Artigo do leitor: “A eleição acabou, mas as feridas não desapareceram”

por Antonio Carlos Miranda // 31 de outubro de 2026 às 12:50

Foto: reprodução

Neste artigo, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino faz uma análise ponderada do pós-eleições. Confiram:

As urnas se fecharam. O resultado foi proclamado. Mas nenhuma vitória eleitoral tem o poder de apagar as humilhações, as ofensas e os assassinatos de reputações praticados contra cidadãos pelo simples exercício de um direito constitucional.

Durante a campanha, testemunhei pessoas que considerava respeitáveis disseminarem informações falsas, reproduzirem acusações levianas e, mesmo advertidas, persistirem na desinformação. Bastava alguém manifestar apoio a Flávio Bolsonaro para ser rotulado de fascista, extremista, miliciano, misógino ou inimigo da democracia.

A divergência política transformou-se, para muitos, em autorização para destruir reputações.

Eu próprio fui chamado de extremista, miliciano, misógino e associado a comportamentos repugnantes, absolutamente incompatíveis com minha história e meus princípios. Não preciso fazer inventário das minhas virtudes. Quem conhece minha trajetória pessoal e profissional conhece meu caráter. Minha consciência não depende de certificados ideológicos, tampouco minha honra pode ser anulada por acusações irresponsáveis.

Sou um operário do Direito. Trabalho há décadas, frequentemente de domingo a domingo, enfrentando responsabilidades e dificuldades que poucos imaginam. E foi doloroso perceber que, para determinadas pessoas, uma escolha eleitoral bastava para desconsiderar toda uma existência.

Vi o ressentimento encontrar abrigo na política. Vi a inveja disfarçar-se de justiça social. Vi pessoas celebrarem não apenas a vitória de seu candidato, mas a suposta humilhação de quem pensava diferente. Que extraordinária contradição: exigir tolerância enquanto se pratica a intolerância!

Essa cultura de desqualificação não começou agora. Basta recordar as campanhas contra Marina Silva, quando acusações e mensagens alarmistas sobre programas sociais marcaram a disputa eleitoral. A memória política não deveria ser apagada pela conveniência das alianças posteriores.

Recentemente, deparei-me com uma publicação institucional reafirmando a defesa da liberdade de expressão, do pluralismo político e da proteção contra retaliações motivadas por escolhas eleitorais. Princípios irretocáveis, cuja importância jamais questionei. Mas a leitura despertou uma inquietação: por que essas manifestações parecem ganhar maior visibilidade somente depois que tantas reputações já foram atingidas e tantas relações pessoais foram destruídas? Não questiono a legitimidade da manifestação, tampouco afirmo que tenha havido silêncio absoluto anteriormente. Questiono algo mais profundo: a necessidade de que a defesa das liberdades seja permanente, uniforme e independente das conveniências políticas.

Direitos fundamentais não podem ser tratados como privilégios circunstanciais. A Constituição não escolhe quem merece proteção conforme a preferência eleitoral.

Há ainda uma realidade frequentemente esquecida: milhões de eleitores que apoiaram Flávio Bolsonaro continuam trabalhando, produzindo, pagando impostos, empregando e consumindo. Não perderam sua dignidade nem sua importância social porque seu candidato foi derrotado.

Não defendo retaliações ou boicotes. Mas ninguém pode exigir que a confiança destruída seja automaticamente restaurada por interesses comerciais ou conveniências pessoais.

Quanto a mim, não permitirei que a intolerância transforme minha natureza. Continuarei respeitando as pessoas e praticando a solidariedade. Entretanto, serei mais criterioso com minha confiança e minha disponibilidade. A generosidade não exige submissão à ingratidão, e o perdão não impõe o esquecimento.

Reconheço que houve excessos de diferentes lados. Mas isso não elimina a responsabilidade individual de quem ofendeu, difamou ou compartilhou acusações sem fundamento.

Aos que participaram desse ambiente de hostilidade, deixo algumas perguntas: quantas reputações ajudaram a destruir? Quantas amizades sacrificaram? Quantas pessoas julgaram sem conhecer? E quantas vezes tiveram a grandeza de reconhecer seus erros? A democracia exige mais do que aceitar resultados eleitorais. Exige respeitar a dignidade humana, inclusive de quem pensa diferente.

Vencer uma eleição não significa conquistar superioridade moral. E nenhuma vitória nas urnas absolve a crueldade praticada contra o próximo.

As urnas registram votos. A memória registra comportamentos.

Porque perder uma eleição é circunstancial. Perder a humanidade para vencer uma eleição é uma derrota que nenhuma urna consegue reparar.

Rivellino Liberalino

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