Artigo do leitor: “Definitivamente Dona Cléa”

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Foto: divulgação

Num texto carregado de emoção e de nostalgia, o empresário Luiz Eduardo Coelho, um dos filhos de Dona Lívia Cléa, resume tudo o que representava a matriarca da sua família. Um texto escrito com o coração de um filho que amou demais.

Confiram:

Filha do velho Lauro Viana, pecuarista de Casa Nova, ex-prefeito do município por quatro mandatos, mamãe vinha a Petrolina a bordo do paquete, velejando os remansos do São Francisco. Ao Recife, chegou a viajar em boleia de caminhão. Isso diz muito dessa sertaneja de raiz em quem se percebia a marca da fibra, da ousadia e da coragem.

Observador perspicaz, tio Augusto diz que a união dela com Zé Coelho teve momentos de contos de fadas, da mais pura alegria. Adolescente, eu ficava intrigado ao vê-la cuidar de tanta coisa ao mesmo tempo. A começar pelas casas de Petrolina e Salvador, ambas abertas a amigos e convidados. Reinando soberana sobre nove filhos, na esteira da vida social do marido, um caixeiro-viajante de alma itinerante, dona Cléa teve bom olho para montar uma equipe motivada, como se fosse a capitã de um navio. Delegar tarefas, identificar competências e cobrar resultados era o que fazia. Aos olhos do espectador maravilhado que eu era, percebia que ela achava tempo para tudo.

Tiro por mim. Caçula, com direito às sanções e glórias dessa condição, fui o exemplo dessa competência. Maria Inês, a irmã mais velha, foi designada minha madrinha. Espécie de primeira-oficial da tripulação, hoje vejo que mamãe já pensava numa figura ascendente, caso viesse a me faltar. A corrente de comando continuava com Fátima, que zelava pela higiene e limpeza. Não deixava que eu escapasse do banho. Para os assuntos escolares, Verônica, que abastecia minha lancheira. Em Lívia eu tinha uma mentora inspirada sobre as coisas do mundo, os chamados fatos diversos.

Lídia se encarregava de monitorar meus progressos em línguas estrangeiras e Cláudia, por afinidade de idade, era a parceira referencial para o lazer e as brincadeiras. Os irmãos Lauro e Ciro já nasceram com a patente de oficiais de bordo, mas eram marujos de descascar cebolas e lavar convés sob o comando de Zé Coelho. Lá dentro, onde as visitas nem sempre conseguiam enxergar, uma equipe operava a casa de máquinas. Era como a caldeira de um transatlântico, que trabalhava duro para a alegria dos convidados do convés.

Mesmo me arriscando a omissões, o papel de timoneira cabia a Margarida, a querida Gaida, que foi governanta e minha babá. A copa e a cozinha funcionavam a ritmo acelerado sob o comando de dona Aurelina e Lita. Ao vivo ou ao telefone, dona Cléa estava sempre lá ou aqui. Mas nada de relevante lhe escapava ao conhecimento e à supervisão. Dia desses parei para pensar no casamento de minha madrinha. Naquela época, não havia bufê. Tudo era feito em casa, a terceirização era mínima mesmo porque a cozinha era uma espécie de marca de identidade de uma família. A polivalência era outro critério de gestão de mamãe.

Nas guaritas de vigia, contávamos com o olhar sempre atento de seu Batista e com o apito de Zé Trique-Trique. Os serviços de jardinagem ficavam a cargo de  Zé Pereira enquanto Darcy cuidava da costura. Já Manoel Gonçalves e Zé Ubaldino – quantas saudades! – nos conduziram com segurança e zelo por muitas estradas.

O que mais me alegra, e isso se aplica a toda a família, é que o staff era soldado a todos nós por laços que iam muito além da carteira de trabalho, senão pela verdadeira amizade, pelo cuidado quase devocional. Por maiores que fossem as pressões, o olhar fino da sertaneja estava ali para identificar sentimentos, agradecer e estimular. 

Dona Cléa não era apenas a timoneira da nau-capitânia de Zé Coelho e de sua vida de muitos portos. A empresa familiar não prescindia de uma alma, de um ânimo fundador. Ela queria que cada um de nós buscasse seus sonhos, para cuja realização deveríamos cumprir nossos deveres. Essa era a essência de sua cartografia, seu mapa de rota, sua bússola. Faça sua parte e sonhe, porque vida sem sonho é navegação sem norte.

Que suas filhas não fossem coadjuvantes da vida dos maridos. Se ela, nascida nos anos 30, cavou protagonismo para a sua própria, o que não dizer de suas meninas? Que fossem independentes e operosas. Que ninguém se acomodasse. Toda a ajuda do mundo para fazer o que quisessem, e nenhum estímulo para o ócio. Em sintonia com papai, dava o máximo, mas queria o mínimo de contrapartida: escola durante a semana, missa aos domingos e atividades comunitárias de solidariedade cristã, de preferência com adesão de coração.

