Artigo do leitor: “Carta de um docente da Univasf em defesa do movimento Estudantil”

por Antonio Carlos Miranda // 09 de outubro de 2026 às 17:20

Foto: divulgação

Diante dos últimos acontecimentos políticos envolvendo universidades federais do país (incluindo a Univasf), o professor Manoel Messias Alves de Souza faz uma análise pertinente sobre este momento.

Boa leitura:

Tempos difíceis, sombrios e tenebrosos parecem se anunciar para a sociedade brasileira.

Em 1968, em meio a um dos períodos mais sombrios da história política do Brasil, o compositor Geraldo Vandré entoou versos que se tornariam um hino de resistência para a juventude e para todos aqueles que acreditavam na liberdade: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Apesar da resistência, da consciência política e de classe, e da compreensão dos riscos que se avizinhavam, a sociedade brasileira viveu — e sofreu — as consequências daquele acontecer. A história nos ensina, portanto, que reconhecer os sinais de ameaça à democracia não é suficiente: é preciso agir para impedir que os retrocessos se concretizem.

Nos últimos dias, movidos pela necessidade de ampliar a participação estudantil no debate sobre os projetos políticos que serão apresentados pelos candidatos à Presidência da República no segundo turno das eleições, estudantes de diferentes regiões do país têm protagonizado expressivas mobilizações. Em iniciativas diversas, movimentos estudantis conseguiram reunir milhares de jovens, oriundos de universidades, institutos federais e até mesmo do ensino médio, tanto em pequenas cidades, distantes dos grandes centros, quanto nas metrópoles brasileiras.

É emocionante testemunhar essa mobilização, que reafirma a capacidade de organização, a consciência crítica e o compromisso político da juventude com os destinos do país. Ao mesmo tempo, causa preocupação perceber que essas manifestações, legítimas expressões da participação democrática, se realizam em um ambiente no qual a própria democracia, já tão fragilizada, e os direitos historicamente conquistados parecem novamente ameaçados. Talvez seja justamente diante dessas ameaças que a resistência se torne ainda mais necessária.

Nesse cenário preocupante, grupos reacionários e antidemocráticos têm recorrido a práticas violentas e injustificadas para tentar cercear o legítimo direito de organização e manifestação dos estudantes. Tais atitudes evocam, de maneira inquietante, períodos em que a liberdade de expressão e a livre manifestação do pensamento foram sistematicamente deslegitimadas e reprimidas. O que parece estar em jogo é, mais uma vez, a tentativa de silenciar as vozes da juventude e de parcelas da sociedade que se recusam a aceitar o retrocesso, o obscurantismo e a supressão de direitos.

Cabe recordar que, em 2013, manifestações inicialmente impulsionadas, entre outros fatores, pela contestação do aumento das tarifas do transporte público e pela atuação do Movimento Passe Livre (MPL) ganharam dimensões nacionais e passaram a reunir pautas e atores políticos bastante diversos. Aquelas mobilizações, legítimas em seu direito de existir e de ocupar os espaços públicos, foram também atravessadas por disputas de sentido e apropriações políticas. Posteriormente, parte de seus desdobramentos foi incorporada à estratégia de forças políticas que culminou no processo de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, em 2016, cuja natureza e legitimidade permanecem objeto de intenso debate político e histórico.

Naquele contexto, parcelas expressivas da sociedade e da classe política celebraram a presença dos estudantes nas ruas, atribuindo-lhes protagonismo e reconhecendo a legitimidade de sua participação. Diante disso, cabe perguntar: por que, agora, há tentativas de desqualificar ou minimizar a importância da mobilização estudantil quando ela se volta à defesa da democracia, da soberania nacional, da educação pública de qualidade, do fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), da garantia dos direitos trabalhistas e da preservação dos avanços sociais historicamente conquistados?

O direito à manifestação não pode ser reconhecido apenas quando as reivindicações coincidem com as nossas convicções políticas. A democracia exige coerência, pluralidade e respeito ao dissenso. Não é possível defender a liberdade de expressão para uns e negá-la a outros conforme a conveniência ideológica ou partidária.

