Clamor antigo da população de Campo Alegre de Lourdes desde a fundação da cidade do norte baiano, há 50 anos, O Sistema Integrado de Abastecimento D’água (SIAA) caminha para virar uma realidade. Com recursos do governo federal, a obra ficará sob a responsabilidade da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), que inclusive já abriu o processo licitatório. As empresas interessadas em construir a adutora têm até a próxima semana (dia 22) para apresentarem suas propostas à Codevasf.
O momento deveria ser de completa satisfação entre todos os habitantes de Campo Alegre, mas por lá o anúncio da chegada da adutora ainda é motivo para contestações. Não pelo fato de que irá sair finalmente do papel, mas pelos ares políticos que a obra pode tomar.
Pelo menos esse é o sentimento do presidente da Associação Popular Campoalegrense em Prol da Adutora do Rio São Francisco, Gean Antunes da Silva. De acordo com ele, a obra era reivindicada pela comunidade desde o início da história do município e, durante todo esse tempo, muitas “promessas vagas” foram apresentadas por lideranças políticas da região. Mas adutora que é bom, nada.
“Cheguei até a fazer preces (pela adutora), mas talvez essas preces tenham servido para mim, porque no dia 10 de abril do ano passado alguns moradores me convocaram para lutar pela água. Eu disse ‘vamos’, desde que tivesse parceiros para enfrentar”, afirmou. E assim aconteceu.
Após várias reuniões sobre o assunto, Gean conseguiu concretizar a associação. Antes disso ele já tinha dito ao secretário estadual Eduardo Salles (Agricultura), numa de suas visitas ao município, para avisar ao governador Jaques Wagner (PT) que a população de Campo Alegre “tinha acordado” e iria brigar pela adutora. Em meio a abaixo-assinado e a um movimento para arrecadar doações à entidade (que foi devidamente registrada), Gean começou a se debruçar em estudos.
Descobriu que os dois anos de carros-pipa que abasteceram o município consumiram R$ 10 milhões do estado e governo federal (o equivalente a 15% do valor da adutora, estimada em R$ 70 milhões. Percebeu também que os R$ 2 bilhões para a construção da Arena Fonte Nova dariam para construir quase 30 adutoras no semiárido. E partiu para a ‘batalha’.
“Luta apolítica”
Nessa empreitada Gean lembra que o ex-prefeito de Campo Alegre, Alessandro Dias, disse-lhe que o vice-governador Otto Alencar (PSD) pedia urgência no projeto. Com cópias do documento em mãos, passou por órgãos como a Governadoria e Assembleia do Estado, onde foi recebido pelo presidente da Casa, deputado Marcelo Nilo (PDT). Também foi a Brasília, onde distribuiu as cópias com o deputado federal Daniel Almeida (PCdoB) e Walter Pinheiro (PT), e em órgãos como Codevasf e no Ministério da Integração Nacional. E foi na capital federal onde Gean constatou uma dura realidade.
“As pessoas diziam não acreditar que uma cidade como Campo Alegre, com 30 mil habitantes, não tivesse água. É porque as promessas que nos faziam morriam em Salvador”, afirmou ao Blog.
Cumpridas as estratégias, Gean conta que a associação planejou uma última – mais radical: Se pelos próximos nove meses, o sonho da adutora não vingasse, eles iriam acionar judicialmente os governos estadual e federal a fazer a obra. Se em mais nove meses tudo continuasse como está, a entidade faria um movimento chamado “Zero nas Urnas”, pelo qual a população de Campo Alegre seria orientada a vota nulo em 2014, para todos os cargos. Mas em novembro de 2012, em Salvador, a presidente Dilma Rousseff anunciou finalmente o que todos no município queriam ouvir. Dilma liberou o montante de R$ 400 milhões para construção de adutoras no Nordeste. Entre as quais estava o SIAA de Campo Alegre.
Após o processo licitatório, Gean ressalta que as obras da adutora no município devem começar entre junho e julho deste ano. Garantindo que o movimento foi apolítico, “apenas com a força de Deus e a conquista do povo”, ele lembra que nas eleições de 2012 sequer chegou a colocar algum tipo de propaganda de candidatos de Campo em seu carro. Nem mesmo o do irmão, Dr.Pérsio Antunes (PMDB), que é vereador em Petrolina. Por isso não acha justo que algumas lideranças políticas da região reivindiquem a paternidade da obra. “Por que não anunciam o asfalto em Campo Alegre, já que dizem ter conseguido a água?”, alfineta.
Segundo Gean, quando estiver em funcionamento a adutora deve beneficiar 71 localidades do entorno, que envolve municípios próximos a Campo Alegre e até de estados vizinhos. “Nossa realidade vai mudar porque água significa qualidade vida”, completa.


















