Artigo do leitor: “A saúde do professor do seu filho – dos dados à realidade”

por Carlos Britto // 12 de fevereiro de 2026 às 19:00

Foto: divulgação

Neste artigo, o professor Cléber Jesus faz uma análise pertinente sobre como os transtornos mentais afetam profundamente o desempenho dos docentes.

Confiram:

Piadas sobre professores emocionalmente desequilibrados se tornaram comuns nas redes sociais. Memes retratam docentes “surtados”, dependentes de café ou medicamentos, sempre à beira do colapso. O humor é legítimo. O problema não é a liberdade de expressão — é a naturalização do adoecimento.

O que antes era visto como vocação admirável passou a ser associado, no imaginário coletivo, a exaustão permanente. E os dados mostram que essa imagem não surge do nada.

Pesquisas internacionais indicam que uma parcela expressiva dos professores apresenta sintomas de estresse crônico, ansiedade e burnout. Estudos publicados pela Cambridge University Press apontam que até 4 em cada 10 docentes relatam níveis significativos de ansiedade. Trata-se de uma profissão que exige atenção constante, envolvimento emocional e tomada contínua de decisões — muitas vezes sob pressão e com pouco espaço para recuperação.

No Brasil, o cenário também é preocupante. Transtornos emocionais figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho docente. Dados da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indicam que aproximadamente 1 em cada 3 professores da educação básica apresenta burnout, e mais da metade relata exaustão emocional. Levantamento da Nova Escola, com cerca de 5 mil professores, revelou que aproximadamente 60% relatam sintomas de ansiedade, estresse ou dores de cabeça associados ao sofrimento emocional provocado pela profissão.

Quando os números deixam o plano nacional e chegam à realidade local, o quadro ganha ainda mais nitidez e assumem o rosto dos professores dos nossos filhos. Nos dois primeiros meses de 2026, uma pesquisa realizada com cerca de 260 professores da educação básica de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) revelou que 55,6% se sentem cansados ou exaustos, enquanto 73,3% avaliam o sono como ruim ou muito irregular.

Além disso, 64,1% relatam cansaço mental constante, 57,9% convivem com ansiedade frequente e 23,9% enfrentam tristeza recorrente. Outros 63,1% afirmam trabalhar em “modo sobrevivência”, lidando diariamente com urgências e cobranças que ultrapassam o conteúdo pedagógico e reduzem o tempo de planejamento e reflexão.

O relato de uma professora participante da pesquisa ilustra o impacto desses números: “Hoje estou ansiosa e depressiva, não consigo dar conta nem das atividades da minha casa, quanto mais da escola. Tomo remédio controlado. O que mais pesa é não me reconhecer mais e ainda ser alvo de comentários”.

Especialistas alertam que professores adoecidos estão se afastando com maior frequência e, em muitos casos, acabam sendo readaptados para outras funções. O impacto vai além do indivíduo: afeta o clima escolar, a continuidade pedagógica e, consequentemente, a aprendizagem dos estudantes.

Não há educação de qualidade sem professores saudáveis. Discutir saúde mental docente não é pauta secundária, mas uma questão estrutural para o futuro da educação.

Então surge a pergunta mais urgente e incômoda: como é possível melhorar os índices educacionais com a maioria dos docentes adoecidos?

Cléber Jesus/Professor, Pesquisador, Especialista em educação e contemporaneidade, Estudante de Neurociência e comportamento humano

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