Supere-se e vá até o fim…Nunca esqueço o momento em que a vida colocou diante de mim um desafio intransponível – uma dificílima eleição para a Prefeitura de Petrolina. Procurei sua orientação e, nas entrelinhas, deixei escapar que o embate se anunciava desgastante e de desfecho duvidoso. Sem alterar o tom, mas mostrando com a firmeza do olhar o que seu coração valente pedia, ela disse: “Eu criei você para ser um homem que enfrenta desafios. E não uma criança que abre mão de oportunidades, não importa quão difíceis. Vamos em frente.” Assim era dona Cléa. Longe de estar jogando o filho às feras, colhi dali a mais fecunda lição de amor que poderia ter recebido: “estou com você, se for para travar o bom combate”.

Se foram tantos os divisores de água que atravessamos com cumplicidade, aquele foi um deles. Até que um dia…, um dia o destino nos uniu como nunca, na maior das provações. Nas saudades de Zé Coelho, depois que ele se foi.

Foi daí que nossas conversas ganharam novo patamar. Passamos a prosear mais. A cumplicidade ganhou força. Tínhamos um ao outro. Podíamos nos apoiar, falar com transparência de alma. Imagino que todo filho e filha tivesse sentimento similar, mas aqui falo do meu. Nos momentos de dificuldade, mesmo quando não havia muito a fazer, mesmo quando o fatalismo sertanejo nos fazia balançar a cabeça e dizer que o caso estava entregue a Deus, relembrávamos histórias, extraíamos lições do passado e tentávamos adivinhar o que Zé Coelho nos aconselharia naquela situação. Quase sempre funcionava e saíamos revigorados.

Dia desses acusei pela primeira vez a pancada da perda e admiti a Lívia minha tristeza, minha dor e falta de concentração. Não fosse o cumprimento do dever, teria ficado prostrado naquele dia. Mas aguentei. Sei que era isso o que ela esperava de mim: humildade, altivez e desassombro.

Sei que as saudades vêm e virão. Sei que se assemelham a ondas. Ora chegarão como um tsunami, ora como marolas. Uma hora, quando menos se espera, um detalhe desencadeia uma torrente de lembranças e será inútil tentar segurar a emoção. Dia desses, apenas algumas semanas depois que D. Cléa se foi, fui visitar uma das fazendas. O colaborador Alex,  ex-funcionário dela, ao passarmos por um enorme umbuzeiro frutificado, alvejou direto minha alma. Como se ainda estivesse a nosso alcance homenageá-la com as coisas simples de que gostava, ele disse: “o umbu está verdinho, quase inchado. Bem do jeito que dona Cléa gostava. Dá pra fazer uma umbuzada da boa”, referindo-se à vitamina da fruta com leite. Naquele momento, foi preciso coragem para segurar a emoção. Engoli o choro como só os sertanejos aprendem a fazer.

Hoje me vejo exatamente como um amigo  profetizou: me sinto como um barco sem porto onde atracar. À deriva no escuro das águas, sou tal e qual um paquete adernado num remanso.

Gosto de imaginá-la reencontrando Zé Coelho e levando notícias de cada um de nós. E, como acontece entre sertanejos, logo vão conversar sobre a chuva. Chuva que não me impedirá de vê-la sempre que olhar para o céu.

Mãe, vá em paz e obrigado por tudo. 

de seu filho,

Duca.

15 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns Eduardo pela bela homenagem a sua mãe. Trabalhei por muito tempo com a familia , e mais precisamente com Lauro, e sei sua dedicação a D. Cléa. Belíssimo texto. Valeu!

  2. Dessas lonjuras da Europa, li seu texto com emoção. Você nos ofereceu em prosa poética a essência de seu sentimento e do muito que une a família a Petrolina e ao Sertão. Ficaria bonito em qualquer língua porque reflete sentimentos universais. De dona Cléa me fica a voz doce e o olhar meigo. Você é um homem honesto de alma e largo de espírito que honra a memória de seus amados pais. Um abraço.

  3. Muito lindo esse texto Duca. Entendo bem o que você está sentindo pois também já perdi os meus pais, um deles a apenas quatro meses e sei o quão grande é o vazio que fica na nossa alma. O que nos dá algum alento são as boas lembranças de momentos inesquecíveis que passamos com eles. De resto é só saudade. Muita saudade.

    Força amigo. Deus te abençoe.

  4. Nossa Duca, como você escreve bem!!!
    E que lindo o que disse de sua mãe, D. Livia que eu tive a felicidade de conhecer!
    Deveria escrever mais!!!
    Um beijo com carinho de Lucia mãe de Nati, Luciana e Alice

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