Artigo do leitor: “As vísceras expostas do STF e os impactos disso nas eleições de 2026”

por Antonio Carlos Miranda // 16 de setembro de 2026 às 11:00

Foto: reprodução – arquivo Blog

A jornalista e professora Vera Medeiros faz, neste artigo, uma análise profunda sobre a histórica sessão de ontem (15) no Supremo Tribunal Federal. Confiram:

Não será possível esquecer o que todos os brasileiros acompanharam durante esta terça-feira (15 de setembro), ao longo de uma vergonhosa sessão pública do Supremo Tribunal Federal: a Suprema Corte do país morreu eticamente, e suas vísceras foram expostas em rede nacional, sob o espanto de uma sociedade cada vez mais incrédula de suas instituições.

Os companheiros ideológicos do ministro Alexandre de Moraes encontraram um modo de adiar (quiçá, enterrar) a decisão de investigar o colega que está sob robustas suspeitas de manter com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro uma relação corrupta, exposta em mensagens adquiridas pela Polícia Federal. São contratos milionários com escritório da esposa e até uma espécie de consultoria do ministro ao bandido sobre ‘fugir ou não do país’, nas vésperas da prisão, em novembro de 2025.

E o que aconteceu nesta terça não se trata, simplesmente, de “corporativismo” da maioria. Estamos diante da certeza de uma “corrupção estrutural” que domina as instituições brasileiras.

Essa corrupção estrutural revela, também, um Senado com entranhas comprometidas por denúncias igualmente ligadas ao banqueiro Vorcaro e, portanto, com nenhuma condição moral de promover impeachment de ministro do Supremo implicado em corrupções.

E as torcidas organizadas, dominadas pela patológica polarização política que adoece este país há anos, comportam-se acefalamente (e, aqui, incluo, até mesmo, alguns veículos de comunicação), ao postarem, em redes sociais, que esse ou aquele ministro fora o “craque do jogo” durante a sessão, porque teria “salvado” as eleições.

Então, perguntamos: salvou a eleição de quem?

A cegueira cívica é tão grave, que não conseguem enxergar o impacto que tudo isso pode ter sobre o resultado final da escolha presidencial deste ano.

Na tentativa imoral de salvar o colega de toga, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin podem ter feito um gol eleitoral contra. Por quê?

A figura de Alexandre de Moraes, de Dias Tofolli (acusados de corrupção) e de Flávio Dino, o protagonista da vergonha Suprema da sessão desta terça, pedindo vista para livrar Moraes de uma possível e necessária investigação, está historicamente ligada ao presidente Lula, candidato à reeleição. Não por acaso, Lula se pronunciou logo depois do final da lamentável sessão para dizer que “todos devem ser investigados”. Ele sabe que o que aconteceu será usado pela campanha de Flávio Bolsonaro, mesmo havendo sobre este indicações de relação com o banqueiro Vorcaro, quanto ao financiamento de milhões para o filme “Dark Horse”, cinebiografia do o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ficará sobre Lula a pressão de ter que dar nome “a quem deve ser investigado”. Terá que ter coragem de citar Moraes, Toffoli e quem quer que seja, como fez com o filho, investigado por suposta ligação com desvios de dinheiro descontado dos aposentados do INSS.

Os dados da última pesquisa Quest, os quais indicaram empate técnico entre Flávio e Lula no segundo turno, já apontam ao abalo que o escândalo envolvendo Alexandre de Moraes estaria causando na campanha petista.

Os efeitos numéricos definitivos causados por tudo isso estarão, de fato, ligados ao uso eleitoral que será feito nos próximos dias. Será uma espécie de jogo em que o mover estratégico das pedras pelas duas campanhas será fundamental. Mas é fato que jogar na defesa não será a maneira mais inteligente dos articuladores da campanha petista. Terão de encontrar meios atacar. E eles sabem disso.

E quanto ao Supremo?  Resta à sociedade brasileira alentar-se com a voz da ministra Carmem Lúcia que, em um mea culpa, disse estar muito triste e envergonhada com o que está acontecendo e pediu desculpas ao país, afirmando que o “Supremo provocou mal-estar cívico”.

Eu quero reforçar a fala da ministra e dizer que o Supremo não causou apenas ‘mal´-estar’ a todos nós. A Corte nos causou indignação, revolta por vermos um Supremo capturado pela corrupção.

Aos jovens, infelizmente, há uma lição prática daquilo que Caetano Veloso afirma em sua canção: “Enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam o sinal vermelho”. Como será possível ao brasileiro desta geração acreditar que ele tem de honrar as leis do seu país, enquanto estas são vergonhosamente sepultadas por sua Suprema Corte?

Vera Medeiros/Professora, Jornalista e Cidadã

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