Artigo do leitor: “A cadeira de rodas, o confessionário e a cruz”

por Antonio Carlos Miranda // 03 de julho de 2026 às 20:15

Foto: divulgação

Neste artigo o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, faz mais uma de suas reflexões pertinentes sobre religiosidade. Confiram:

Um reencontro na Catedral de Petrolina que me fez compreender, mais uma vez, que a maior prova de fé não é a ausência da dor, mas a perseverança em meio a ela.

Todas as quintas-feiras, fiel a um compromisso que assumi com Deus e comigo mesmo, procuro reservar um momento que considero sagrado. Caminho até a Catedral de Petrolina para me prostrar diante do Santíssimo Sacramento. Não vou apenas para fazer pedidos. Vou para silenciar, agradecer pelas graças já recebidas, colocar diante do Senhor as pessoas que amo e confiar a Ele as inquietações que sozinho não conseguiria carregar. É nesse silêncio que a alma encontra repouso e que, muitas vezes, Deus fala sem palavras.

É ali que apresento ao Altíssimo uma oração que me acompanha há muitos anos:

“Senhor, onde o cinzel da dor ainda não conseguiu me lapidar, concede-me a graça de permitir que Tu completes essa obra. Torna-me um homem melhor, um pai melhor, um esposo melhor, um profissional mais justo e, sobretudo, um ser humano mais próximo daquilo que desejaste quando me criaste.”

Não peço uma vida sem dificuldades. Peço apenas que cada experiência tenha sentido e que eu jamais desperdice as lições que ela pode oferecer.

A Catedral também se transformou, ao longo dos anos, em um lugar de reencontros. Reencontros com Deus, comigo mesmo e com pessoas que fizeram parte da minha infância e juventude na Petrolina das décadas de 1970 e 1980. Rostos que o tempo modificou, mas que a memória preservou com impressionante nitidez.

Na última quinta-feira, enquanto cumpria esse compromisso semanal de adoração, encontrei um antigo colega do Colégio Dom Bosco. Na juventude, era daqueles rapazes impossíveis de passar despercebidos. Comunicativo, brincalhão, irreverente, inquieto e dono de uma alegria contagiante, parecia carregar uma energia inesgotável.

Algum tempo depois, a vida lhe impôs uma prova devastadora. Um grave acidente o deixou em coma. Recordo-me perfeitamente daquele período. Na mesma época em que acompanhava de perto os problemas de saúde do meu avô, encontrei sua mãe em um hospital de Petrolina. Jamais esqueci aquela cena.

Enquanto muitos já viam apenas um prognóstico sombrio, ela continuava vendo um filho. Enquanto a medicina reconhecia os limites da ciência, aquela mãe insistia na força da esperança. Seu olhar traduzia uma confiança que somente o amor é capaz de sustentar.

Deus permitiu o milagre da vida. Contudo, nem todo milagre elimina as marcas do sofrimento. Algumas cicatrizes permanecem e passam a fazer parte da própria história da pessoa.

Décadas se passaram.

Encontrei novamente aquele antigo colega. Agora, sentado em uma cadeira de rodas, com limitações severas, dependente de terceiros para tantos gestos simples da vida cotidiana.

Observava discretamente quando ele se dirigiu ao confessionário. Naquele instante, uma pergunta atravessou minha alma com enorme intensidade: Que pecados ainda poderia confessar um homem cuja liberdade física foi tão profundamente reduzida?

A resposta surgiu quase imediatamente, como uma inspiração silenciosa.

O pecado nunca habitou apenas os movimentos do corpo. O verdadeiro campo de batalha do ser humano sempre foi o coração.

Mesmo quando as pernas já não caminham, continuam existindo o orgulho, a impaciência, a revolta, o ressentimento, a falta de perdão, a desesperança e tantas outras fragilidades que somente Deus conhece em profundidade.

Todos nós, independentemente de nossa condição física, permanecemos necessitados da misericórdia divina.

