crescer, amadurecer, evoluir e extrair o melhor que existe dentro de si. Talvez seja chegar ao final da jornada um pouco melhor do que éramos quando ela começou.
Por isso, hoje penso que o amor não é apenas encontro. Nem apenas sentimento. Nem apenas permanência.
O amor é construção.
Construção de uma história.
Construção de uma família.
Construção de caráter.
Construção de memórias.
Construção de duas vidas que, sem perder a própria identidade, escolhem caminhar lado a lado em direção a algo maior do que elas mesmas.
Talvez seja exatamente por isso que tantas relações se perdem. Porque muitos continuam procurando o encontro quando o verdadeiro milagre sempre esteve na construção.
O encontro acontece em um instante.
A construção leva uma vida inteira.
E, no fim, não é o encontro que sustenta o amor.
É a decisão diária de continuar construindo juntos.
Rivelino Liberalino


