Risco do jogo duplo: Da Fonte encara isolamento ao ‘flertar’ com João Campos

por Carlos Britto // 11 de março de 2026 às 11:00

Foto: divulgação

O xadrez político de Pernambuco vive dias de tensão com o movimento do deputado federal Eduardo da Fonte (PP). O que o parlamentar desenha como uma manobra estratégica para viabilizar sua candidatura ao Senado em 2026, aliados e adversários classificam como um “cálculo de alto risco”. Ao sinalizar um desembarque da base da governadora Raquel Lyra em direção ao projeto do prefeito do Recife, João Campos (PSB), Da Fonte coloca em xeque o robusto capital político que construiu nos últimos anos. Por trás da estratégia de migrar para o palanque socialista, o líder do PP em Pernambuco enfrenta uma rebelião silenciosa na Mata Norte e o risco de perder 80% de sua bancada na Assembleia Legislativa (Alepe).

O primeiro sinal de desgaste dessa movimentação veio de uma região estratégica: a Zona da Mata Norte. Em um recado direto ao comando do partido, uma ala expressiva de prefeitos e lideranças regionais reafirmou lealdade ao Palácio do Campo das Princesas.

O movimento ganhou rosto em um vídeo publicado pelo deputado estadual Antônio Moraes, onde figuras de peso do PP e partidos aliados, como Pedro Freitas (Aliança), Marcone dos Santos (São Vicente Férrer), Paquinha (Macaparana) e Albino Silva (Condado), além de gestores de outras siglas como Armando Pimentel (Itambé) e Éder Walter (Vicência), fecharam questão em apoio à atual gestão estadual. A mensagem é clara: o PP da base não pretende seguir Eduardo da Fonte em uma “aventura” na oposição.

A troca da segurança governista pela incerteza socialista esbarra em dois pontos críticos:

Perda de Ativos Administrativos – Hoje, o PP ocupa espaços de relevância no governo estadual. Romper com Raquel Lyra significa abrir mão da caneta e da influência que garante a capilaridade necessária para uma disputa majoritária.

O “Fator PSB” – Diferente de décadas passadas, a rede municipal socialista no interior está mais fragmentada. A transferência de votos que o PSB oferecia outrora já não possui a mesma robustez, o que torna a “retaguarda” de João Campos um terreno incerto para quem precisa de votos em todos os cantos do Estado.

Alepe

Nos bastidores da Alepe, a conta para Eduardo da Fonte é alarmante. Estimativas indicam que o deputado arrisca perder mais de 80% de sua bancada estadual. Os parlamentares, que dependem diretamente da relação com o Executivo para atender suas bases, mostram pouca disposição para o sacrifício político em nome do projeto pessoal do líder do partido.

Na política, a fama de ‘pular de lado’ conforme a conveniência do momento gera um clima de desconfiança. Novos parceiros temem ser os próximos abandonados caso o cenário mude“, afirma um interlocutor influente da Alepe.

Ao tentar pavimentar o caminho para o Senado, Da Fonte pode estar, ironicamente, destruindo a base que o levaria até lá. Entre a ambição de uma cadeira majoritária e a realidade dos seus prefeitos e deputados, o parlamentar corre o risco de descobrir que a mudança de lado pode até abrir novas portas, mas costuma fechar as estradas que levam ao interior de Pernambuco.

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