Artigo do leitor: “A romaria, a amizade e aquilo que o mundo está nos roubando”

por Antonio Carlos Miranda // 02 de agosto de 2026 às 21:33

Foto: divulgação

Em mais um artigo, o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, faz uma observação pertinente de um “detalhe” que passa desapercebido por muitas pessoas. Confiram:

Há algum tempo venho percebendo que a vida moderna nos impôs um ritmo quase desumano. Corremos de um compromisso para outro, respondemos mensagens sem parar, acumulamos responsabilidades, resolvemos problemas o dia inteiro e, quando a noite chega, temos a estranha sensação de que fizemos muito, mas vivemos pouco. O cotidiano, silenciosamente, vai nos retirando aquilo que não deveria jamais nos ser roubado: a capacidade de contemplar, de agradecer, de cultivar amizades verdadeiras e de alimentar a própria espiritualidade. Vamos sobrevivendo tão ocupados que, sem perceber, deixamos de visitar os lugares onde nossa alma respira.

Foi nesse contexto que Dalvani, amiga que a vida transformou em irmã, retiniu três amigos e nos convidou para participar da tradicional Romaria da Santa Cruz da Venerada, nas proximidades de Lagoa Grande. À primeira vista, parecia apenas uma viagem. Mas algumas viagens não começam quando entramos no carro. Começam muito antes, quando Deus decide nos tirar, ainda que por algumas horas, da pressa que nos endurece e nos devolve ao essencial. Hoje tenho a convicção de que existem pessoas cuja maior missão não é ensinar grandes discursos sobre a fé. É simplesmente conduzir outras pessoas até lugares onde Deus continua falando baixinho ao coração. Dalvani fez exatamente isso.

À medida que nos aproximávamos da Santa Cruz da Venerada, fui compreendendo novamente por que milhares de romeiros insistem em voltar todos os anos. Não retornam apenas para cumprir promessas ou renovar pedidos. Voltam porque ali reencontram uma parte de si mesmos que o mundo lhes toma ao longo do ano. Há lugares que não transformam apenas a paisagem; transformam quem os contempla. Há lugares onde percebemos que passamos tempo demais cuidando daquilo que é urgente e tempo de menos alimentando aquilo que é eterno.

A religiosidade sertaneja possui uma beleza que dificilmente cabe em definições. Ela não precisa de espetáculos, de cenários cuidadosamente preparados nem de discursos sofisticados para emocionar. Basta observar um romeiro caminhando sob o sol escaldante, um terço gasto pelo tempo entre os dedos, um chapéu de palha protegendo o rosto castigado, um joelho que insiste em dobrar-se diante da cruz, mesmo depois de tantos quilômetros percorridos. Ali a fé não é teoria. É resistência. É esperança. É a decisão silenciosa de continuar caminhando quando todas as circunstâncias parecem convidar à desistência.

Enquanto observava aquela multidão, pensava que talvez os romeiros sejam os últimos resistentes de um tempo em que a espiritualidade ainda conseguia unir pessoas completamente diferentes. Caminhavam lado a lado agricultores, comerciantes, professores, médicos, donas de casa, crianças, idosos, empresários, trabalhadores simples e profissionais liberais. O sol não fazia distinção entre eles. A cruz também não. Ninguém perguntava em quem o outro votava, qual profissão exercia ou quanto possuía na conta bancária. Diante da Santa Cruz, desapareciam os títulos, os sobrenomes, os cargos e as vaidades. Permanecia apenas aquilo que todos somos quando a vida nos despe de qualquer aparência: seres humanos profundamente necessitados de esperança.

Talvez o maior empobrecimento da sociedade contemporânea não seja financeiro. Talvez seja espiritual. Nunca tivemos tantos meios de comunicação e, paradoxalmente, tão poucos encontros verdadeiros. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros. Conhecemos cidades, países e continentes, mas já não visitamos com a mesma frequência os lugares onde nossa alma encontra descanso. Aprendemos a competir, mas estamos desaprendendo a compartilhar. Aprendemos a argumentar, mas esquecemos de escutar. Construímos patrimônios, porém deixamos de construir presenças.

Na Casa do Romeiro encontrei uma das imagens mais bonitas daquela peregrinação. Vi homens e mulheres preparando alimentos para centenas de pessoas cujos nomes jamais conheceriam. Vi panelas enormes transformando solidariedade em alimento. Vi famílias dividindo colchões, redes, água, comida e espaço sem perguntar quem era importante ou quem poderia retribuir depois. Perguntava-se apenas quem ainda precisava de ajuda. Ali compreendi que servir talvez seja a forma mais elevada de oração. Há quem espere a vida inteira assistir a um milagre. Outros escolhem, discretamente, ajudar Deus a realizá-lo todos os dias.

