Artigo do leitor: “A humanidade por trás do altar”

por Antonio Carlos Miranda // 03 de junho de 2026 às 13:00

Foto: reprodução

Em mais um artigo, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino destaca desta vez a questão da Síndrome de Burnout (estado de exaustão física e mental extrema causada por estresse crônico no trabalho), que atinge muitos padres. Confiram:

Há notícias que nos informam.

Outras nos inquietam.

E há aquelas que nos obrigam a parar, respirar fundo e olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer.

Foi exatamente essa sensação que experimentei ao me deparar com relatos de padres acometidos por burnout, crises de ansiedade, ataques de pânico e profundo esgotamento emocional.

Confesso que aquilo me atingiu de maneira diferente.

Talvez porque eu pertença a uma geração em que a figura do padre era envolta por uma espécie de aura quase sagrada. Quando criança, era comum pedir a bênção ao sacerdote que encontrávamos na rua. Havia respeito, reverência e, de certa forma, a impressão de que estávamos diante de alguém mais forte do que nós.

Alguém preparado para suportar aquilo que não suportaríamos.

Alguém capaz de acolher as dores dos outros sem ser alcançado pelas próprias dores.

Mas a vida, vez ou outra, nos obriga a recordar uma verdade simples e frequentemente esquecida: antes de ser padre, pastor, médico, professor, advogado ou psicólogo, existe um ser humano.

E ser humano é carregar fragilidades.

É travar batalhas silenciosas.

É enfrentar medos que ninguém vê.

É sentir o peso da solidão mesmo cercado de pessoas.

O apóstolo Paulo falava de um “espinho na carne”. Cada um de nós possui os seus.

Alguns convivem com a ansiedade.

Outros enfrentam a depressão.

Há quem lute contra a insônia, contra o esgotamento, contra o sentimento de insuficiência ou contra feridas emocionais que jamais conseguiram cicatrizar completamente.

Ninguém está imune.

Nem mesmo aqueles que dedicaram a própria vida a cuidar das feridas alheias.

A realidade revelada por esses relatos é dura.

Muitos sacerdotes administram diversas paróquias simultaneamente. Celebram missas, realizam batizados, acompanham funerais, atendem confissões, visitam enfermos, administram obras, gerenciam equipes, resolvem conflitos, participam de reuniões e, frequentemente, tornam-se referência emocional para centenas ou milhares de pessoas.

Todos procuram o padre.

Mas quem procura o homem que existe por trás da batina?

Quem percebe quando sua voz já não possui o mesmo vigor?

Quem nota quando o sorriso se tornou apenas um mecanismo de sobrevivência?

Quem pergunta se ele está bem?

Vivemos uma época estranha.

Uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, pela hiperconectividade, pelo individualismo crescente e pela falsa obrigação de demonstrar felicidade permanente.

Uma sociedade cansada.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreveu nosso tempo como a “sociedade do cansaço”.

E talvez nunca essa expressão tenha sido tão adequada.

Vejo jovens esgotados antes mesmo dos trinta anos.

Vejo profissionais adoecendo emocionalmente.

Vejo pais exaustos.

Vejo mães sobrecarregadas.

Vejo empresários sufocados.

Vejo trabalhadores sem conseguir desligar a mente.

Vejo pessoas aparentemente bem, mas internamente quebradas.

E agora vejo também sacerdotes confessando publicamente aquilo que muitos carregam em silêncio: a dor de não conseguir mais suportar o peso de todas as exigências.

A Messe continua grande.

Talvez maior do que nunca.

Mas os trabalhadores são cada vez menos numerosos.

As vocações diminuem.

As responsabilidades aumentam.

E os ombros que sustentam essa missão continuam sendo feitos da mesma matéria que os nossos.

Carne.

Osso.

Sentimentos.

Medos.

Esperanças.

Lágrimas.

Talvez o maior ensinamento desses relatos não seja sobre burnout.

Talvez seja sobre humanidade.

Talvez seja um convite para abandonarmos a expectativa cruel de perfeição que depositamos sobre aqueles que admiramos.

Padres não são anjos.

Pastores não são máquinas.

Líderes religiosos não são seres sobrenaturais.

São homens.

Homens que acreditam.

Homens que servem.

Homens que orientam.

Mas que também adoecem.

Também se cansam.

Também precisam de descanso.

Também necessitam ser acolhidos.

Também precisam ouvir palavras de encorajamento.

Também precisam sentir que não estão sozinhos.

Porque, no fim das contas, talvez a questão não seja apenas quantas pessoas eles conseguem acolher, orientar ou consolar ao longo da vida.

A questão é outra.

Estamos realmente enxergando o ser humano que existe por trás da função?

Estamos percebendo a fadiga por trás do sorriso, a solidão por trás da disponibilidade permanente, as lágrimas que muitas vezes se escondem atrás de uma palavra de fé?

Talvez o grande drama do nosso tempo seja justamente este: aprendemos a procurar quem nos escute, mas desaprendemos a escutar quem sempre esteve disponível para nos ouvir.

Aprendemos a buscar amparo, mas raramente perguntamos se aqueles que nos amparam também precisam ser amparados.

E talvez seja por isso que a notícia do adoecimento de tantos sacerdotes nos cause tanto desconforto.

Ela nos lembra algo que preferíamos esquecer.

Não existem super-heróis.

Não existem seres imunes ao sofrimento.

Existem apenas pessoas.

Pessoas que carregam a própria cruz enquanto ajudam outros a carregar as suas.

E a pergunta que fica não é dirigida apenas à Igreja.

Ela é dirigida a todos nós.

Num mundo onde tantos cuidam, orientam, acolhem e sustentam emocionalmente outras vidas, quem está cuidando de quem cuida?

E, mais importante ainda: quando foi a última vez que paramos para enxergar a humanidade daqueles que sempre enxergaram a nossa?

Rivelino Liberalino

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