Neste novo artigo, o colaborador Rivenilo Liberalino reflete sobre as consequências profundas da traição e a forma como ela tem sido banalizada na sociedade contemporânea. Partindo de episódios recentes que ganharam repercussão pública, ele argumenta que a infidelidade não é apenas um erro íntimo, mas uma ruptura que pode provocar danos emocionais duradouros e desestruturar famílias. O texto propõe uma reflexão sobre compromisso, responsabilidade emocional e o valor da confiança nas relações humanas.
Confiram:
Ano passado, o mundo assistiu, em um show do Coldplay, a uma cena que viralizou como se fosse romance. Um casal abraçado, sorrindo, se tocando com a naturalidade de quem se sente protegido pela multidão, pela música, pela noite. Um momento que, para muitos, pareceu apenas mais um recorte bonito de um espetáculo bonito. Mas havia um detalhe cruel, quase obsceno: ao que tudo indicava, cada um deles tinha outra pessoa esperando em casa. Quando perceberam a câmera, tentaram esconder o rosto. E esse gesto, aparentemente simples, disse tudo. Eles não esconderam por arrependimento. Esconderam por medo da exposição.
E ali, naquele segundo, ficou escancarado o retrato do nosso tempo: não é mais a consciência que freia. É a possibilidade de ser descoberto. Não é mais a vergonha do erro. É a vergonha pública. Não é mais a dor de ter ferido alguém. É o medo de perder a imagem. Aquela cena virou meme. Virou piada. Virou “fofoca”. Virou assunto leve em rodas de conversa. Virou entretenimento. Mas para quem ainda tem alma, virou um aviso.
Porque a traição, essa mentira que antes carregava o peso do pecado e da vergonha, hoje tem sido tratada como se fosse apenas uma “aventura”. Como se fosse uma experiência. Como se fosse um direito. Como se fosse uma fase. Como se fosse algo inofensivo. E não é. Traição não é um beijo. Traição não é um corpo. Traição não é “um momento”. Traição é uma ruptura. É a profanação de uma confiança que alguém depositou em você com a fé inteira. É o assassinato silencioso de uma história. É quebrar a palavra dada. É pisar no altar invisível onde um dia duas pessoas decidiram construir uma vida. E o mais perverso é que a traição quase nunca começa no quarto. Ela começa na alma.
Começa quando você permite uma conversa que não deveria existir. Quando você alimenta uma intimidade que não é sua. Quando você se coloca em situações que exigem mentira para sobreviver. Quando você passa a viver uma vida paralela, ainda que só dentro do celular. Traição é um laboratório de falsidade. E mentira, meu amigo, minha amiga, não é neutra. Mentira é corrosiva. Mentira não fica parada num canto da casa. Mentira se espalha.
Ela corrói o traidor.
Corrói o traído.
Corrói os filhos.
Corrói o respeito.
Corrói a paz.
Corrói a estrutura.
E corrói, sobretudo, a coisa mais rara do mundo: confiança.
A psicologia explica algo que o romantismo barato não quer admitir: a pessoa traída não sofre apenas “tristeza”. Ela entra, muitas vezes, em estado de choque. Em colapso. Em desorganização emocional profunda. Há estudos que comparam o impacto psicológico da traição ao estado de alerta de quem vai para a guerra. Porque a traição não é só a perda de um relacionamento. É a perda da realidade. O traído olha para os últimos anos e se pergunta: era tudo mentira? Eu vivi com quem? Eu fui amado ou fui usado? Eu fui companheiro ou fui apenas conveniente? E essa pergunta destrói por dentro. A traição mata o chão.
E quando o chão some, tudo vira risco. Tudo vira ameaça. Tudo vira desconfiança. A pessoa passa a duvidar do outro, mas também duvida de si. Duvida da própria intuição. Duvida do próprio valor. Duvida do próprio olhar. E então veio Itumbiara. Agora, a tragédia não foi filmada por uma câmera. Foi escrita com sangue. Um homem, ao saber de uma traição, matou os próprios filhos e tirou a própria vida. E como se isso já não fosse o inferno, o pai da mulher, o sogro, sobre quem pesou o choque, o escândalo, a vergonha e a dor, infartou. Em estado gravíssimo.
