Bahia registra aumento de 42,5% nas tentativas de feminicídio no primeiro bimestre de 2026

por Carlos Britto // 27 de março de 2026 às 20:00

Foto: arquivo/reprodução

A Bahia registrou um aumento significativo no número de tentativas de feminicídio nos dois primeiros meses de 2026. Ao todo, foram 57 casos em janeiro e fevereiro, o que representa um crescimento de 42,5% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 40 ocorrências. Os dados são do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública e apontam ainda que, somando feminicídios consumados e tentativas, o primeiro bimestre deste ano já é o mais violento dos últimos 10 anos, com 73 registros. Apesar do aumento nas tentativas, o número de feminicídios consumados apresentou leve queda: foram 16 casos em 2026, contra 18 no mesmo período do ano passado.

Para a professora Márcia Tavares, coordenadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a redução não indica melhora real no cenário. “Ainda é muito cedo para afirmarmos. O cenário se mostra ameaçador se observarmos a forma como o feminicídio é alvo de espetacularização, ao mesmo tempo que há uma banalização, na medida em que faz parte do noticiário todos os dias”, explica. Ela também destaca que os números podem estar subestimados e ressalta que a violência está ligada a fatores como misoginia e relações de poder.

De acordo com pesquisadora Vanessa Cavalcanti, o início do ano pode contribuir para o aumento dos casos devido à maior convivência familiar durante férias e períodos festivos. “Temos um período de férias, festas, de uma convivência mais aproximada, quando são contextos onde os filhos estão dentro de casa e há um atrito. As tensões podem também ser um pouquinho mais elevadas e essa hiper convivência em um período sem aulas, sem outros controles sociais, podem também ser uma observação de agravamento dessas tensões”, disse.

Já a professora e criminalista Daniela Portugal reforça a necessidade de políticas públicas mais eficazes na prevenção. “Uma vez iniciada a execução do feminicídio, já é prova viva de que o estado não acolheu nem protegeu suficientemente esta mulher. Falhou no seu dever de prevenção e a eventual não consumação do crime é pura sorte. Não podemos aqui, em uma demanda tão séria, contar com a sorte. Políticas públicas devem ser feitas com dados, estratégias de inteligência e instrumentos cautelares que evitem o pior”, diz Portugal. Para ela, quando há tentativa de feminicídio, já houve falha do Estado em proteger a vítima, e evitar a consumação do crime não pode depender do acaso.

Considerando apenas os feminicídios consumados, 93% ocorreram fora da Capital. Segundo a desembargadora Nágila Brito, isso está relacionado à falta de estrutura no Interior, como delegacias especializadas, casas de apoio e monitoramento. “É comum que muitos dos feminicídios ocorram no Interior. Os números, no entanto, reforçam a subnotificação dos casos. A resposta está na ausência de equipamentos no Interior, a maioria não tem delegacia da mulher, não tem Casa da Mulher Brasileira, não tem ronda Maria da Penha, não tem monitoração, não tem CRAM, CRAS etc”, explica.

Ações de enfrentamento

A Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informou que tem ampliado as ações de combate à violência de gênero, com a criação de unidades especializadas na Polícia Civil e na Polícia Militar, além de iniciativas como o ‘Baralho Lilás’, que divulga suspeitos de crimes contra mulheres. No campo da prevenção, também foram lançadas campanhas educativas, como a cartilha ‘Meu Namoro é Massa’, distribuída em escolas para conscientização sobre relações saudáveis. (Fonte: Correio)

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