Também reencontrei Dom Paulo Cardoso, aproximando-se dos noventa e dois anos, com a serenidade de quem atravessou décadas servindo ao povo de Deus sem jamais transformar o serviço em palco. Algumas pessoas envelhecem apenas acumulando aniversários. Outras envelhecem distribuindo a própria vida. E estas permanecem muito depois que sua voz silencia, porque continuam habitando a memória daqueles que encontraram pelo caminho.

Entretanto, foi durante a adoração ao Santíssimo Sacramento que vivi um daqueles instantes que permanecem conosco para sempre. Encontramos poucos lugares disponíveis, todos sob um sol extremamente forte. Minha esposa e outra companheira ainda conseguiam alguma proteção. Eu, de pele muito clara, recebia diretamente toda a intensidade daquele calor sertanejo. Foi então que um jovem, trazendo ao peito um grande escapulário de Nossa Senhora do Carmo, percebeu discretamente o que acontecia. Não perguntou quem eu era. Não quis saber meu nome, minha profissão ou minha história. Apenas deu alguns passos à frente e colocou o próprio corpo entre mim e o sol.

Pode parecer um gesto pequeno para quem observa de fora. Para mim, foi um sermão inteiro sem uma única palavra. Aquele rapaz não retirou o calor, porque isso estava além das suas possibilidades. Não modificou a realidade. Apenas escolheu suportar parte do desconforto para aliviar o sofrimento de alguém que sequer conhecia. Saí dali pensando que talvez a caridade seja exatamente isso. Nem sempre conseguiremos retirar a cruz do irmão. Mas quase sempre poderemos caminhar um trecho ao lado dele, fazendo um pouco de sombra enquanto o sol castiga.

Enquanto aquele gesto ainda me emocionava, outra lembrança atravessou meu coração. Pensei em Zelito Athayde, o inesquecível Zé da Onça, figura tão querida em Petrolina e presença constante naquela romaria. Zé possuía limitações físicas, dificuldades na fala e uma aparência muito distante dos padrões de beleza que o mundo insiste em idolatrar. Mas havia nele uma delicadeza que poucas pessoas possuem. Seu jeito de demonstrar carinho era oferecer bombons às pessoas que encontrava pelo caminho. Alguns distribuem discursos. Zé distribuía ternura.

Durante a romaria, um homem com limitações muito semelhantes às dele aproximou-se de mim e, sorrindo, colocou um bombom em minhas mãos. Por alguns segundos, perdi completamente a noção do tempo. Não recebi apenas um doce. Recebi uma lembrança. Recebi um abraço atravessando os anos. Recebi a confirmação de que algumas pessoas jamais partem completamente. Continuam presentes em cada gesto de bondade que deixaram semeado pelo mundo. Foi impossível não recordar a lição que Zé nos ensinou durante toda a sua existência: a verdadeira beleza nunca esteve no rosto. Sempre esteve no coração.

Quando iniciamos a viagem de volta, percebi que o sertão permanecia o mesmo. O sol continuava forte. As estradas eram as mesmas. Os problemas que nos esperavam em casa continuavam existindo. Os processos judiciais permaneceriam sobre as mesas dos advogados. As preocupações voltariam no dia seguinte. A vida retomaria seu ritmo habitual. Mas alguma coisa dentro de mim havia reencontrado o lugar de onde jamais deveria ter saído.

Talvez seja exatamente por isso que milhares de pessoas retornem todos os anos à Santa Cruz da Venerada. Não porque Deus esteja preso àquele pedaço de chão, mas porque ali recordamos uma verdade que a correria insiste em apagar da nossa memória. A vida nunca será sustentada apenas pelo trabalho, pelo dinheiro, pelo reconhecimento ou pelas conquistas. Ela continua sendo sustentada pelas pessoas que Deus coloca em nosso caminho, pela amizade que não exige nada em troca, pela mão que reparte, pelo pão dividido, pelo voluntário que serve sem esperar aplausos, pelo romeiro que caminha ao nosso lado, pelo desconhecido que faz sombra quando o sol se torna insuportável.

Se alguém me perguntasse qual foi o maior milagre que testemunhei naquela romaria, eu responderia sem hesitar que não foi um acontecimento extraordinário. O maior milagre foi perceber que, apesar de um mundo cada vez mais individualista, ainda existem pessoas que escolhem acolher em vez de afastar, repartir em vez de acumular, servir em vez de aparecer e amar sem perguntar quem merece. Enquanto houver seres humanos assim, a esperança continuará encontrando caminhos para florescer até mesmo sob o sol mais intenso do sertão. Talvez seja essa a mais bonita definição de espiritualidade: permitir que Deus continue sendo visto através daquilo que fazemos, muito mais do que através daquilo que dizemos.

Rivelino Liberalino

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Últimos Comentários