É uma tragédia que não deveria ser tratada como “notícia policial”. Porque isso não é apenas crime. Isso é o retrato de uma sociedade adoecida. E aqui eu preciso dizer com todas as letras, sem covardia e sem maquiagem: Nada, absolutamente nada, justifica matar. Quem mata inocentes é criminoso. Quem mata filhos é covarde. Quem transforma dor em carnificina perdeu o último pedaço de humanidade. Isso é indiscutível.
Mas também é indiscutível outra verdade que muitos fingem não ver: Traição não é “coisa pequena”. Traição não é “só um erro”. Traição não é “só uma escapada”. Traição não é “só um impulso”. Traição é uma violência emocional de alto impacto. E quem brinca com isso, brinca com explosivo. O mundo moderno vende traição como se vendesse perfume. Como se vendesse roupa. Como se vendesse experiência. Há aplicativo. Há sigilo. Há “discrição”. Há motel tratado como “aventura”. Há gente que se orgulha. Há gente que posa de livre. Há gente que chama covardia de autenticidade.
Mas o nome disso não é liberdade. É dopamina barata. É o prazer rápido. É o fetiche vulgar. É a satisfação instantânea que dura minutos e custa uma vida inteira. E o que é mais assustador: tem gente que joga tudo no lixo por isso. Uma família. Uma casa. Uma história. Uma mãe. Um pai. Dois filhos. Tudo por um momento. Por um corpo. Por um vazio.
Casamento é difícil? Sim. E é por isso que é sagrado.
Casamento não é conto de fadas. É oficina. É construção. É lapidação. É um lugar onde duas pessoas diferentes, com crenças, traumas, temperamentos e desejos distintos, tentam criar algo maior do que o próprio ego. E isso dói. Viver a dois é, muitas vezes, como colocar duas pedras pontiagudas dentro de uma garrafa e sacudir: elas se chocam, se ferem, se atritam… até que se limam, até que se lapidam, até que se tornam mais arredondadas. Essa é a beleza. O amor verdadeiro não é o amor que “sente” sempre. É o amor que escolhe. Amar é decisão diária.
É dizer “não” quando o mundo oferece “sim”. É manter a palavra quando o desejo pede desculpa. É proteger a casa quando o ego quer aplauso. E chega dessa conversa infantil de que “homem é assim” ou “mulher é assim”. Desejo existe em todos. Homem sente. Mulher sente. Homem deseja. Mulher deseja. A diferença entre um ser humano íntegro e um ser humano fraco não está no desejo.
Está na capacidade de dizer: Eu posso, mas eu não vou. Porque caráter é isso. Não é ausência de tentação. É presença de limites. E há algo que quase ninguém fala, mas deveria ser dito com a dureza necessária: Traição não destrói apenas o casal. Ela destrói o lar. E filhos são radar emocional. Eles percebem o silêncio. Percebem o olhar quebrado. Percebem a frieza. Percebem a tensão.
Eles crescem num ambiente onde o amor vira suspeita. Onde a casa vira campo minado. Onde a palavra perde valor. Onde o respeito morre, mas a aparência continua viva. E aí você entende por que há tanta gente quebrada por dentro. Porque tem muita criança sendo criada em lares onde a verdade foi assassinada, mas a foto de família continua no porta-retrato.
“Mas existe divórcio desde 1977…” Sim. E existe dignidade desde sempre.
Separação é dolorosa, mas pode ser honesta. Divórcio é triste, mas pode ser humano. Traição é o caminho mais covarde. É continuar com alguém e, ao mesmo tempo, destruí-lo. É usar o outro como base emocional enquanto se entrega ao prazer fora. É manter a casa de dia e profanar a história de noite. Isso não é liberdade. Isso é crueldade.
Coldplay foi ano passado. Itumbiara é hoje. E o que liga os dois não é a música, nem a câmera, nem o escândalo. O que liga os dois é a mesma doença: a normalização da mentira. O que liga os dois é a mesma decadência: a transformação do compromisso em piada, do respeito em atraso, da fidelidade em ingenuidade. E agora eu te pergunto, com toda a seriedade que a vida exige, sem romantização e sem desculpa: Vale a pena destruir uma família inteira por alguns minutos de dopamina barata?
Rivelino Liberalino



Prezados leitores e leitoras do Blog do Carlos Britto,
Antes de qualquer coisa, é preciso fazer um esclarecimento simples, mas necessário: tudo o que eu subscrevo aqui é fruto exclusivo da minha reflexão. O blog, com grandeza e maturidade, abre espaço para ideias plurais, para leituras diversas, para textos que provoquem pensamento, incômodo, pausa e consciência.
