O mês de maio é, historicamente, o período mais crítico para o sistema de saúde do interior de Pernambuco: o pico das doenças respiratórias agudas graves. Mas, para além dos diagnósticos médicos, maio se consolidou como o mês do esgotamento físico e mental de médicos, enfermeiros e técnicos que atuam na linha de frente da urgência e emergência.
Na linha de frente desse cenário está o Hospital Dom Malan (HDM), em Petrolina. Mesmo com toda dificuldade, a unidade se preparou para o impacto deste ano. Em tempo recorde, abriu 10 novos leitos de UTI pediátrica e, ao todo, mobilizou 36 leitos entre pronto-socorro e enfermarias, além de contratar 130 novos profissionais.
Ainda assim, a unidade vive hoje um cenário de dificuldade operacional e superlotação extrema. O motivo? A estrutura física do HDM tem limites — são 93 anos de fundação —, mas a demanda que bate à sua porta parece infinita. Como uma unidade de “porta aberta” do SUS, o Dom Malan é obrigado a receber qualquer paciente que chegue, mesmo que não haja uma única cama disponível. Hoje os corredores e a recepção estão lotadas. Nos leitos não cabe mais ninguém.
A superlotação gera situações dramáticas que desafiam a segurança dos pequenos pacientes. Recentemente, a unidade — já superlotada — precisou acolher uma criança com uma doença altamente contagiosa e para evitar um surto e proteger os demais internados, a equipe médica foi obrigada a remanejar e “amontoar” outras crianças em espaços já saturados.
É o reflexo de um sistema que acolhe por humanidade e obrigação legal, mas que opera sufocado pela falta de espaço físico.
Referência
O HDM não atende apenas Petrolina. Ele é a referência para casos graves de 53 municípios da região da Macrorregião de Saúde. O sofrimento das crianças internadas e a exaustão dos profissionais não são fatalidades da natureza: são o resultado de uma conta matemática que a política regional insiste em não fechar.
A conta é simples: faltam barreiras na atenção básica para que o Dom Malan respire e atenda com a dignidade que toda criança merece, a solução é conhecida: barreiras de atendimento. Se os postos de saúde (APS) e os hospitais municipais das 53 cidades vizinhas funcionassem com estrutura profissional adequada, inclusive aos finais de semana e feriados, as crianças seriam tratadas logo nos primeiros sintomas de gripe. O quadro não evoluiria para uma pneumonia grave, e elas não precisariam parar na UTI do HDM.
Na prática, o que se vê é uma transferência de responsabilidade. Por falta de continuidade nas ações políticas efetivas na saúde primária e de investimentos nos hospitais locais por parte das prefeituras, a bomba relógio estoura em um único lugar: O HDM carrega sozinho o peso que deveria ser dividido entre os municípios e a gestão estadual de forma integrada.
À comunidade, cabe o olhar de sensibilidade e empatia. Os profissionais que ali estão — muitas vezes estendendo plantões e trabalhando sob intensa pressão psicológica — estão operando no limite das forças humanas para salvar vidas. A culpa pelas longas esperas ou pela falta de leitos não é de quem veste o jaleco, mas de quem planeja a rede de saúde do lado de fora do hospital.
As mães, pais e responsáveis que veem seus filhos sofrendo em corredores precisam saber que a indignação é justa, mas o alvo deve ser a ausência de força e vontade política. Enquanto a saúde básica dos municípios for tratada como plano secundário, o mês de maio continuará sendo o retrato mais doloroso da negligência com a infância no Sertão. É hora de cobrar que cada prefeito, deputado e gestor façam a sua parte, antes que o sistema colapse de vez.



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