Confiram mais um artigo do colaborador deste Blog, Rivelino Liberalino, desta vez fazendo uma análise da atual conjuntura política do país:
Na sexta-feira passada, fui a uma audiência trabalhista na cidade de Jacobina.
Fui sozinho.
Meu companheiro de estrada, meu filho, não pôde me acompanhar. Peguei o carro ainda na quinta-feira, dirigi longas horas, atravessei a noite com o corpo cansado e a mente inquieta. Dormi mal. Acordei cedo. O tempo pesa diferente quando a gente percebe que já não é o mesmo jovem que atravessava madrugadas com café e teimosia. O corpo cobra. A alma também.
A audiência estava marcada para 9h10.
Começou quase às 11h.
O juiz que presidia a sessão tinha um perfil claramente identificado com a esquerda. Militante. Apaixonado pelo PT. E eu fiz o que sempre fiz em três décadas de vivência jurídica: questionei. Onde havia brechas, iluminei. Onde havia certezas frágeis, perguntei. Não por provocação, mas por honestidade intelectual. Porque o Direito, quando deixa de perguntar, vira crença. E crença cega nunca produziu justiça.
Falamos de política.
Falamos da facada em Bolsonaro.
Falamos de versões, laudos, provas, narrativas.
Eu percebia, nitidamente, o esforço quase físico de sustentar convicções que já não se apoiam em fatos, mas em identidade. Ainda assim, o diálogo existiu. E hoje isso já é raro. Porque o Brasil desaprendeu a conversar. Preferiu rotular. Preferiu odiar. Preferiu transformar divergência em ofensa.
Em determinado momento, eu disse algo simples, quase banal:
“Excelência, estou com sono. Dirigi muito. Ainda tenho estrada pela frente.”
Foi aí que algo mudou.
Não o juiz.
O ser humano.
Ele interrompeu a audiência. Mandou preparar café. Trouxe um suplemento que ele mesmo usava para manter a atenção. Aconselhou que eu não almoçasse antes de pegar a estrada para evitar o sono. Demonstrou um cuidado genuíno, fraterno, desarmado.
Ali não havia direita nem esquerda.
Havia dois brasileiros.
Cansados.
Trabalhadores.
Tentando sobreviver a um país que pesa cada vez mais sobre quem produz.
E eu pensei, em silêncio: onde foi que nos dividiram tanto? Quem inventou esse “nós contra eles”? Quem lucra com essa guerra permanente entre irmãos?
Porque o Brasil não está rachado por ideologia. Está aprisionado emocionalmente.
Muita gente não defende político porque acredita nele. Defende porque aquele político virou parte da sua identidade emocional. A ideologia deixou de ser ideia e passou a ser abrigo psíquico. Protege a dor, o ressentimento, a sensação de exclusão, a necessidade de pertencimento. Não é sobre verdade. É sobre proteção emocional.
Por isso, quando surgem provas, delações, documentos, dinheiro devolvido, confissões, editoriais, reportagens, a mente entra em modo de defesa. Não se discute o fato. Ataca-se o mensageiro. Mudar de ideia, para muitos, não é evoluir. É perder o chão. É admitir que construiu a própria história sobre uma farsa. E isso dói mais do que continuar acreditando.
O sistema sabe disso.
E adora.
Enquanto o povo briga por rótulos, o sistema governa. Governa com boletos. Com impostos. Com juros. Com ignorância funcional. Com uma educação que aprova sem ensinar. Com números bonitos e mentes vazias.
Pergunte-se com honestidade: governos querem pessoas críticas, educadas e pensantes? Pessoas assim cobram. Questionam. Não votam por identidade, votam por resultado. Por isso o IDEB cai. Por isso a reprovação some, mas o aprendizado também. Não é descuido. É método.
E enquanto isso, seguimos brigando entre nós, como se o problema fosse o vizinho que pensa diferente, e não o sistema que nos esmaga por igual. Não é direita contra esquerda. É decência contra corrupção. É povo contra um sistema que não usa correntes, usa dívidas.
Político corrupto de esquerda deve pagar.
Político corrupto de direita também.
Ministro que erra, responda.
Juiz que extrapola, seja questionado.
Governo que oprime, seja cobrado.
Não existe lado honesto por definição. Existe conduta.
O Brasil real não é essa caricatura raivosa das redes sociais. O Brasil é o nordestino que estende a mão. É o sulista solidário na tragédia. É o povo alegre, trabalhador, empático, criativo. Nunca existiu norte contra sul. O que existe é um país inteiro no mesmo barco, sendo empurrado para o fundo por um sistema que lucra com a nossa divisão.
Este texto não é um ataque ao eleitor de esquerda. É um convite à liberdade. Liberdade de pensar fora do rótulo. Liberdade de discordar sem odiar. Liberdade de abandonar identidades políticas que já não servem ao povo.
Não somos times.
Somos uma nação.
E só há um caminho para sair dessa prisão: menos paixão cega, mais coragem moral. Menos identidade política, mais compromisso com a verdade.
O Brasil não precisa vencer o outro lado.
Precisa acordar junto.
Acorda, Brasil.
Rivelino Liberalino



Vc tem o dom da palavra. É sempre maravilhoso deleitar sobre seus textos. Parabéns. parabéns, parabéns!