O problema é que, em tempos de polarização e de leitura apressada, parece que o autor precisa publicar uma crônica já acompanhada de “manual de interpretação”, como se cada parágrafo tivesse que vir com legenda, bula e tradução simultânea.
Mas isso não existe.
E nunca existiu.
Se nem Cristo, em sua perfeição, agradou a todos, que dirá um simples mortal tentando traduzir dores humanas em palavras.
Feito esse registro, vamos ao essencial.
O texto em questão não ataca ninguém.
Não aponta nomes.
Não acusa pessoas.
Não sugere que “alguém traiu alguém”.
O texto faz algo muito mais profundo e, talvez por isso, mais desconfortável: ele fala das consequências.
Fala da traição como fenômeno social.
Fala da tragédia como espelho moral.
Fala da banalização do prazer.
Fala de um tempo em que a consciência perdeu força e a exposição virou o único freio.
O alerta do texto é um só, e ele é duro:
mentira não é brincadeira.
traição não é pequena.
a cultura moderna está dessensibilizada.
e o preço dessa decadência não é pago por quem ri, é pago por famílias inteiras.
O texto denuncia, com tristeza, a lógica cruel do nosso tempo:
primeiro a sociedade faz piada, normaliza, romantiza, transforma em meme.
Depois, quando o resultado vira sangue, vira luto, vira tragédia… aí sim todos fingem espanto.
Mas o coração moral do texto está resumido numa pergunta final, que é a alma de tudo:
Vale a pena destruir uma família inteira por alguns minutos de dopamina barata?
Essa é a tese.
Esse é o manifesto.
Um manifesto contra o prazer sem responsabilidade.
Contra a liberdade sem consequência.
Contra a cultura do “ninguém deve nada a ninguém”, que termina deixando rastros de dor, crianças feridas, lares quebrados e almas adoecidas.
E faço questão de dizer, com serenidade:
Quem acompanha meus textos sabe.
Eu escrevi “A Mulher que Ficou Quando Ninguém Via” para honrar a dignidade silenciosa.
Eu já escrevi exaltando o amor que permanece.
Eu já escrevi defendendo a família, não como discurso moralista, mas como lugar de humanidade.
Por isso, não há aqui tribunal.
Não há sentença.
Não há pedra na mão.
Até porque eu não me coloco no lugar de juiz de ninguém.
Cristo foi claro: “aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra.”
E eu, definitivamente, não sou esse.
O que existe no texto é um pedido, quase um apelo:
que a sociedade pare de tratar como “normal” aquilo que, no fundo, destrói.
Que pare de aplaudir o que adoece.
Que pare de chamar de liberdade aquilo que, na prática, é só abandono emocional, irresponsabilidade e vaidade.
E, por fim, se alguém leu com pressa, com raiva, com filtro ideológico, ou com vontade de encontrar “um alvo”, eu peço apenas uma coisa:
leia de novo.
Com calma.
Com coração.
Porque quem vive de julgar uma frase geralmente não tem tempo de amar uma vida inteira.
E o meu texto, em essência, foi isso:
um chamado ao amor responsável.
Um chamado à consciência.
Um chamado para que a tragédia não seja o único momento em que a sociedade volte a sentir.
Que Deus abençoe a todos nós .
Grande manifestação do eminente escritor. É desse jeito que a coisa anda no mundo. Não à toa, consta no Livro Santo: o mundo jaz no malígno.
Não podemos romantizar é a premeditação da morte de duas crianças por um homem que tinha o dever de proteger e zelar pela vida dos pequenos, também conhecido como o PAI das vítimas.
Estive na primeira noite de Carnaval em Petrolina, uma das atrações, Filipe Santos, incentivando traições, como deve ser os homens na hora H, artista sem nenhuma consciência do que ele falou pode influenciar negativamente, inclusive tinha muitas crianças com suas famílias assistindo. ” aqui só sem tem dois tipos de pessoas, as que já foram traídas e as que ainda vão ser”. ” As mulheres estão reclamando que os homens de hoje estão sem graça na hora H, não estão gemendo mais, tem que gemer gente”, achei bem desnecessário.
Infelizmente, no Brasil, há muito lixo recebendo o nome de artista. Infelizmente, também, o povo brasileiro é uma decepção. Eis uma das razões pelas quais o lixo tomou os palcos.