Artigo do leitor: À mestra, meu carinho!

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Um professor pode mudar ou marcar nossa vida para sempre. O servidor público Juvênio Francisco sabe disso e, nesse artigo, rende homenagens a sua inesquecível professora Luiza Honorinda. Mesmo leiga, foi exemplo para a vida inteira. Confiram:

À mestra, meu carinho!

Final dos anos 70, início dos anos 80. A vida de então no Sitio Voltado Riacho/Atalho em muito pouco se assemelha ao estilo de vida de uma comunidade rural petrolinense nos tempos atuais. Crianças trabalhavam normalmente na companhia dos pais. E a vida, em geral, não dispunha das condições básicas para a subsistência familiar. Tomávamos água de poço, de cacimba. Alimentação grosseira e de baixo teor nutricional, às vezes. A ausência das melhores opções de lazer e entretenimento era naturalmente preenchida por longos finais de semana em campos de futebol, jogos de mesa e/ou criativas brincadeiras peculiares àquela infância.

Contudo nossos pais absorveram a obrigação de prover a educação elementar dos seus filhos, à época. O curso ginasial não havia, tampouco o colegial de então. Nada de transporte escolar, de fardamento, de kit de material didático…

Mas lá ela estava. A mestra Luzia Honorinda da Silva Bonfim. Professora leiga. Todavia com pleno domínio das competências para o ensino do Português, da Matemática, da Ciência, da História, enfim…Sacrificava-se entre as obrigações da regência de classe e o esforço em participar do Projeto Logos II, em busca de uma titulação e melhor qualificação profissional para o exercício do magistério.

Aquela mestra era grande referência para nós, estudantes, e para a comunidade. Utilizava-se de sua própria casa. Sala, cozinha, mobiliários…Sem direito a qualquer valor a título de locação pelo uso do imóvel próprio.  O salário que recebia era a remuneração única pela dupla jornada de professora e merendeira. Um ofício que tornara-se, então, um sacerdócio, uma missão.

Com ela aprendemos muito. Crianças, adolescentes, jovens, e mesmo adultos (do Curso Mobral) do Sítio Volta do Riacho e do Atalho ocupavam os bancos da Escola Municipal Almeida Júnior, em sua própria casa.

Sim, aprendemos muito! A alfabetização acontecia efetivamente. Indisciplina não havia. A educação prevalecia. A autoridade da professora Luzia se impunha naturalmente. Recordo-me da boa merenda, das cantigas de rodas, das comemorações cívicas. Como foi fácil aprender o Hino Nacional, o Hino de Pernambuco, o Hino da Bandeira, da Independência. Ah, mas era o regime militar, alguém diria. Pouco importa. Sequer sabíamos as condicionantes daquele regime. Tínhamos diante de nós uma professora que ensinava. E a nossa vontade de aprender inspirou aquela memorável mulher a bem desenvolver a sua abnegada vocação. Enfim, o processo de ensino aprendizagem fluía. O respeito havia.

Hoje, décadas após, reconheço a dimensão do legado de ensino da amada mestra Luzia. Uma professora leiga que fez a educação de resultados. Guardo, hoje, a nítida percepção da dimensão daquela experiência para todo o meu processo de formação educacional e cidadã.

A minha querida mestra Luzia Honorinda, meu profundo reconhecimento e especial carinho por onde for e enquanto viver. Na sua pessoa externo a minha homenagem a todos os meus mestres do magistério, com quem compartilhei rememoráveis momentos, nos níveis fundamental, médio e superior.

Juvenio Francisco Barbosa/Servidor Municipal e professor da Rede Estadual

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