Passada a ‘ressaca’ de mais um fracasso da seleção brasileira numa Copa do Mundo, o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, faz uma crônica pertinente sobre o assunto. Confiram:
Não sou técnico de futebol.
Sou apenas mais um brasileiro entre os mais de 200 milhões que aprenderam, ainda na infância, a amar aquela camisa amarela que, durante décadas, pareceu representar muito mais do que uma seleção. Ela representava um povo inteiro.
Nasci em 1970, no ano do tricampeonato mundial. Carrego, por um daqueles caprichos felizes da vida, o nome de um dos maiores craques da história do futebol: Rivellino. Talvez por isso muitos imaginem que eu escreveria frequentemente sobre esse esporte que tanto nos apaixonou. Curiosamente, aconteceu exatamente o contrário. Desde a Copa de 2014, confesso que perdi boa parte daquele encantamento que fazia o coração acelerar dias antes de uma partida da Seleção. O futebol continuou sendo importante, mas já não ocupava o mesmo lugar dentro de mim.
Eu não pretendia escrever uma única linha sobre esta Copa. Mas, no domingo, aconteceu algo que me desarmou completamente. Olhei para os meus filhos. Vi a tristeza estampada em seus rostos. Vi aquele silêncio que só quem ama o futebol consegue compreender. Depois, vi imagens de crianças e adolescentes chorando pelo Brasil afora e também me veio à lembrança das minhas lágrimas pela desclassificação em 1982. Naquele instante, compreendi que, por mais racional que tentemos ser, a Copa do Mundo ainda toca um lugar muito profundo da alma brasileira. Foi por eles que resolvi escrever. Não para falar de esquema tático, nem para discutir escalação, muito menos para apontar culpados individuais.
O que o Brasil colheu no domingo não nasceu em noventa minutos. Nenhum fracasso nasce de um único jogo. As derrotas costumam ser apenas a fotografia de processos que vêm sendo construídos durante muitos anos. Durante décadas, acreditamos que bastava sermos o Brasil, que nossa história venceria por nós e que as cinco estrelas ostentadas no peito seriam suficientes para intimidar qualquer adversário. Enquanto descansávamos sobre as glórias do passado, como se estivéssemos deitados eternamente em berço esplêndido, o mundo resolveu trabalhar.
Hoje o futebol é infinitamente mais equilibrado e competitivo. Países antes considerados periféricos investiram pesado em formação de atletas, gestão, ciência, tecnologia, planejamento e profissionalismo. O talento continua sendo indispensável, mas já não vence sozinho. E nós? Ao longo das últimas décadas, presidentes da CBF foram investigados; alguns acabaram banidos pela FIFA por violações éticas, outros foram presos e condenados no exterior por crimes relacionados ao futebol internacional. Mais recentemente, a entidade voltou a viver disputas judiciais, afastamentos de dirigentes e novas controvérsias que desgastaram ainda mais sua imagem.
Inclusive, chegamos a esta Copa do Mundo com a atual gestão da CBF novamente envolta em forte desgaste político e institucional. O então presidente da entidade enfrentava intensa pressão para deixar o cargo em razão de denúncias envolvendo o suposto uso de recursos da confederação para custear despesas de natureza pessoal. Mais uma vez, a Seleção Brasileira iniciava uma Copa sob a sombra de controvérsias extracampo, evidenciando que os problemas da administração do futebol nacional continuam a repercutir muito além dos bastidores.
Quando uma instituição passa a frequentar mais as páginas policiais e os tribunais do que as páginas esportivas, algo deixou de funcionar. Nenhuma organização permanece grande quando sua liderança deixa de inspirar confiança. A Seleção Brasileira sempre foi maior do que seus dirigentes. Mas nenhuma instituição consegue permanecer no topo quando planejamento, transparência e responsabilidade deixam de ser prioridades. Ao mesmo tempo, o crescimento das apostas esportivas passou a desafiar a credibilidade do esporte em escala mundial, exigindo mecanismos cada vez mais rigorosos de integridade e transparência. Nada disso, isoladamente, explica uma derrota. Mas tudo isso ajuda a compreender por que deixamos de ser aquela referência quase incontestável que um dia fomos.
Apesar disso, existe algo extraordinário na Copa do Mundo. Talvez nada consiga unir tanto o Brasil. Durante alguns dias desaparecem, ainda que temporariamente, muitas das divisões que tanto nos machucam. Vestimos a mesma camisa, cantamos o mesmo hino, rezamos pela mesma vitória e torcemos lado a lado. Por alguns instantes, deixamos de ser adversários políticos para voltarmos a ser simplesmente brasileiros. E isso, num país tão dividido, vale muito.
Ao assistir aos jogos desta Copa, confesso que também aprendi. Vi seleções que talvez não possuam o nosso talento individual, mas que compensam isso com organização, disciplina e uma entrega emocionante. Vi jogadores correndo como se cada bola fosse a última de suas carreiras. Vi equipes que entenderam que nenhuma estrela substitui o trabalho coletivo. Também vi gestos que restauram a beleza do esporte: atletas reconhecendo o valor dos adversários, humildade nas vitórias e respeito nas derrotas. Lembrei-me, por exemplo, das palavras de Erling Haaland, que tantas vezes declarou sua admiração pelo futebol brasileiro e revelou ter crescido inspirado pelos nossos craques.
É curioso. Enquanto o mundo continua admirando o Brasil que encantou gerações, somos nós mesmos que, em alguns momentos, parecemos esquecer quem somos. Talvez a maior derrota não seja perder uma Copa. Talvez seja perder nossa identidade. Perder a capacidade de planejar. Perder a disciplina. Perder o senso de responsabilidade. Perder a convicção de que excelência não nasce do improviso, mas da constância.
E essa reflexão não termina no futebol. Ela alcança o Brasil. Estamos nos aproximando de mais um período decisivo para a nossa democracia. Em breve escolheremos deputados, senadores, governadores e o Presidente da República. Faço apenas um pedido, sem pretensão de convencer ninguém: que votemos com consciência; que deixemos de lado a idolatria; que abandonemos a lógica dos políticos de estimação; que observemos história, preparo, caráter, compromisso e resultados. As honrosas exceções existem e precisam ser valorizadas, mas o Brasil já pagou caro demais por escolhas feitas apenas pela emoção.
Nenhuma seleção se torna campeã sem planejamento. Nenhum país prospera sem responsabilidade. Nenhuma sociedade evolui terceirizando sua consciência. Talvez seja essa a grande lição desta Copa. Nenhum uniforme ganha sozinho. Nenhuma tradição garante vitórias eternas. Nenhuma estrela no peito substitui trabalho sério.
Ainda assim, termino com esperança. Porque, enquanto um pai se emociona ao ver os filhos chorarem por uma derrota da Seleção, significa que o futebol ainda consegue despertar aquilo que há de mais bonito dentro de nós: a capacidade de sonhar juntos. E enquanto um país inteiro veste a mesma camisa, canta o mesmo hino e compartilha a mesma expectativa, continuo acreditando que existe algo capaz de nos unir acima de todas as diferenças.
Que essa derrota nos ensine. Não apenas a buscar uma sexta estrela. Mas, sobretudo, a construir um Brasil mais sério, mais justo, mais responsável e mais digno da paixão que seu povo continua demonstrando dentro e fora dos gramados.
Rivelino Liberalino