O lugar do Movimento Estudantil é onde a luta democrática se faz necessária: nas ruas, nas reitorias, nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. É nesses espaços, por meio da mobilização legítima, do diálogo, da reivindicação e da pressão social, que os estudantes exercem sua cidadania, cobram providências concretas e defendem uma educação pública socialmente referenciada, inclusiva e de qualidade, bem como os direitos e as conquistas que pertencem a toda a sociedade.

Nenhum direito a menos!

Diante dos acontecimentos recentes, impõem-se também questionamentos sobre a postura de representantes políticos que, em vez de contribuírem para a proteção da comunidade acadêmica e para a preservação dos espaços democráticos, adotam atitudes que acirrem os conflitos. Onde estavam os representantes do Partido Liberal (PL) em 7 de outubro de 2026, durante e após o episódio de violência noticiado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife? Que iniciativas foram tomadas para defender a integridade dos estudantes, dos servidores e do patrimônio público universitário?

Nossos representantes políticos deveriam mobilizar esforços em defesa dos estudantes, das instituições públicas de ensino e da sociedade, e não protagonizar ou estimular ações de intimidação, vandalismo ou invasão dos espaços universitários. Ontem, registrou-se o episódio envolvendo a UFPE, com notícias de incêndio em prédio público daquela universidade; hoje, a comunidade acadêmica da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina, depara-se com outra ação que suscita preocupação. Além disso, notícias sobre ameaças atribuídas a grupos extremistas contra a Universidade Federal Fluminense (UFF), previstas para 9 de outubro de 2026, ampliam a apreensão. Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: até onde permitiremos que a violência e a intolerância avancem sobre nossas universidades?

Este é um momento que exige serenidade, responsabilidade institucional e firmeza na defesa dos princípios democráticos. É necessário repudiar veementemente a conduta de lideranças políticas que, segundo os relatos sobre o episódio, invadiram o campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Petrolina, em uma ação que teria buscado intimidar a mobilização estudantil democrática. A atuação de agentes públicos deve ser pautada pelo respeito à legalidade, à autonomia universitária, à integridade das pessoas e à convivência democrática. Mandatos eletivos não conferem a ninguém o direito de constranger, ameaçar ou intimidar estudantes e demais integrantes da comunidade acadêmica.

Episódios dessa natureza precisam ser devidamente apurados, com a identificação das responsabilidades e a adoção das providências cabíveis, sempre em conformidade com a legislação e com as garantias do devido processo legal. A gravidade de condutas dessa espécie não reside apenas em seus efeitos imediatos, mas também no potencial de estimular novas ações de hostilidade e violência contra estudantes e instituições públicas de ensino.

Eventuais atos de violência contra a Univasf, seu patrimônio ou qualquer integrante de sua comunidade acadêmica devem ser investigados com rigor, e os responsáveis, responsabilizados na forma da lei. A gravidade do momento exige que todos os agentes públicos atuem com prudência e compromisso com a paz social, abstendo-se de estimular confrontos ou de criar condições para a escalada da violência.

Cabe, ainda, uma reflexão: o que aconteceria se os servidores públicos federais e os demais integrantes da comunidade universitária decidissem agir com a mesma desenvoltura e com a mesma disposição para ultrapassar limites que certos agentes políticos parecem reivindicar para si? A resposta democrática não pode ser a reprodução da intimidação, mas a defesa intransigente da legalidade, da dignidade humana, da autonomia universitária e do direito à manifestação pacífica.

Sigamos, portanto, defendendo a universidade como espaço privilegiado do contraditório, da liberdade de pensamento, da produção do conhecimento e do debate plural. Que tenhamos orgulho da mobilização estudantil que, em diferentes partes do território nacional, reafirma a importância da participação política da juventude e demonstra que a democracia não se sustenta apenas nas instituições formais: ela também se constrói na ação coletiva, na consciência crítica e na disposição de defender direitos.

Que nenhuma ameaça nos faça esquecer que a universidade pública pertence à sociedade e deve permanecer aberta ao conhecimento, à diversidade, ao diálogo e à transformação social.

Viva a democracia! Viva o Movimento Estudantil! Viva a universidade pública, gratuita, inclusiva, de excelência e emancipadora!

Nenhum direito a menos. Nenhuma voz democrática silenciada.

Manoel Messias Alves de Souza/Professor da Univasf

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