Essa cena também me levou a refletir sobre uma compreensão equivocada da fé que, infelizmente, por vezes ganha espaço em nossos dias: a ideia de que seguir a Deus significa viver protegido de todo sofrimento.

Basta, porém, contemplar a história do cristianismo para perceber exatamente o contrário.

Jesus nasceu na simplicidade, experimentou a perseguição desde os primeiros dias de vida, conheceu o exílio, foi traído, abandonado, humilhado e, por fim, crucificado entre dois ladrões.

Sua mãe, Maria, acompanhou todo esse caminho de dor, permanecendo firme aos pés da cruz. Também a tradição cristã nos ensina que quase todos os apóstolos selaram a própria fé com o martírio. Somente João Evangelista morreu de forma natural, depois de uma vida inteira dedicada ao anúncio do Evangelho.

E foi Paulo de Tarso, já consciente da proximidade da morte, quem deixou uma das mais belas declarações de confiança da história cristã: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”

Ele não falou em conforto.

Não falou em prosperidade.

Falou em fidelidade.

Lembrei-me também do testemunho deixado pelo Papa Francisco em seus últimos tempos. Mesmo debilitado pela enfermidade, enfrentando limitações físicas e respiratórias, permaneceu exercendo seu ministério com serenidade e dignidade enquanto lhe foi possível.

Sua fragilidade não diminuiu sua grandeza; ao contrário, tornou seu testemunho ainda mais eloquente.

Mostrou ao mundo que a verdadeira fortaleza nem sempre está na ausência da dor, mas na coragem de permanecer fiel quando o corpo já não responde como antes.

Saí da Catedral profundamente tocado.

Aquele antigo colega, cuja juventude foi marcada pela vitalidade e cuja maturidade foi atravessada por uma cruz tão pesada, talvez jamais imagine a dimensão do ensinamento que me proporcionou naquele breve encontro.

Sua cadeira de rodas limitou seus movimentos, mas não aprisionou sua alma.

Ao vê-lo buscar o sacramento da reconciliação, compreendi que a maior liberdade continua sendo a interior, aquela que nasce da consciência reconciliada com Deus.

Vivemos em uma sociedade que idolatra o sucesso, a aparência, a juventude e a autonomia.

Esquecemos, muitas vezes, que o verdadeiro valor de uma pessoa não está naquilo que ela consegue fazer, mas na dignidade que conserva mesmo quando tudo lhe foi retirado.

A cruz jamais foi um símbolo de derrota para o cristão.

Tornou-se, paradoxalmente, o maior símbolo de esperança. Na próxima quinta-feira, quando novamente me prostrar diante do Santíssimo Sacramento, sei que minha oração será diferente.

Levarei comigo, além das intenções de sempre, a lembrança daquele reencontro.

Porque Deus, muitas vezes, responde às nossas orações não apenas pelo que ouvimos no silêncio da adoração, mas também pelas pessoas que coloca discretamente em nosso caminho.

Naquela tarde, a cadeira de rodas, o confessionário e a cruz transformaram-se, para mim, em uma única homilia.

E saí da Catedral convencido de que a maior prova da presença de Deus não é uma vida sem sofrimento, mas a graça de permanecer de pé na fé, mesmo quando o corpo já não consegue fazê-lo.

Continuarei repetindo minha oração de todas as quintas-feiras, pedindo que o Senhor complete em mim aquilo que a dor ainda não conseguiu lapidar. Mas agora acrescentarei uma súplica nova: que eu jamais perca a sensibilidade para reconhecer, nas cruzes silenciosas dos outros, as lições que nenhuma universidade, nenhum livro e nenhuma experiência profissional seriam capazes de ensinar.

Porque, no fim das contas, talvez a grande pergunta da vida nunca seja “Por que sofremos?”, mas “O que estamos permitindo que Deus faça em nós por meio do sofrimento?”

Essa resposta cada um de nós precisará construir, um passo de cada vez, com fé, humildade e perseverança.

Rivelino Liberalino

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Últimos Comentários